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Café

Uma esfriada na cotação

Em um ano, o café na Bolsa de Nova York acumulou perda de 21%, em razão da safra brasileira recorde. Em Minas Gerais, a saca de 60 quilos do arábica chegou a R$ 425 em julho de 2018, depois de bater em R$ 470 um ano antes. O tombo não foi maior pela valorização do dólar

Lessandro Carvalho
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O mercado internacional de café teve uma temporada de 2017/18 (julho/junho) de quedas nas cotações. A Bolsa de Mercadorias de Nova York (ICE Futures US) para o café arábica, que baliza a comercialização no mundo, teve quedas ao longo do período, e do ano civil de 2018. No Brasil, o cenário não foi diferente, o café também vive um período internamente de valores pressionados. Em 2017, houve momentos em que o mercado se sustentou na bolsa pelo receio em torno da produção brasileira de 2018, que começou a ser colhida em abril/ maio de 2018.

Café

Esses temores também garantiram suporte aos preços internacionais no começo de 2018. Mas o clima melhorou, as dúvidas foram dissipadas, e o Brasil confirmou a colheita de uma safra recorde, o que derrubou as cotações em NY gradualmente nos últimos meses. A Bolsa de Nova York fechou o pregão de 31 de julho de 2017 com a primeira posição em 139,25 centavos de dólar por libra-peso. Já em 31 de julho de 2018, o mercado fechou com o arábica a 109,90 centavos. Assim, em um ano, o mercado acumulou uma queda de 21,1%. Já na última sessão de 2017, NY fechou a 126,20 centavos. Desse modo, no acumulado de 2018 até o fim de julho, houve uma perda de 12,9%. O consultor de Safras & Mercado Gil Barabach destaca que o preço mais alto de 2018 foi justamente em NY, no dia 2 de janeiro, quando a bolsa atingiu 130,65 centavos. Havia preocupação com a safra brasileira de 2018, com apreensão desde as floradas de 2017.

Mas o verão foi benéfico no clima, as chuvas voltaram, e o Brasil, pouco a pouco, foi trazendo de volta a ideia de uma safra recorde, que se confirmaria adiante. Assim, como destaca Barabach, a bolsa foi testando linhas mais baixas, com a tranquilidade no abastecimento global de café. A valorização do dólar contra o real e outras moedas contribuiu para a pressão sobre as cotações do arábica em Nova York. E, além de uma safra brasileira cheia, o mercado ainda recebeu as indicações de recuperação da produção de robusta no Vietnã e a estabilidade produtiva da Colômbia.

Tudo isso trouxe comodidade para os consumidores, depreciando o valor da bebida. Isso sem falar na guerra comercial entre Estados Unidos e China, que prejudicou as commodities nas bolsas de futuros, afetando também o café. “Daqui para a frente, o cenário é mais cômodo na oferta. O mundo sai de um déficit na oferta mundial em 2017/18 e tem um superávit (produção maior que o consumo) em 2018/19. Isso deve manter os preços pressionados”, ressalta o consultor. O câmbio, com o fortalecimento da economia norte-americana, abrindo espaço para taxas de juros mais altas, traz pressão de alta no dólar, o que é negativo para as commodities nas bolsas. “Resta ver como será o clima para as floradas que vão resultar na safra de 2019 no Brasil”, adverte.

Para essa temporada 2018/19, Barabach indica que existem dois fatores no “radar”. O primeiro é que a bienalidade na próxima safra não deve ser tão acentuada. A bienalidade é a alternância produtiva no café entre um ano de safra cheia com outro de safra menos carregada. Com as renovações dos cafezais, isso tem sido atenuado. O outro aspecto é que saímos de um período de fenômeno La Niña, estamos, agora, em neutralidade, mas, depois, deverá vir o El Niño. Nesse período de transição, poderemos ter instabilidades no clima, com uma primavera com chuvas instáveis no Sudeste, o que pode afetar as floradas e a safra do ano que vem. “Isso também pode mexer com a safra do Vietnã”, adverte. “O El Niño normalmente é bom para o café no Brasil, mas essa transição entre um e outro é que pode complicar”, pondera.

Mercado brasileiro também sofre — O mercado brasileiro também teve perdas seguindo as baixas das bolsas. A alta do dólar apenas suavizou o impacto negativo. Desde o começo do ano, o café arábica bebida boa no Sul de Minas Gerais caiu de R$ 450 para R$ 425 a saca no último dia de julho de 2018, acumulando, no período, uma queda de 5,55%. E de 31 de julho de 2017, quando o mercado para esse café estava em R$ 470 a saca, houve uma baixa acumulada de 9,6% no comparativo com 31 de julho de 2018. Os preços só não caíram mais justamente porque, nos últimos 12 meses, o dólar acumulou uma alta de 19,55% contra o real, saindo de R$ 3,12 para R$ 3,73.

Barabach comenta que o Brasil teve um ano de quedas nos preços, com algumas janelas de oportunidades de venda para o produtor. “Ora pelo clima, ora pelo dólar”, afirma. E os produtores aproveitaram mais que em outros anos, entrando no começo da safra mais vendidos do que normalmente, tendo comprometido mais da safra antecipadamente. Nesta nova temporada 2018/19, o “produtor vai ter que aproveitar os picos, travando o custo quando o dólar cair e fixando receita nas altas de NY ou do dólar”, recomenda. A volatilidade causada pelas eleições no Brasil pode ser interessante para essa estratégia, acredita.

Safra brasileira 2018/19 recorde — Segundo Safras & Mercado, a safra brasileira de café 2018/19 deve atingir recorde e ficar em 60,5 milhões de sacas de 60 quilos. Safras estima um aumento de 20% na produção 2018/19 contra 2017/18, indicada em 50,6 milhões de sacas. Barabach diz que a bienalidade positiva para o arábica, a retomada da safra de conilon e o clima favorável à granação no início de 2018 sustentaram o otimismo produtivo no Brasil. “É verdade que o atraso nas floradas, associado à seca e à temperatura acima da média no início da primavera em 2017, colocou em xeque o potencial produtivo do arábica, especialmente na Mogiana, em São Paulo, e no Sul de Minas. No entanto, as lavouras conseguiram se recuperar”, aponta. E mesmo não devendo atingir o potencial pleno produtivo, a safra de arábica deve ser muito boa nessas regiões. “Porém, o grande destaque positivo da temporada 2018/19 é mesmo a safra de conilon. Depois de uma sequência de três anos de safras baixas, em função da falta de chuva, a produção de conilon do Espírito Santo deve se recuperar bem em 2018, o que garante o avanço de conilon nacional”, afirma o consultor.