Herbert & Marie Bartz

NOVOS HORIZONTES E NOVOS DESAFIOS, MAS FANTÁSTICAS AVENTUDAS

A partir desta edição – e por mais algum tempo –, eu escreverei esta coluna, a não ser que haja um pedido especial de Papi em algo que ele queira compartilhar. Desde meados de setembro, estou morando em Portugal. Não deixei o Brasil devido à conjuntura social e/ou política – como muitos me questionaram ou ainda questionam –, mas porque surgiu uma oportunidade irrecusável profissionalmente. Em abril, inscrevi-me em um concurso para concorrer a uma vaga para pesquisadora em um projeto que avaliará a fauna do solo no Parque Nacional de Gorongosa, em Moçambique, na África. Acabei sendo aprovada no referido concurso e, por três anos, serei pesquisadora do Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, em Portugal. Uma alegria e uma ansiedade gigantes tomam conta de mim pela fantástica oportunidade em poder explorar novos espaços de nosso planeta Terra. Mas o coração fica bem apertado por todos e tudo que deixei para traz, tão repentinamente. Da inscrição no concurso até a chegada em Portugal foram apenas cinco meses. Mas a aventura, a aquisição de experiência e, principalmente, o compartilhamento de informações e conhecimento, que estão associados a todo esse processo, valem todo o esforço.

Para esse projeto em si, a nossa primeira campanha de amostragens está acontecendo de meados de outubro até o último dia que nos será permitido ficar aqui no parque: 8 de dezembro. Isso porque, em meados de novembro, inicia-se o período de chuvas e grande parte do parque fica inundada e alagada. Fecham-se as portas do parque e reabrem, em fevereiro, para os trabalhadores e, em abril, para o turismo. Então, prepararemse, que, nos próximos meses, teremos relatos das aventuras da caçadora de minhocas desbravando um pedacinho do continente africano, considerado um dos principais santuários da biodiversidade da África. Ando apreensiva, pois estarei cavando em terras de leões, hipopótamos, javalis, macacos, búfalos, cobras, elefantes, crocodilos e até os raros pangolins, além de muitos outros animais e plantas, claro. Literalmente, como dizem, onde Noé atracou sua arca! Ecossistemas com populações completamente diferentes do que já vi ou amostrei no Brasil. Esperando, claro, que também a região seja um paraíso de diversidade dos meus bichinhos prediletos do solo: as minhocas.

Para dar o start em nossa aventura, vou lhes contar um pouco sobre a história do Parque Nacional de Gorongosa. Esse parque surgiu como uma reserva de caça em 1920, quando Moçambique ainda era colônia de Portugal, permanecendo assim até 1959, com uma área de 32 mil hectares. Em 1960, com o banimento da caça, o governo português decretou a reserva como Parque Nacional. Foram realizados os primeiros censos e trabalhos científicos para levantamento da fauna do parque, que, no final da década de 1960, registraram 200 leões, 2,2 mil elefantes, 14 mil búfalos, 5,5 mil bois-cavalo, 3 mil zebras, 3,5 mil inhacosos, 2 mil impalas, 3,5 mil hipopótamos e manadas de centenas de elandes, pala-palas e gondongas. Até 1980, a área do parque era de 37,7 mil hectares. De 1981 a 1994, houve a guerra civil em Moçambique. Em dezembro de 1981, houve ataques ao acampamento de Chitengo e foram raptados muitos dos seus trabalhadores, incluindo cientistas estrangeiros.

A partir daquela data, a violência dentro e nos arredores do parque aumentou, e, em 1983, o parque foi encerrado e abandonado. A violenta batalha terrestre e os bombardeios aéreos destruíram todas as construções. Os grandes mamíferos sofreram terrível destruição. Centenas de elefantes foram mortos para retirar o marfim, que era vendido para obtenção de mais armas e outros equipamentos bélicos. Soldados famintos mataram milhares de zebras, bois-cavalo, búfalos e outros animais ungulados. Os leões e outros grandes predadores foram mortos em caçadas desportivas ou morreram por fome por causa do desaparecimento das suas presas. A guerra civil terminou em 1992, mas a caça furtiva no parque – principalmente por caçadores vindos da Beira, cidade de Moçambique – continuou por mais dois anos. A essa altura, as enormes populações de mamíferos de grande porte – incluindo elefantes, hipopótamos, búfalos, zebras e leões – já tinham sido reduzidas em 90% ou mais.

Os primeiros esforços para reconstruir a infraestrutura do Parque Nacional da Gorongosa e restaurar a fauna começaram em 1994, quando o Banco Africano de Desenvolvimento iniciou trabalhos num plano de reabilitação a longo prazo e, contando também com a ajuda da União Internacional para a Conservação da Natureza, lançou um programa de emergência para acabar com a caça furtiva e remover as minas. Uma nova e importante página na história do Parque Nacional da Gorongosa aconteceu quando, em 2008, o governo de Moçambique e a Fundação Carr (uma organização sem fins lucrativos dos EUA) assinaram uma parceria público-privada (Projeto de Restauração da Gorongosa) de 20 anos para a gestão conjunta do parque. Em junho de 2018, o governo de Moçambique assinou uma extensão do acordo de gestão conjunta do parque por mais 25 anos. Essa parceria tornou o Parque Nacional de Gorongosa como sendo talvez a maior história de restauração da vida selvagem da África, especialmente ao adotar o modelo de conservação do século XXI para equilibrar as necessidades da vida selvagem e das pessoas. Estão, portanto, agora, protegendo e salvando essa região selvagem, devolvendo-a ao seu devido lugar como um dos maiores parques da África através de quatro frentes de trabalho: conservação, comunidade, ciência e turismo sustentável. Se há dúvidas do sucesso da parceria? Quanto à conservação da fauna – que, em 2008, era de pouco mais de 10 mil animais –, hoje, contabilizam-se mais de 100 mil animais na área do parque (40 mil hectares) e ainda são manejados mais 28 mil hectares nos arreadores. Que exemplo, não?

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo, pesquisadora na Universidade de Coimbra