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Caprinovinocultura

 

Escala e qualidade: O DESAFIO CONTINUA

Camila Ranieri*

No início dos anos 2000 a ovinocultura passou a ocupar uma posição de destaque no agronegócio brasileiro, atraindo investidores e sendo reconhecida como uma nova alternativa para diversificação no campo. Muitos novos criadores e indústrias surgiram, motivados pelo déficit entre produção e demanda pela carne de cordeiro no País, que faz com que importemos centenas de milhares de toneladas do produto todos os anos.Cerca de uma década se passou desde a euforia inicial e percebe-se que avanços têm ocorrido, mas muitos desafios ainda existem para a consolidação da atividade.

Um aspecto que se mantém um entrave para o setor é a dificuldade em se obterem dados confiáveis. Ainda é muito difícil estimar a produção de cordeiros, o número de animais abatidos e o consumo da carne pelos brasileiros. As únicas referências disponíveis sobre abates inspecionados no País são os relativos a frigoríficos inspecionados pelo Sistema de Inspeção Sanitária Federal (SIF), pois não existem dados consolidados a respeito de abate de ovinos com inspeções estadual e municipal. Assim, a cadeia produtiva da ovinocultura não pode contar com informações precisas.

No entanto, com base nos dados disponíveis, podemos afirmar que até setembro de 2013 houve redução da quantidade de ovinos abatidos sob inspeção federal de mais de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior, seguindo tendência de queda verificada desde 2010. Isso é demonstrado no gráfico 1.

Ao mesmo tempo, o volume das importações de carne ovina pelo Brasil até o mês de setembro de 2013 foi de 2.330.677 kg, superando em 161% o total do ano de 2012, como demonstra o gráfico 2.

Há um consenso entre os atores do mercado de que a redução do abate inspecionado está ligada ao aumento do clandestino. Esse fenômeno tem se intensificado em algumas regiões, como no interior de São Paulo e no Mato Grosso. O Marfrig, por exemplo, aponta o abate clandestino como uma das razões para o encerramento das atividades com ovinos em sua planta de Promissão/SP. A empresa segue com o trabalho no Rio Grande do Sul e no Uruguai, onde a oferta de cordeiros é maior e estável.

Para se ter uma ideia da dimensão dos abates clandestinos, basta comparar a quantidade de animais abatidos informados pelo sistema do SIF e as quantidades estimadas pela FAO (tabela 1).

Vários pesquisadores estudaram o assunto e verificaram que os abates irregulares variam de 46% a 100% em diferentes regiões do País, como nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, no Distrito Federal e na cidade de Garanhuns (PE).

Outro fator preocupante ao qual tem sido atribuída parte da responsabilidade de pela falta de cordeiros no mercado formal é o intenso abate de fêmeas verificado nos últimos anos, inclusive em 2013. Desde que o mercado da carne ovina se aqueceu e os preços pagos aos produtores pelos cordeiros subiram de R$ 3,00 e 3,50 para R$ 5,00 e 5,50/kg vivo ou mais, o abate de fêmeas se intensificou muito. Ao invés de reter as cordeiras produzidas para expandir os rebanhos, muitos criadores optam por aproveitar os resultados imediatos de sua venda. Também o abate de ovelhas tem sido mais comum. Os efeitos desta prática passaram a ser sentidos pelo mercado, tanto na redução da oferta de cordeiros quanto no aumento dos preços de mercado das borregas para reprodução. O abate de fêmeas chega a 58% do total em alguns frigoríficos mato-grossenses inspecionados, segundo Sorio et al. (2008). Estes autores afirmam que o abate informal de cordeiros pode ser a principal causa disso, pois os produtores vendem os melhores animais diretamente ao consumidor e entregam ao frigorífico aqueles geralmente rejeitados pelo comércio. Para comparação, no Uruguai, o abate de fêmeas em frigoríficos mal alcança 17%.

Em relação aos valores praticados para animais para abate, matrizes e reprodutores, 2013 apresentou uma considerável estabilidade. A tendência é que estes valores se mantenham, exceto no período das festas de fim de ano, quando tradicionalmente os preços sofrem alguma elevação. No mercado de animais de elite, por outro lado, tem sido verificada redução de preços. Para a produção comercial, isto refletiu em maior acesso dos produtores a animais potencialmente melhoradores, o que historicamente não ocorria. Este aspecto tem sido indicado como um dos fatores da melhoria da qualidade dos rebanhos de corte.

Apesar do acesso facilitado a reprodutores, a eficiência técnica das criações de ovinos no País ainda é bastante baixa. Esta ineficiência ocasiona altos custos de produção dos cordeiros, o que dificulta o diálogo entre produtores e frigoríficos e a viabilidade econômica do negócio. Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (RAINERI, 2012) deu origem a informativos mensais que passaram a ser divulgados no segundo semestre de 2013. Eles abordam o custo de produção de cordeiros no estado de São Paulo e revelam que os baixos indicadores zootécnicos (taxas de prenhez, prolificidade, mortalidade, ganho de peso, etc) de muitas criações são responsáveis por custos de produção muitas vezes superiores ao valor de mercado do produto. Desta forma, é nítido que para se obter sucesso na ovinocultura é necessário empenho para alcançar a eficiência. Dois fatores apontados como causas para este fenômeno são a pouca experiência de uma grande parcela dos novos ovinocultores com a atividade e a escassez de profissionais capacitados para assistir os produtores.

Os elevados custos de produção do cordeiro nacional são um gargalo sério, visto que o produto importado é produzido a custos mais baixos e apresenta menor preço. Assim sendo, alguns frigoríficos já passaram a julgar ser economicamente mais interessante importar carne ovina congelada e revender no mercado nacional do que adquirir, abater e comercializar o cordeiro produzido no País. Segundo eles, o Uruguai, principal concorrente da carne ovina brasileira, tem sido capaz de fornecer produtos de qualidade satisfatória a valores mais atraentes. A título de comparação, o gráfico 3 apresenta o comportamento dos preços da carne ovina importada e a tabela 2 demonstra os preços praticados para os animais nacionais. É nítido que o produto nacional apresenta preços mais elevados que o importado.

Beno Zaterka, proprietário do frigorífico Clube do Cordeiro, da cidade de Itapira/SP, afirma que "até o mais caro dos restaurantes quer preço. Cordeiros de qualidade encontro fácil no mercado, o problema é o preço final". Sua empresa é uma das que reduziram a escala de abate e passaram a comercializar o produto importado: tem abatido de 30 a 50 cordeiros por semana e revendido o triplo desta quantidade.

Para Camila Ranieri, 2013 apresentou uma considerável estabilidade

Por outro lado, o desperdício nas indústrias ainda é elevado, com baixo aproveitamento de produtos como couros e vísceras. Muitas empresas enfrentam dificuldades também com o escoamento de certos cortes, que variam de acordo com a região do país: em alguns locais é mais difícil comercializar pescoço e costela, em outros paleta ou ainda as carcaças e derivados de ovelhas de descarte.

Assim, como perspectivas, pode-se afirmar que o mercado da carne ovina continua promissor, comprador, com preços estáveis e demanda firme. Por outro lado, a necessidade de organizar a cadeia agroindustrial e melhorar a eficiência em todos os seus elos em busca de baixar custos é premente. Outros aspectos que chamam a atenção e exigem atitudes são o intenso abate de fêmeas (que tem sido alvo de alguns programas, como o Mais Ovinos no Campo, no Rio Grande do Sul) e a pequena escala de abates (que pode ter como alternativa o modelo de Propriedade de Descanso de Ovinos para Abate - PDOA -, idealizado por um conjunto de entidades do Mato Grosso do Sul e posto em prática em 2013 para facilitar o escoamento para as indústrias frigoríficas). Também a constante melhoria da qualidade dos cordeiros é importantíssima, especialmente como forma de justificar a diferença de preços em relação ao produto importado.

*Camila é criadora e pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo [email protected]