Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Confinamento

Montanha Russa

Francisco Vila*

O ano de 2010 foi atípico. Esperavase um patamar de preço em torno de 85 R$/@, que chegou a 110 R$/@ no pico do confinamento. Ganhou- se um dinheiro extra; no entanto, o aumento simultâneo do preço do bezerro, que será confinado em 2011, absorveu boa parte desse chamado “wind fall profit” (lucro trazido pelo vento da sorte). Olhando para 2009, temos mais um ano incomum, pois, na altura da compra do bezerro em 2008, o preço da @ no mercado futuro tocou os 100 R$/@, mas não se manteve. Nessa altura, o custo do bezerro já tinha se estabilizado num patamar que reduzia a expectativa de lucro para 2009. Por diversos motivos, o total de animais confinados diminuiu pela primeira vez em muitos anos. E, no caso de 2008, tivemos outro ano atípico. O abate de matrizes e a crise global podem ser responsabilizados por isso.

Verificamos, então, um fenômeno interessante: o ‘atípico’ parece ser o ‘típico’. Em cada ano ocorrem fatos que podem beneficiar ou prejudicar a atividade do confinamento. E quase a totalidade das influências está fora do controle. Essa realidade de incertezas foi percebida pela primeira vez em 2007. Desde então, o confinador ficou mais indeciso e começou a observar melhor os fenômenos fora da fazenda. Independentemente do nível tecnológico e da integração do sistema produtivo, quase 90% do custo do confinamento deve ser considerado “externo”. Mesmo no caso da integração de cria, engorda a pasto e terminação no confinamento, o custo direto é contabilmente igual para todos.

Ao estabelecer um centro de custo, não faz diferença se o confinador compra o boi magro de terceiros ou usa da própria fazenda. Muitas vezes, esse custo contábil não é explícito, o que dificulta a apuração de resultados. Com a crescente sofisticação dos aspectos tecnológicos e gerenciais e contando ainda com a segmentação crescente do setor no qual concorrem pecuaristas, agricultores e frigoríficos, com modelos e armas diferentes, o confinador descobriu que sua atividade é basicamente um ‘processo industrial’. Como tal, as margens operacionais tendem a diminuir ao longo do tempo. Mais produtores adotam conceitos e práticas modernas. Assim, o diferencia lprincipal passa a ser a capacidade de otimizar o processo nas circunstâncias específicas de cada fazenda. Encontrar a tecnologia certa para a região e determinar o número de animais adequados para gerar economia de escala representam os principais desafios para manter o negócio atrativo.

Assegurar lucro

Como em qualquer negócio, dinheiro ganha-se com investimento, gestão (tecnologia e pessoas) e capacidade - e sorte - de comprar e vender bem. No gráfico da próxima página observamos o peso relativo de cada um desses componentes. Uma vez que o resultado do ano é composto por dezenas de pequenos ganhos parciais, geralmente compensados por ineficiências e desperdícios de tempo e insumos, o planejamento torna-se a tarefa mais importante para gerar lucro.

Simplificando, poderíamos dizer o seguinte: se o custo do animal que entra no confinamento representa em torno de 60%, dois terços de nossa atenção como investidores deveriam ser focados na obtenção da matériaprima em qualidade, quantidade e preço mais apropriados. É sabedoria tradicional que o ganho está na compra. O mesmo vale para a alimentação que, juntamente com o gasto sanitário, representa outros 30%. Compra antecipada, transporte fora da época de pico, armazenagem correta e, eventualmente, aquisição coletiva com vizinhos ou membros de um pool de compras impactam muito no resultado do ano. Resta, com peso de apenas 10%, a operação propriamente dita do confinamento. No entanto, normalmente o foco do empresário está mais nela e menos no planejamento, nas compras e na venda do animal pronto.

Planejamento e controle

A base do negócio de terminação é composta pela estrutura existente na fazenda, pela competência e experiência da equipe e pelo dinheiro em caixa no início do ciclo. Um diagnóstico objetivo do potencial, bem como das limitações desses fatores, deve anteceder o planejamento do programa anual.

Uma vez que as condições externas são iguais para todos, a habilidade de sincronizar esses três elementos é o fator decisivo do lucro.

O planejamento deve ser desenvolvido sob duas ópticas e em duas fases. Primeiro, levanta-se o potencial da propriedade no início do período. A simulação de número de animais e dias de confinamento conforme sistema tecnológico, nível de mecanização e capacidade da equipe define os preços que se pode pagar pelos animais e insumos, bem como a expectativa do valor da @ no final do ciclo.

Na 2ª fase, inverte-se o raciocínio. Após pesquisa exaustiva das fontes de informação disponíveis, são estabelecidas previsões conservadoras dos preços de animais, insumos e do produto pronto para simular - dentro das condições físicas, da equipe e fluxo de caixa - o provável resultado do ano. Se as duas abordagens indicam um corredor de operação vantajoso, passa-se à 3ª etapa: a simulação de cenários alternativos. Existem 3 variáveis que devem ser testadas relativamente à sua sensibilidade dentro do modelo.

Ou seja, com o custo de insumos considerado estável e prevendo um determinado patamar do preço futuro do boi, variamos em 5 a 10% o custo de compra do animal adequado para o confinamento. Desta forma, podemos obter o preço máximo que podemos pagar pelo bezerro. Considerando que o custo do animal representa em torno de 60% do valor final da produção e admitindo uma margem líquida de lucro em torno de 5%, podemos calcular o risco do confinamento para o próximo período, em função dos preços atuais de reposição dentro das características genéticas e de peso que definimos para o sistema de produção.

Num próximo passo, é avaliada a variação de custos de insumos, deixando as outras variáveis estáveis. Se o custo diário total em 2010 oscilava entre R$ 3,50 e 4,50 comparamos com o cenário provável das commodities para 2011 e estabelecemos o percentual de variação desse custo. Conforme especialistas, é prudente calcular um aumento de 5 a 15%, segundo a formulação de dieta.

O mesmo procedimento faz-se com a simulação do preço da @ para o período outubro/novembro de 2011. Naturalmente, seria desejável dispor de um modelo matemático com a variação simultânea dos três fatores de influência (custo de animal, custo de insumos e preço de boi gordo). No entanto, mesmo admitindo que a realidade é ainda mais complexa, um simples exercício manual já contribui muito para reduzir o risco da atividade.

Profissionais de vários setores podem ajudar na tarefa. As empresas de insumos, os programas de fidelização dos frigoríficos, a ASSOCON e consultores experientes em modelagem de confinamento possuem conhecimentos complementares ao diagnóstico individual da fazenda. O pecuarista pode e deve integrar todas essas competências para (re)desenhar seu plano de ação para cada novo ciclo.

Tendências 2011

Como ensina a experiência, não é possível prognosticar com exatidão desejável o comportamento das principais variáveis do negócio. Em todos os eixos é preciso operar com hipóteses monitoradas constantemente. A cada final de mês devem ser ajustadas e o modelo de produção, recalculado. O controle contínuo dos números e indicadores torna-se tão importante quanto o bom planejamento.

Todavia, existem ferramentas para diminuir os riscos. Seguem alguns conceitos que podem ajudar o plano anual.

A dimensão da atividade para o próximo ciclo deve ser definida em função do fluxo de caixa existente. Todas as despesas com animais, insumos e custos operacionais devem estar cobertas previamente.

Na altura da compra dos animais para o confinamento (sejam eles bezerros para engorda no pasto e posterior terminação ou boi gordo para ingresso direto no confinamento), é preciso blindar o investimento por mecanismos do boi a termo ou mercado futuro. O confinador sempre tem de lembrar que é produtor e não especulador.

O ciclo da pecuária brasileira indica escassez de bezerros durante mais 2 ou 3 anos. A tendência e o reflexo na reposição devem ser observados para assegurar resultados positivos ao longo dos anos.

Indicadores macroeconômicos apontam para uma demanda robusta. No entanto, é preciso observar a elasticidade do preço da carne bovina, que varia tanto com a renda do consumidor como com o preço das três carnes na gôndola. Existe opinião generalizada de que o preço da @ na próxima safra de 2011 pode oscilar entre 100 e 110 R$/@.

Em função da insegurança estabelecida com a sequência de anos atípicos, a estratégia do confinador parece ser mais conservadora. O aumento da atividade dos feed-lots dos frigoríficos e o ingresso de agricultores na atividade ainda não parecem suficientemente fortes para compensar a tendência. Para 2011, pode ser prevista a repetição do volume global de confinamento de 2010. Esse número continua abaixo do pico de 2008 e deve chegar a 3 milhões de cabeças, dos quais 1/3 produzido nos confinamentos dos frigoríficos.

 

Para Vila, 2011 deve ser parecido com 2010

A gestão de risco por contratos de fidelização, boi a termo ou blindagem na bolsa avança, mas menos do que o esperado. Mesmo tratando-se de um instrumento indispensável, o produtor rural ainda não se familiarizou e frequentemente não resiste à tentação de especular. No confinamento, isso pode ser prejudicial.

A lição do passado juntamente com a mudança estrutural do setor indica que as margens da atividade permanecem estreitas. O estoque regulador dos confinamentos dos frigoríficos, associado à vantagem dos custos dos agricultores que expandem sua atividade para ações pontuais de terminação de garrotes exigem uma maior profissionalização dos pecuaristas. O foco no planejamento estratégico, bem como o controle contínuo ao longo do processo são ferramentas indispensáveis para equilibrar o risco do negócio com a perspectiva de lucro. Uma vez que a indústria de alimentos precisa do serviço diferenciado do confinamento, a tendência no médio e longo prazo é de crescimento de 10%/ ano, ao longo da próxima década.

*Consultor da Sociedade Rural
Brasileira - [email protected]