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Boi Gordo

 

Em disparada

A queda dos abates nos primeiros meses de 2015 levou ao aumento das cotações do boi gordo para valores superiores a R$ 145/arroba. O boi magro e o bezerro também estão valendo mais. As exportações, que caíram no primeiro semestre, deverão crescer no segundo, o que poderá ser mais um elemento de estímulo ao aumento dos preços

Arno Baasch - [email protected]

O mercado físico do boi gordo no Brasil vem apresentando uma curva de preços bastante descolada ao longo de 2015. Segundo levantamento de Safras & Mercado, no primeiro semestre, a cotação média da arroba foi recorde, e atingiu R$ 147,02, bem acima dos R$ 121,29 registrados no mesmo período do ano passado. A produção de carne atingiu 3,927 milhões de toneladas nos cinco primeiros meses do ano, 13,6% a menos que no período de janeiro a maio de 2014, de 4,547 milhões de toneladas. “Esse movimento ascendente de preços decorre também da queda nos abates de carne bovina, que atingiram 14,583 milhões de cabeças de janeiro a maio, contra as 16,945 milhões de cabeças registradas nos cinco primeiros meses de 2014”, explica o analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias, que detalha o comportamento do mercado ao longo dos dois primeiros trimestres do ano.

Segundo especialista da Safras & Mercado, a cadeia produtiva da carne bovina ainda precisa recompor preços frente aos custos de produção, de modo a manter uma atividade lucrativa

Iglesias destaca que, durante os três primeiros meses de 2015, os preços do boi gordo apresentaram uma alta significativa, mesmo em um período de safra, com as indicações ultrapassando a base de R$ 145 por arroba, livre à vista, no mercado paulista. No atacado, os principais cortes comercializados também apresentaram cotações recordes. “O pico de preços para os cortes de dianteiro em São Paulo ocorreu em março, com o quilo vendido, em média, a R$ 11,68. Já para os cortes de dianteiro, o pico de preço ocorreu em maio, cotado a R$ 8,25”, explica.

Outro fator de forte pressão aos preços do boi gordo nos três primeiros meses do ano foi a alta expressiva nas cotações do bezerro e do boi magro. “O bezerro alcançou um preço médio de R$ 1.155,76 no primeiro trimestre, contra os R$ 849,25 registrados nos três primeiros meses de 2014. Já o preço do boi magro ficou em R$ 1.700 no período, superando a média de R$ 1.459,73 registrada de janeiro a março do ano passado”, compara. Esse cenário resultou em aumento nos custos do confinamento, o que pode acarretar em uma menor oferta de boi gordo ao longo do segundo semestre.

Concorrência — Apesar da curva de preços diferenciada no mercado pecuário, as demais proteínas de origem animal não conseguiram acompanhar esse movimento altista registrado pelo boi e atravessaram momentos delicados nos primeiros meses do ano. Iglesias explica que tanto a suinocultura quanto a avicultura de corte não conseguiram firmar seus preços no mercado interno. Pelo contrário, os preços acabaram recuando de maneira sistemática.

Segundo Iglesias, o fato de a carne bovina ter se deparado com uma intensa concorrência das demais proteínas de origem animal nos primeiros meses do ano foi algo natural, levando em conta que a avicultura de corte possui um ciclo mais curto e tem plenas condições de flexibilizar sua produção de acordo com o perfil de demanda. “A lacuna deixada pela carne bovina no padrão médio de consumo do brasileiro passou a ser ocupada pela carne de frango. Já os cortes mais nobres da carne bovina passaram a ser substituídos pela carne suína”, explica. O analista entende que, em um ano de inflação acima do centro da meta, o consumidor seguirá optando por uma proteína animal que cause um menor impacto em sua renda, o que será um fator incisivo na formação de preços da carne bovina no decorrer do ano.

Exportações aquém — Na avaliação de Iglesias, as exportações de carne bovina no primeiro trimestre deixaram a desejar, recuando 18,3% em relação aos três primeiros meses de 2014, apesar da paridade cambial vantajosa. Isso ocorreu diante da queda nas cotações do petróleo. O País embarcou 441,803 mil toneladas, abaixo das 540,727 mil exportadas entre janeiro e março de 2014. “Os principais importadores de carne do Brasil são países que possuem economias fortemente atreladas à comercialização do petróleo no mercado internacional. É o caso da Rússia, da Venezuela e dos países do Oriente Médio. Com a queda do petróleo, o crescimento desses países ficou bastante prejudicado nos três primeiros meses do ano”, informa.

A oferta expressiva de gado na Região Norte em relação às demais se fez presente outra vez neste ano, muito embora as dificuldades em termos de logística tenham atrapalhado as negociações entre os pecuaristas da região e os frigoríficos do Sudeste. Na Região Centro-Sul, por outro lado, os pecuaristas desfrutaram de uma posição confortável de oferta durante o primeiro trimestre, considerando a boa condição das pastagens, o que favoreceu a retenção do boi gordo nos pastos e as negociações com os frigoríficos atendendo as necessidades pontuais.

O analista afirma que o mercado de boi gordo iniciou o segundo trimestre bastante aquecido, com os preços atingindo patamares de até R$ 150 por arroba, livre à vista, em São Paulo. “Os pecuaristas ainda desfrutavam de uma posição confortável e, com escalas de abate encurtadas, os frigoríficos eram obrigados a reajustar quase que diariamente os preços de balcão para conseguir se adequar à restrição de oferta”, comenta. Com o ingresso de temperaturas mais baixas no Brasil, esse quadro mudou sensivelmente e os pecuaristas passaram a ofertar um volume maior de gado, em razão da deterioração das pastagens. “Com um volume maior de animais terminados, os frigoríficos passaram a avançar as escalas de abate, o que marcou o início de um período de queda nos preços que passou a ser observada em julho”, esclarece. Nas proteínas animais concorrentes, verificou-se uma recuperação dos preços internos da carne de frango, a partir do momento que as exportações voltaram a mostrar sinais de aquecimento. O mesmo ocorreu com a carne suína, embora em menor proporção.

Na avaliação de Iglesias, a cadeia produtiva de carne bovina ainda precisa recompor preços frente aos custos de produção, de modo a manter uma atividade lucrativa, muito embora o setor esteja enfrentando conflitos internos. Entre esses está a continuidade da inserção de lavouras de grãos em áreas aparentemente “nobres” para a pecuária. O analista destaca que a atual “invasão” ocorre no Leste do Mato Grosso e Sul do Pará, tradicional berçário para a reposição pecuária brasileira. Esse fato já foi registrado nos demais estados do Centro-Sul e contribuiu para uma redução na oferta futura de gado de reposição. “Temos visto os preços do boi gordo subindo e gerando um ambiente superficial de aparente rentabilidade. No entanto, está havendo um desequilíbrio no sistema, pois a oferta de gado de reposição tem sido insuficiente para atender a demanda crescente no mercado interno”, explica.

Além disso, com um custo de produção cada mais maior, diante do custo inflacionado da terra pela produção de grãos no Centro-Sul, a pecuária vai sendo direcionada ainda mais para o Norte do País, região que enfrenta conflitos ambientais para a produção. “O mercado pecuário no País sempre orbitou mais pelos fatores econômicos e políticos do que necessariamente pelos fatores fundamentais de produção”, analisa.

Ao mesmo tempo, tem ocorrido um crescimento da renda interna e, por conseguinte, da demanda interna e externa para a carne bovina, a partir de acordos comerciais feitos pelo Brasil, mas sem que haja uma necessária ampliação da produção de bezerros. “Logo, a pecuária brasileira necessita de uma reorganização da estrutura para poder crescer, pois ainda dispõe de pastagens, de espaço e de potencialidades. Para isso, é preciso focar nos resultados de produtividade e rentabilidade, a exemplo do que ocorre em outros importantes mercados produtores, como Estados Unidos e Canadá”, sinaliza.

Mercado otimista — A retomada do bom volume de embarques durante o segundo trimestre fez com que o mercado se tornasse mais otimista em relação à demanda para o restante do ano. O volume exportado no primeiro semestre de 2015 ficou em 921,7 mil toneladas, recuando 14,2% em relação aos seis primeiros meses do ano passado, de 1,074 milhão de toneladas. O cenário atual, no entanto, mostra-se diferente do registrado no início do ano, quando a receita dos principais importadores de proteína animal foi afetada pela queda do petróleo.

Em razão da queda do petróleo, as exportações no primeiro trimestre recuaram 18,3% em relação aos três primeiros meses de 2014, visto que muitos dos importadores são produtores de petróleo

Conforme Iglesias, um bom movimento de exportações na segunda metade do ano ajudará a reduzir a disponibilidade interna de carne bovina, abrindo um cenário propício para novos reajustes no mercado interno. Ele acredita que haverá também um menor volume de confinamento, em decorrência dos custos mais altos de produção. “A expectativa é por uma oferta limitada de gado em um período de grande demanda, o último trimestre. Com isso, os preços do boi gordo e da carne bovina tendem a alcançar seu ápice em 2015”, projeta.

Em termos de consumo, o analista acredita que a concorrência entre as principais proteínas de origem animal tende a se tornar ainda mais acirrada nos próximos meses, por conta do comportamento de preços mais elevados esperado para a carne bovina. “Vale salientar que em um ano de inflação acima do centro da meta, em que o arrocho fiscal leva ao cerceamento do crédito e a mudanças no perfil de consumo, não é difícil imaginar que as carnes suína e de frango ganharão espaço em detrimento da carne bovina na mesa do consumidor brasileiro. Mesmo assim, a cadeia produtiva de carne bovina poderá obter uma boa rentabilidade até o final do ano, por meio das exportações”, prevê.