Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Caprinovinocultura

Esforço para CRESCER

Ao mesmo tempo que se estimula a produção, conjuntura favorável do mercado é um desafio para a atividade

Denise Saueressig
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Ciclos positivos trazem oportunidades e ganhos, mas também são desafiadores. É preciso manter e aprimorar o que está funcionando e trabalhar para resolver o que ainda está pendente. Entre os caprinovinocultores, os últimos meses têm sido assim. O consumo crescente da carne e o maior desenvolvimento do setor ainda são acompanhados por uma produção incapaz de atender a demanda.

A procura que supera a oferta vem resultando em aquecimento dos preços. Em um dos principais estados produtores, o Rio Grande do Sul, o levantamento realizado pela Emater demonstra bem esse comportamento. Em novembro de 2009, os criadores recebiam em torno de R$ 2,50 pelo quilo vivo do cordeiro. Na mesma época do ano passado, a cotação chegava a bater os R$ 5. Agora, o quilo vivo se mantém em cerca de R$ 4,50 no estado.

Em São Paulo, outra região produtiva de destaque, o mercado está ainda mais valorizado. O Indicador de Preço do Cordeiro Paulista aponta para valores de R$ 5,66 o quilo vivo na praça de Bauru no período entre 3 e 18 de novembro. Ainda segundo a pesquisa, que é realizada pela Faculdade de Engenharia de Alimentos e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), o preço alcançou R$ 5,80 em São José dos Campos nessa mesma época.

A conjuntura vem representando mudanças significativas no setor, conclui o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Schwab. “Essa evolução fica explícita nos investimentos realizados por produtores, empresas de insumos, instituições de pesquisa e de fomento, governos e frigoríficos”, cita.

O valor atrativo do cordeiro deve incentivar, antes do aumento do rebanho, a busca por maior profissionalização entre os produtores, complementa o criador gaúcho Glauco Beck de Bitencourt, presidente da Cooperativa Regional de Criadores de Ovinos de Santiago/RS (Cooperovinos). “O produtor buscará melhores índices, que por sua vez, resultam em qualidade. A qualidade agrada ao consumidor, que mantém o mercado aquecido. É um efeito de causa e consequência muito positivo para todos os segmentos envolvidos na cadeia”, destaca.

O movimento consistente do mercado foi o grande motivador da reestruturação da ovinocultura nos últimos meses, ressalta Bitencourt. Ele recorda os problemas do passado e acredita que o futuro reserva boas novas para os empreendedores do setor. “Passamos por fases, não muito remotas, em que além de não termos preço, não tínhamos para quem vender. Como produtor, afirmo: não há nada pior que isso para a desmotivação de uma atividade. Presenciamos em 2008, a costela e a paleta ovina proveniente do Uruguai chegando com preço final ao consumidor a R$ 1,99 o quilo. Mas acho que esse problema não deve se repetir. O Uruguai tinha, há alguns anos, perto de 30 milhões de ovinos e, hoje, tem cerca de 8 milhões de cabeças. Esta situação é definitiva, pois a ovinocultura está sofrendo forte pressão da lavoura de soja e eucalipto naquele país. Assim, concluo que os fatores que desmotivaram nossos produtores não terão vez novamente. A ovinocultura está se tornando uma atividade pujante, profissional e encantadora, tanto para quem trabalha com os animais como para quem saboreia o resultado final”, considera.

Caprinos, diferencial na mesa

A lógica da carne caprina é a mesma da carne ovina, com alguma diferenciação em relação à preferência dos consumidores de acordo com a região. Enquanto no Nordeste é prato típico, em São Paulo, a carne de cabrito tem encontrado espaço na alta gastronomia, com destaque para o consumo entre as comunidades italiana, portuguesa, árabe e judaica.

A Apris, empresa especializada na produção de carne premium de cabrito a partir de animais da raça Boer, projeta triplicar as vendas em 2012. Atualmente, a empresa comercializa uma média de 600 quilos de carne por mês. Na opinião do proprietário da Apris, Gustavo Domingues, a produção e o consumo mundial da carne têm crescido nos últimos anos devido ao seu alto valor nutricional, com destaque para os teores elevados de cálcio e proteínas, e baixo índice de gordura.

Para o leite caprino, a expectativa também é positiva, principalmente devido a programas públicos no nordeste e à iniciativa de empresas no sudeste, onde há grandes investimentos na fabricação de queijos. “Existe o incentivo governamental para a compra do leite no Ceará, por exemplo, bem como esforços para a implantação de uma fábrica de leite em pó na Paraíba, para possibilitar também a exportação. Os preços praticados na compra governamental giram em torno de R$ 1,30 o litro. O valor praticado por uma empresa privada que busca o alimento nas propriedades, fica na média de R$ 1,33 no Sudeste e R$ 1,35 no Sul do país. Os preços pagos pela empresa aos produtores no Sudeste podem chegar até R$ 1,46 devido ao pagamento por qualidade”, detalha o pesquisador Juan Ferelli, da Embrapa Caprinos e Ovinos. O apelo do leite caprino é nutracêutico. Em relação ao produto da vaca, tem mais cálcio e causa menos problemas de alergias por ter melhor tolerabilidade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem um rebanho de 9,1 milhões de cabeças de caprinos. Os plantéis mais expressivos estão no nordeste. Os estados da Bahia, Pernambuco, Piauí, Ceará e Paraíba reúnem o maior número de animais.

Conhecimento

A necessidade de qualificação dos produtores e dos profissionais que trabalham com a atividade é unanimidade entre os representantes da cadeia. Para ampliar o rebanho ovino, hoje estimado em 16,8 milhões de cabeças, é preciso investir em informação, frisa o presidente da Arco, Paulo Schwab. “É fundamental trabalhar a ovinocultura com todas as suas características peculiares e seus diferenciais. Ainda percebemos dificuldades em áreas como a sanidade, que envolve o conhecimento de enfermidades, vacinas e medicamentos”, observa o dirigente.

O desafio para 2012 é melhorar a assistência técnica aos produtores de ovinos e caprinos em termos de quantidade e de especialização, acrescenta o pesquisador Juan Ferelli. “As soluções para as questões tecnológicas, como melhoramento genético, sanidade, reprodução e alimentação, estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento organizacional entre os elos da cadeia”, relata.

Não por acaso, a atividade conquista melhores resultados onde a adoção de novas tecnologias é uma realidade. “Esse desenvolvimento têm possibilitado a melhoria na qualidade dos animais e produtos derivados ofertados em algumas regiões do país, especialmente naqueles locais em que os arranjos produtivos encontram-se mais organizados. Como exemplos de sistemas com esse perfil, podemos citar a produção de carne ovina na Bahia, onde existem três polos produtivos em Juazeiro, Pintadas e Jussara, e um polo produtivo de genética, em Senhor do Bonfim”, enumera Ferelli.

Outro gargalo importante do setor é a frequente ocorrência de abates e de comercialização informais. As longas distâncias rodoviárias e o reduzido tamanho dos lotes colaboram para a informalidade, já que encarecem o frete e excluem alguns produtores do processo de comercialização com inspeção sanitária. “Como consequência, esses produtores abatem os animais, levam até as cidades e vendem a carne sem controle de higiene e sanidade, além de gerarem uma condição desfavorável em termos fiscais”, assinala o criador Glauco Bitencourt.

Procura por carne e leite de caprinos aumenta no sudeste

Na opinião dele, seria interessante promover uma maior fiscalização nos estabelecimentos comerciais principalmente, assim como promover um maior desconto de ICMS e Cofins para a carne de cordeiro.

O abate informal também abre portas para a importação, já que estabelecimentos como grandes redes de restaurantes, hotéis ou supermercados adquirem apenas o produto com selo de inspeção sanitária oficial. “Para aumentar a produção e fazer com que a oferta acompanhe a demanda é preciso trabalhar firme na organização dos produtores, na melhoria da eficiência produtiva e, principalmente, na melhoria da rentabilidade da ovinocultura”, sustenta o pesquisador da Embrapa.

Os objetivos estão claros e, nos próximos anos, criadores, especialistas e empresários têm a missão de conseguir aproveitar as oportunidades de um mercado aquecido e formado por consumidores cada vez mais interessados.