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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

TRIGO

Complica o abastecimento

Osegundo semestre de 2006 trouxe consigo incertezas em relação ao abastecimento de trigo no mercado brasileiro, tanto para os próximos meses quanto para a entressafra do próximo ano comercial. Olhando para o cenário de maneira retrospectiva, no início de 2005, o real valorizado frente ao dólar e a grande disponibilidade de trigo argentino, mantinham os preços no mercado interno do Brasil balizados pela paridade de importação do cereal do país vizinho. Com isso, os produtores brasileiros recebiam preços muito baixos pelo seu produto. Para auxiliar o escoamento da produção e oferecer certa sustentação aos preços, o governo federal passou a realizar os leilões de Prêmio de Escoamento do Produto - PEP.

As operações para recolocação de 1,09 milhão de tonelada dos estoques do governo no mercado iniciaram no dia 25 de abril. Mesmo assim, neste período ainda era mais atrativo trazer produto da Argentina, com prazo de pagamento mais longo e qualidade superior. A grande virada deste cenário ocorreu em maio, quando o governo argentino sinalizou com a possibilidade de suspender as vendas externas de trigo para garantir o abastecimento interno. A suspensão total não ocorreu, mas houve uma limitação das vendas e os preços FOB em portos argentinos subiram de cerca de US$ 140,00 para US$ 165,00 por tonelada.

“A partir dessa elevação, as indústrias mudaram o foco da política de aquisição de trigo, deixaram a Argentina e entraram com força nos leilões públicos. Com isso, o mercado deixou de ser balizado pela Argentina e ficou atrelado aos valores de comercialização dos estoques”, explica o analista de Safras & Mercado, Élcio Bento. No atual momento, a grande incógnita do mercado é saber até quando o governo terá estoques para atender esta demanda das indústrias. O total comercializado já é superior a 800 mil toneladas. “Teoricamente, neste ritmo, os estoques públicos atenderiam a demanda no máximo até o final da primeira quinzena de agosto. Sem os estoques do governo, as indústrias que precisarem se abastecer terão como opções a Argentina e o produto dos estoques privados no Brasil”, projeta o analista. Porém, em ambos os casos, os lotes restantes já não são expressivos.

Desde junho, o mercado de exportações da Argentina está estagnado. O preço no FOB de Baía Blanca oscila entre US$ 160 e 165 por tonelada. Esta tranqüilidade no mercado argentino ocorre porque o principal comprador (Brasil) tem se abastecido com as vendas de estoques internos. Se o Brasil voltar a comprar com mais força, levando-se em conta a restrita liquidez do mercado daquele país, os preços devem voltar a subir mais intensamente. Isso abre mais uma vez a possibilidade de o governo argentino suspender as vendas, caso os preços internos voltem a ganhar força.

Já no Brasil, os estoques atuais dos principais produtores, Paraná e Rio Grande do Sul, são próximos a 80 mil toneladas e 200 mil toneladas, respectivamente. Apesar disso, existe muito pouco trigo com a qualidade comercial buscada pelos moinhos. A próxima opção seria o produto da América do Norte, com destaque para o cereal canadense. Porém, devido ao custo maior com frete e a taxa de 10% para importação de fora do Mercosul, ele chegaria ao Brasil com um preço mais elevado. Encerra este quadro de dificuldade de oferta, o fato de o clima desfavorável ter atrasado o plantio em muitas regiões produtoras do Brasil, sobretudo no Paraná, alongando a entressafra. Com isso, a tendência é de recuperação nos referenciais de preços até a entrada efetiva da safra nova.

Para a próxima safra, a tendência é de preços médios superiores aos praticados durante a comercialização da safra 2005/06. Os últimos números sobre a produção brasileira de trigo trazem ainda mais preocupações em relação ao abastecimento do cereal no mercado doméstico no próximo ano comercial. Além da queda expressiva da produção interna, a safra argentina ainda é uma incógnita e, mais uma vez, é possível que o nosso vizinho não tenha trigo suficiente para atender a nossa demanda por importação, que será maior. Se confirmado este quadro, as indústrias brasileiras precisarão buscar novos mercados.

Queda significativa e preocupante — Conforme números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de trigo no Brasil deve ser de 3,404 milhões de toneladas no ano comercial 2006/07. Este valor representa uma queda de 30,1% em relação à safra passada, de 4,873 milhões de toneladas. Em relação à safra 2004/05 a queda na produção será de 40%, ou, em termos absolutos, de 2.253 milhões de toneladas. Com isso, o Brasil terá de importar 6,83 milhões de toneladas para garantir o consumo interno de 10,3 milhões de toneladas, em 2007. Este recuo expressivo deve-se a um quadro bastante desfavorável para os produtores nos últimos anos. O achatamento dos preços levou à descapitalização do produtor, provocando redução na área plantada e também do investimento em tecnologia.

Além disso, no período do plantio, o maior Estado produtor (Paraná), foi assolado por uma forte estiagem que prejudicou, atrasou ou até impediu a semeadura. Na região norte do Paraná, a quebra da safra deve ser superior a 50%. No total do Estado, a safra estimada é de 1,79 milhões de toneladas, 36,1% abaixo das 2,80 milhões de toneladas de 05/06, sendo que a área plantada foi apontada em 897,2 mil hectares, 29,7% abaixo dos 1,28 milhões de hectares plantados na safra anterior. O Rio Grande do Sul, segundo em produção tem safra estimada em 1,23 milhão de toneladas, 21,1% abaixo das 1,15 milhão de toneladas de 05/06. A área plantada pelos gaúchos foi apontada em 693 mil hectares, 18,0% abaixo dos 845,5 mil hectares plantados na safra passada. Nas demais regiões, o Centro-Oeste tem safra projetada em 135,2 mil toneladas, 30,4% abaixo de 05/06 quando produziu 194,2 mil toneladas. A região sudeste apresenta queda de 25,7%, passando de 195 mil toneladas em 05/06 para 145,4 nesta safra.

A redução é expressiva e preocupa, pois, o País precisará importar cerca de 70% do consumo doméstico. A situação é ainda mais complicada devido ao recuo também significativo em termos de produção global do cereal, em especial nos Estados Unidos, principal formador de preços. Assim, as indústrias terão que pagar mais para comprar trigo no exterior. Uma análise do abastecimento no ano comercial 2005/06 no Brasil, deixa evidente que, mantendo uma produção de acordo com os últimos números do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a Argentina não terá trigo suficiente para atender a maior demanda por importação do Brasil. A busca do trigo em outros potenciais mercados é mais onerosa, devido à tributação de 10% para importação fora do Mercado Comum do Sul (Mercosul). “Com esta tributação e um frete mais alto, nenhum produto é competitivo em relação ao argentino. Porém, comparando os números deste ano, quando o governo argentino já ameaçou suspender as exportações para evitar elevação dos preços internos, com os projetados para a próxima safra, nosso parceiro comercial não deverá ter trigo suficiente para atender nossa maior demanda”, explica Élcio.

Na safra 2005/06 a Argentina produziu cerca de 12,1 milhões de toneladas. Para o próximo ano o USDA projeta uma produção de 14,3 milhões de toneladas, que não deve ser alcançada devido às complicações climáticas enfrentadas no plantio. Caso se confirme, a Argentina teria 2,2 milhões de toneladas a mais para ofertar, tanto para seu mercado interno quanto para exportação. A queda na oferta no Brasil será superior a este incremento da produção da Argentina. Nossa produção na safra 2006/07 será 2,253 milhões de toneladas menor que a anterior. Além disso, o governo brasileiro não terá estoques para oferecer no mercado. No atual ano comercial os estoques da Conab tinham 1,09 milhões de toneladas para regular a oferta do trigo no Brasil. Somando-se estas duas fontes de oferta interna, a redução para o próximo ano será de 3,343 milhões de toneladas. Mesmo que a produção argentina alcance a apontada pelo USDA no último levantamento, o Brasil precisaria buscar em torno de 1,15 milhão de toneladas noutros mercados.

Em termos globais, o relatório de oferta e demanda mundial de julho, do USDA, projeta uma safra mundial de trigo na temporada 2006/07 em 605,21 milhões de toneladas, bastante abaixo dos 620 milhões produzidos na safra 2005/06. Os estoques finais no planeta estão estimados em 133,20 milhões de toneladas, pouco acima dos 128,24 milhões apontados em junho.

Nos Estados Unidos, o USDA projeta uma safra de 49,02 milhões de toneladas, 14% inferior à temporada anterior. Esse recuo nos Estados Unidos, onde também haverá uma queda da qualidade do cereal, é um fator extremamente importante, uma vez que o mercado mundial tem como principais parâmetros as bolsas de Kansas e de Chicago. Com menor disponibilidade do cereal no mundo, as indústrias brasileiras, que precisarão importar cerca de 70% de sua matéria-prima, certamente encontrarão preços mais altos. Para os produtores brasileiros, a situação em termos de preços será mais favorável. Os valores recebidos serão melhores se comparados aos da safra 2005/06. Contudo, o analista lembra que esta elevação dos preços será potencializada ou amenizada pelo comportamento do câmbio. “Se o real valorizar, a paridade de importação recua, trazendo consigo os preços internos. Se a moeda brasileira desvalorizar, os preços do cereal sobem. Como a produção do Brasil atenderá em torno de 30% da demanda, o restante virá do exterior, e mais do que nunca os preços internos serão balizados pelas importações”, prevê.

Farinha argentina — Um problema que ganhou intensidade nos últimos meses no mercado brasileiro do cereal é o ingresso da farinha de trigo argentina em nosso mercado. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) a entrada do produto da Argentina aumentou significativamente em julho. A situação é mais grave nos Estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, onde o produto argentino (saco de 25 kg) está sendo vendido com preço 25% inferior ao produto nacional. Além disso, ao invés de pagarem 20% de imposto de exportação, os produtos argentinos pagam apenas 5%, por conta de subsídio oferecido por seu governo à categoria de pré-mistura de farinha.

Aproveitando os benefícios deste subsídio, os moinhos argentinos têm exportado ao Brasil grandes quantidades de farinha de trigo, classificando-as como mistura de farinha sem que ela apresente características necessárias para classificá-la como tal. A indústria argentina acrescenta sal, ou outro ingrediente inócuo na farinha, e a classifica como mistura. Assim, os órgãos argentinos a aceitam como mistura de farinha, oferecendo a isenção, mas na verdade, ao chegar ao Brasil, ela é consumida como farinha de trigo padrão. Com a redução dos preços internos do cereal na Argentina e com a elevação no Brasil, o mercado para o produto acabado argentino ganha força.