Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Caindo na Braquiária

A carne que adoramos

Naquela tarde chuvosa, achar um costelão gordo e de boa espessura em Uberaba/MG foi uma verdadeira saga. Eu iria cozinhar esse que é, talvez, um dos mais saborosos cortes da carcaça bovina. Quando preparado com lentilha em fogo baixo na pressão, forma um dos mais refinados pratos da culinária. Seria a primeira vez que eu mergulharia nessa receita temperada com ervas finas e cerveja preta. Os convidados chegariam por volta das 20h30 a fim de destaparmos o primeiro vinho Malbec de aroma inigualável.

Por falar em carne, esses dias numa roda de grã-finos que me encontrava, surgiu o assunto alimentação e naturalmente chegamos ao cardápio de cada um. Como um jogo de vaidades, cada qual descrevia o prato preferido, vaticinando sobre preferências nutricionais e cardápios, para os quais a grande maioria levava em consideração receitas diárias variando o tipo de carne consumida, tais como peixe, frango, suíno e boi. Em reuniões desse tipo, onde encontro cidadãos urbanos acicatados pelos Jornais Nacionais da vida a consumir carne vermelha com moderação, me reservo no direito de falar sobre tal assunto somente se questionado. Sou amante inconteste da carne vermelha e costumo dizer que em casa também variamos o tipo de carne durante a semana, seja almôndegas, bifes de contrafilé acebolados, rabada ao molho vermelho, maminha no forno, strogonoff de patinho ou churrasco de picanha, o que poderia causar certo pânico por aí.

Nas classes A e B mais abastadas e com maior necessidade de dispêndio de energia do que exatamente consumo, a prática de variar a proteína animal não encontra similar na classe C e D, que agora, com o aumento do poder aquisitivo, pode consumir mais de uma vez por semana o tão sonhado e suculento bife ao ponto.

O consumo interno de carne vermelha vem ultrapassando todos os níveis já registrados anteriormente, sendo que atualmente o mercado brasileiro chega a representar em algumas plantas frigoríficas mais de 68% de toda carne comercializada.

Esse, certamente, é um dos motivos principais que levaram os preços da arroba a patamares jamais observados (atualmente ao redor de US$ 60,00), além de uma seca fortíssima no Centro Norte do País, privando o fornecimento de bois gordos por parte dos pecuaristas e ainda a valorização de nossa moeda frente ao dólar, impossibilitando de exportarmos carne com o valor agregado do passado.

Esse tripé de acontecimentos configura a hermenêutica da relação Indústria x Mercado, ou seja, a fiel aplicação da lei da oferta e demanda, caindo por terra a teoria de um possível monopólio e conchavos entre os maiores frigoríficos do setor.

Nesse mesmo espaço, na edição de outubro de 2009, analisamos de forma fria e otimista as fusões da indústria frigorifica, destacando a real possibilidade de haver uma significativa melhora nos preços pagos ao produtor. Seja por melhor administração das empresas ou ainda pela mudança na forma de relacionamento entre frigoríficos e criadores, na qual os primeiros iniciavam conversas com a classe pecuária no sentido de formação de alianças, pagando prêmios aos produtores, com a garantia de fornecimento de bois de qualidade durante o ano todo. Nos últimos 12 meses, os preços subiram e essa aproximação já é sentida. Parabéns à indústria e à classe pecuária, que vem fazendo sua parte.

Resta, agora, pensarmos que a população da Terra dobrará até 2050, e com relativo aumento da renda percapita, havendo a necessidade de incremento na produção de carne. Há ainda 60 milhões de ha de terra no Brasil para serem reformados e maximizados na utilização pecuária, produzindo a carne que os brasileiros desejam e que o mundo precisa.

Dirigidos pelo odor, os ilustres convidados vieram guiados inebriadamente pelo perfume que exalava do prato, onde pudemos degustar juntos a maravilhosa receita. Logicamente, tudo isso permeado por uma boa conversa sobre genética e grandes touros do momento.

 

Alexandre Zadra
Zootecnista [email protected]