Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

Estratégia

Posicionamento correto no novo cenário da cadeia produtiva

Francisco Vila*

O confinamento de bovinos chegou a um patamar que requer uma estratégia de reposicionamento da maioria dos envolvidos. Após duas décadas de experiência e crescimento contínuo, ficou claro que a terminação no cocho integrou-se como parte importante no sistema produtivo da pecuária de corte. No entanto, observamos tendências de diferenciação que precisam ser avaliadas e incorporadas no plano de negócio de cada propriedade que trabalha ou pensa em ingressar no confinamento.

O número de animais confinados cresceu (cerca de 5% ao ano na média), porém, evoluiu menos do que seus defensores previam no meio da década passada. Ou seja, a atividade parece andar mais para o lado do que para frente. Podemos registrar uma forte diversificação de conceitos e práticas de terminação no cocho, sem isso se traduzir imediatamente em aumento mais significativo do número de animais que vão para o abate. Após crescimento robusto entre 2000 e 2006, o confinamento oscila em torno de 3 mi de cabeças ao longo dos últimos 4 anos. Esse comportamento deve-se à combinação de uma série de fatores que precisam ser identificados e quantificados.

Após o entusiasmo inicial, muitos produtores perceberam que criar e engordar boi a pasto é uma coisa e terminar animais no confinamento é outra.

Dezenas de viagens foram organizadas para visitar grandes feedlots nos EUA e aí ficou patente que confinamento é um processo industrial de produzir carne. Margens de rentabilidade em torno de 2% só podem ser obtidas com uma rigorosa gestão de custos e riscos. Compras antecipadas e blindagem na bolsa representam ferramentas indispensáveis para assegurar lucratividade, que por muitos é considerada modesta, ponderando o esforço e os riscos envolvidos. Talvez por essa percepção mais realista os investidores em confinamento e Boitéis de porte médio (capacidade estática de 5 a 10.000 cabeças) reduziram seus projetos.

Por outro lado, surgiram novos “players” importantes, que ocuparam espaço e tocam o confinamento com um modelo de negócio bem diferente do produtor tradicional. Uma vez que são muitas as evoluções que ocorrem ao mesmo tempo por baixo do guardachuva “confinamento”, devemos tentar desenhar um mapa que revele quem mandará na pecuária certificada no final da presente década.

No gráfico, encontramos a atividade como interface entre diversos sistemas de produção de boi e o mercado da carne de qualidade. Numa conta simples, verificamos que, do abate anual de 40 mi cabeças, aproximadamente 20% podem ser considerados animais de qualidade “padrão exportação” (seja para o mercado interno classe A ou para a venda a outros países). Desse contingente, um pouco menos da metade foi terminada em diversos tipos de confinamentos (3 mi cabeças na média dos últimos anos).

Sendo que os custos de reposição e nutrição, por um lado, e a evolução do preço da arroba, de outro, exercem impactos contraditórios. Torna-se difícil dizer por que não houve maior ou menor produção nos confinamentos. Juntase, ainda, o fato de que provavelmente mais da metade dos confinadores não blindam o risco em contratos futuros. Dessa forma, torna-se arriscada uma avaliação conclusiva do que ocorreu no passado.

Novo mapa para o setor

Estamos, assim, perante um cenário bastante confuso. Uma estratégia eficiente para não perder as oportunidades do mercado, porém, sem se expor a riscos sistêmicos do mercado, é a definição do perfil do nosso negócio específico e do nosso possível posicionamento no jogo do setor, que podemos prever através da classificação e avaliação do peso de cada um dos “players” que dominarão o segmento da carne de qualidade daqui em diante.

Quem está interessado e quem possui condições para operar e ganhar com o confinamento no futuro? Na lista dos atores envolvidos, é possível perceber que cada grupo dispõe de vantagens e desafios distintos, que o pecuarista tradicional precisa conhecer para encontrar um nicho de oportunidade. As indústrias de insumos já variam sua atuação conforme essa segmentação de clientes.

Transformadoras de produtos agrícolas – produzem resíduos que, em princípio, provocam custos de tratamento. Aí, a opção de transformar massa orgânica residual em energia ou em forrageira representa uma alternativa economicamente interessante. A empresa poupa os custos com o depósito dos resíduos, bem como as despesas com o transporte da fábrica até o aterro. Normalmente, são fábricas que dispõem de terrenos espaçosos ou arrendam pequenas fazendas na vizinhança, onde podem instalar um confinamento. Acesso ao crédito, disponibilidade de máquinas e capacidade de gerenciar novos negócios complementam as vantagens econômicas já referidas e transformam indústrias em fortes concorrentes, com vantagens de custos sobre o pecuarista. A falta de experiência não é problema, pois as indústrias sabem contratar pessoal qualificado, fazer compras inteligentes e costumam blindar riscos no mercado futuro, além de praticar parcerias com pecuaristas.

Frigoríficos de porte médio e grande - descobriram o confinamento como arma de múltiplas vantagens. Em função das crescentes exigências do consumidor, a indústria precisa encontrar processos que assegurem qualidade, segurança, padronização e regularidade de fornecimento da matéria-prima. Dessa forma, o confinamento resolve dois problemas. A própria indústria cuida do processo da terminação conforme especificação das encomendas. Assegurar qualidade e número de animais conforme cronograma de vendas tornou-se uma estratégica importante para atender clientes e reduzir custos. O segundo ponto é a maior independência da oferta de boi no mercado, que oscila ao longo do ano. A segurança de já dispor de um estoque básico para manter o abate em nível regular permite uma posição mais forte de negociação no mercado spot. Além disso, os frigoríficos combinam o confinamento com outros instrumentos, como a venda a termo, a oferta de serviços de Boitel e a intensificação de programas de fidelização para contingentes de animais diferenciados. O uso racional de dejetos e o potencial para realizar investimentos ambientais (ABC) com financiamentos subsidiados tornam o confinamento um negócio independente com custos altamente competitivos.

Investidores institucionais têm se tornado cada vez mais proprietários de segmentos atrativos da agropecuária. O acesso privilegiado a grandes volumes de capital com juros baixos, bem como a visão estratégica de negócio, auferiu vantagens que encontram na necessidade de o confinamento ser tratado como processo industrial de produção de carne.

Boitel, como negócio isolado, enfrenta o maior número de apertos. A dependência do custo de reposição, dos preços de insumos que variam em função de fatores dificilmente previsíveis e dos preços impostos pelos frigoríficos conforme escala e oferta geral deixam pouco espaço para criatividade. A tendência de reforço do confinamento estratégico de pecuaristas e agricultores, bem como a prática dos frigoríficos que absorvem em seus confinamentos parte do boi que em anos anteriores foi para os boitéis devem limitar o crescimento dessa atividade.

Agricultores podem ser encarados como o maior desafio para o pecuarista, não apenas no segmento do confinamento, mas na engorda em geral. A discussão sobre o novo Código Florestal trouxe o pensamento sistêmico sobre os conceitos da sustentabilidade. No aspecto econômico do tripé, surgiu a necessidade de aproveitar melhor os recursos escassos. Múltiplas formas de integração dos componentes lavoura, pecuária e floresta ocupam as agendas de seminários e já entraram no planejamento estratégico dos produtores de vanguarda. Neste contexto, parece mais provável que o agricultor expanda atividades para dentro da pecuária do que o contrário. A disponibilidade de máquinas, a perspectiva de uma 3ª safra (pasto), a familiaridade de contrair empréstimos, a disponibilidade de mão de obra mais qualificada e o fato de a grande maioria dos agricultores de porte médio morarem nas fazendas jogam em favor de uma tendência crescente de incorporar a pecuária como mais uma alternativa de exploração da terra. Aí, abrem-se oportunidades para parcerias com pecuaristas.

Finalmente, o pecuarista também pode evoluir no negócio do confinamento. Em geral, já existe uma tendência de intensificar a produção bovina em todos os segmentos. Com a ampla oferta de conhecimentos sobre dezenas de modelos de terminação de boi no cocho não existe mais o risco de cometer erros primários. O foco recente na recuperação do pasto cria condições para aumentar a lotação que, por sua vez, recomenda o confinamento como ferramenta de gerenciar o equilíbrio físico e financeiro da operação em muitas fazendas de porte médio. Juntamente com o suplemento a pasto, outros conceitos inovadores, como a recria em confinamento (em regiões com estiagens bem definidas), são adotados por produtores que enxergam o sistema produtivo com o novo olhar de um negócio integrado. Dessa forma, há espaço para todos, mas as regras do jogo estão mudando.

Cogestão geracional

Tornou-se evidente que o futuro pertence a quem se mostrar capaz de entender as mudanças do setor e estiver disposto a incorporar novos conceitos, tecnologias e práticas de gestão. Uma via natural de adotar técnicas mais sofisticadas é a oportunidade que a entrada de futuros herdeiros oferece para um grande número de propriedades. A atual geração já fez muito ao elevar a tradicional pecuária extensiva para o patamar semitecnificado. A introdução do sistema de rotacionado e o uso de modelos simples do confinamento estratégico criaram as condições físicas e financeiras para, agora com o conhecimento técnico e a energia juvenil dos filhos, embarcar para a próxima etapa da pecuária de alto empenho. Nem o pai nem o sucessor sozinhos conseguem vencer os desafios da mudança contínua. Porém, juntando experiência e novos conceitos numa prática de convivência produtiva e com diálogo de respeito mútuo (cogestão geracional), a pecuária de porte médio conseguirá perfeitamente ocupar um espaço satisfatório nesse novo xadrez do confinamento brasileiro.

Nota: Em novembro do ano passado, sugerimos um preço da arroba de R$105,00 para a safra do confinamento de 2010. Acertamos melhor do que em anos anteriores. Para o próximo ano, parece plausível e cauteloso contar com o mesmo patamar de preço para outubro/ novembro de 2012.

*Consultor Internacional [email protected]