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ARMAZENAGEM: a missão de preservar a qualidade

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O processo do armazenamento da semente começa, na verdade, no período de maturidade fisiológica ainda na lavoura, até o momento da semeadura, passando por revendas, propriedades rurais, além de moegas e silos

Eng. Agr. Géri Eduardo Meneghello, Dr. em Ciência e Tecnologia de Sementes, Programa de Pós- -Graduação em Ciência e Tecnologia de Sementes da Universidade Federal de Pelotas/RS (UFPel)

A bordarei os aspectos inerentes ao armazenamento de sementes de espécies ortodoxas (que têm a capacidade de manter a viabilidade após a dessecação) e que, portanto, podem ser armazenadas por um determinado perío-do de tempo relativamente longo, por exemplo, entre uma safra e outra. Por-tanto, entendo ser fundamental, antes de se falar em armazenamento de sementes, realizar uma breve revisão do conceito de maturidade fisiológica. A formação da semente se inicia com a fecundação do óvulo pelo grão de pólen, seguido de 2019uma série de eventos fisiológicos que ocorrem de forma ordenada até a obten-ção da semente propriamente dita. Nessa fase, a semente em formação recebe todo o aporte de nutrientes necessário para o seu desenvolvimento diretamente da planta-mãe, os quais são translocados para a semente sendo ali armazenados, principalmente, na forma de carboidra-tos (amido), lipídeos (óleos) e proteínas. Esses compostos armazenados, além de fazerem parte da estrutura da semente, servem como fonte de energia durante a retomada do crescimento do embrião no processo de germinação.

Há um momento em que cessa esse aporte de fotoassimilados da planta-mãe para a semente, quando, via de regra, há o máximo de acúmulo de matéria seca na semente e ocorre o rompimento do contato fisiológico entre a planta-mãe e a semente, permanecendo apenas o contato físico. Esse estágio é conhecido como Ponto de Maturidade Fisiológica. Por uma questão lógica, se a planta não aporta mais nada para a semente, em tese, é o momento ideal de se fazer a colheita. Do ponto de vista fisiológico, isso é verdadeiro, e é possível para algu-mas culturas, como é o caso do milho, colhido em espiga e seco artificialmente nas unidades de beneficiamento de se-mentes. Já em outras culturas, como é o caso da soja e do arroz, é impossível se realizar a colheita mecanizada neste momento, já que as sementes de soja, por exemplo, apresentam umidade aci-ma de 40% no momento da maturidade fisiológica. É necessário esperar um tempo até que as sementes percam esse excesso de água até se atingir a chamada maturidade de colheita, que, no caso da soja, é possível se realizar de forma mecanizada com umidade ao redor de 18%, sendo necessário, porém, secar artificialmente as sementes.

Elucidado esse conceito de maturi-dade fisiológica, em termos práticos, fica claro que o armazenamento em si começa, de fato, antes mesmo da colheita. Inicia-se o armazenamento na maturidade fisiológica, e, no período compreendido entre esta e a colheita, a semente permanece armazenada a cam-po, sob condições que não são ideais. Da mesma forma, há armazenamento durante o transporte entre a lavoura e a unidade de recebimento, também no período em que a semente permanece em moegas e/ou silos reguladores de fluxo, antes do processo de secagem. Embora esses períodos sejam relativa-mente curtos, as chances de acontecer um processo deteriorativo bastante intenso são grandes.

Como é possível perceber, há uma tendência de nos preocuparmos com uma das etapas, de fato, a mais longa (pós-beneficiamento/classificação até o embarque), mas de forma nenhuma pode-se negligenciar o período inicial (fase de campo e que antecede a seca-gem) e o período final (pós-embarque). Esses períodos tendem a ser curtos, mas o potencial de redução de qualidade em função da deterioração pode ser muito grande. Por falar em deterioração, este é um processo inexorável e inevitável, portanto, o armazenamento deve centrar esforços para minimizá-lo, para reduzir ao máximo a velocidade desse processo. Como regra geral, há uma falsa ideia que o armazenamento ocorre somente no período compreendido entre o bene-ficiamento (semente já limpa e seca) até o momento em que é embarcada, rumo às revendas ou propriedades rurais. Na verdade, conforme mencionado, o arma-zenamento, de fato, compreende o pe-ríodo entre a maturidade fisiológica até o momento da semeadura, portanto, há armazenamento também nas revendas, e/ou nas propriedades rurais, quando as sementes aguardam a semeadura.

Pesquisas – O assunto armazena-mento é objeto de estudo de longa data, e, embora os princípios sejam relativamente bem conhecidos, há uma tendência de continuar sendo alvo de muitas pesquisas. Afinal, há sensíveis diferenças de comportamento (poten-cial) de armazenamento entre diferentes cultivares de uma mesma espécie (até mais do que se pensava), em função de diferenças morfológicas, composição química, condições de campo de pro-dução e o mais importante de tudo, que é a interação entre todos estes e outros fatores.

Na década de 1960, foram enunciados alguns preceitos básicos de armazena-mento, entre os quais destacam-se:

I – A qualidade da semente não é melhorada pelo armazenamento;

II – O grau de umidade da semente e a temperatura são os fatores mais importantes que afetam o potencial de armazenamento das sementes;

III – O grau de umidade da semente está em função da umidade relativa do ar e, em menor grau, da temperatura;

IV – A umidade é mais importante que a temperatura;

V – A cada 1% de diminuição no grau de umidade, duplica-se o poten-cial de armazenamento da semente (na faixa de 4% a 14%), e, a cada 5,5°C (na faixa de 0°C a 40°C) de diminuição na temperatura, duplica-se o potencial de armazenamento da semente;

VI – Condições frias e secas são as melhores para o armazenamento de sementes;

VII – Lotes contendo sementes da-nificadas, imaturas e deterioradas não se armazenam tão bem como aqueles contendo sementes maduras, não dani-ficadas e vigorosas.

Embora esses preceitos tenham sido elucidados a mais de meio século, e em condições temperadas, em maior ou menor grau, permanecem válidos até os dias de hoje, e devem nortear toda a to-mada de decisão no armazenamento de sementes. Os conhecimentos advindos desses preceitos são levados em consi-deração, por exemplo, nos bancos de germoplasma para manter a viabilidade de sementes por décadas.

Algumas considerações merecem ser feitas sobre a agricultura brasileira, que está concentrada em região tropical, cujas condições naturais não favore-cem o armazenamento em condições não controladas. É imprescindível que seja utilizado controle da umidade das sementes, da temperatura e da umidade relativa do ar com vistas à manutenção da qualidade das sementes, pois sabe-se que há relação direta entre qualidade de sementes e potencial produtivo das cul-turas. Criar as condições ideais de arma-zenamento implica em custos, e quem não domina o processo terá dificuldades nessa missão. Cabe destacar que, no Brasil, não raras vezes, os agricultores enfrentam sérios problemas durante o transporte das sementes desde as lavou-ras até as unidades de beneficiamento, o que pode impactar negativamente na qualidade.