Plantio Direto

Importância na adoção do SPD com QUALIDADE

Jônadan Ma, Ivo Mello, Jeankleber Bortoluzzi, Marie Bartz, Alfonso Sleutjes, Rafael Fuentes e Ricardo Ralisch, da diretoria da Febrapdp, e Cássio Wandscheer, do Parque Tecnológico Itaipu

A importância da produção agropecuária brasileira é indiscutível, sendo o Brasil o principal produtor mundial se considerada a diversidade dos itens produzidos. Para o País, os benefícios são ainda mais notórios, pois se tornou a principal sustentação da economia. Além do PIB e da geração de emprego, há o efeito na balança comercial. Dados de 2017, da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento e do Comércio, mostram que o saldo tem sido superavitário nos últimos 18 anos consecutivos, graças ao agronegócio, compensando os demais setores, que são deficitários. É isto que mantém as reservas cambiais nacionais, contendo processos inflacionários gerados, justamente, pelos setores deficitários. Logo, a economia brasileira é dependente da agropecuária, que tem tido um desempenho semelhante ao da China, frequentemente destacada no cenário mundial. Há, portanto, uma China dentro do Brasil, o que não é reconhecido pela maioria das pessoas e das instituições, inclusive do Governo Federal. Tudo isto, apesar das enormes deficiências logísticas.

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A ciência do solo brasileira buscou alternativas para reduzir os efeitos da erosão pela intensificação da exploração agrícola ocorrida a partir dos anos 1950, mas a mudança só se deu mesmo com a adesão do SPD

Isto se explica pelos dados da Conab, que mostram, comparando as safras de 1976/77 e 2016/17, nos cereais houve um aumento de apenas 33% na área plantada, porém com um aumento de 386% na produção, advindo do aumento da produtividade média em 260%, além da ampliação da área cultivada com uma segunda safra. E a maior parte desta expansão no bioma Cerrado, obtida graças à aplicação de tecnologias. Estimase que esta evolução evitou o desmatamento de 150 milhões de hectares. Melhoramento vegetal, com aumento do potencial produtivo e redução dos ciclos das culturas; eficiência no controle de pragas, doenças e plantas invasoras, produção de sementes, máquinas e equipamentos mais eficientes, manejo e conservação de solo e água e a consolidação do sistema plantio direto (SPD). Adotando-se todos os preceitos já definidos e consagrados do SPD para as mais diferentes realidades, a produção agrícola se torna mais harmoniosa com o ambiente, o que permite que todas as demais tecnologias citadas anteriormente se expressem com todo seu potencial. Isto ficou muito evidente na evolução no controle da erosão.

A ciência do solo brasileira se consolidou na busca de alternativas para reduzir os efeitos erosivos causados pela intensificação da agricultura ocorrida a partir dos anos 1950. Porém, os resultados efetivos só ocorreram com a mudança do sistema de preparo de solo tradicional pela alternativa do plantio direto, sem preparo de solo. Este conceito evoluiu muito e se consolidou no que hoje se preconiza com SPD, que exigiu a “tropicalização” das tecnologias agrícolas. O SPD é a base tecnológica, que permite que as demais tecnologias se manifestem.

Surgimento da Febrapdp — Visando ampliar estes benefícios do SPD e sua expansão territorial e conceitual, criou-se a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), instituição de interesse público, representativa de agricultores preocupados com a preservação dos recursos naturais, que se propõe a promover o SPD como a melhor alternativa de intensificar a produção sem degradar a natureza, o insumo mais importante da agropecuária.

Fundada em 1992, desde então vem adotando diversas estratégias para expandir a área de emprego adequado do SPD no Brasil. Dentre estas, realiza bianualmente os Encontros Nacionais de Plantio Direto (ENPDP), fórum para se discutir avanços obtidos e desafios a serem enfrentados. As iniciativas buscam aproximar o setor de produção à academia, como forma de valorizar as pesquisas realizadas e também para constatar as demandas que surgem. Tais eventos são itinerantes, para atender a especificidades das diferentes regiões e realidades e sinalizam para os jovens cientistas e estudantes a necessidade de mantermos as pesquisas nesta área. A 17ª edição está definida para 2020 em Dourados/MS. Será o quarto evento consecutivo no Bioma Cerrado, confirmando o interesse em se consolidar este sistema de produção como a melhor alternativa para se expandir a produção agropecuária na região, intensificando o uso de áreas degradadas e preservando as florestas do Brasil.

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O Índice de Qualidade do Participativo do Plantio Direto (IQP) é um projeto da Febrapdp com o apoio financeiro e logístico da Itaipu Binacional e que atribui uma nota de 0 a 10 nas glebas ou talhões avaliados

Como as demandas do público envolvido e interessado são maiores do que estes eventos tratam, passou-se a organizar os Fóruns de Inovação no Agronegócio, uma atividade de um dia onde se discutem temas de interesse local, justamente para se identificar as limitações à expansão do SPD e as soluções possíveis. Estes fóruns ocorrem no âmbito do programa Amigos da Terra, que visa aproximar as empresas e demais instituições desse ambiente de busca de soluções coletivas. Desta forma, se cria um ambiente de evolução contínua nas regiões, com pessoas e instituições envolvidas neste desafio. Já foram realizados oito Fóruns de Inovação em diferentes regiões e se realizam quando alguma organização ou instituição local solicita e se compromete com sua organização, com apoio da Febrapdp.

IQP: ferramenta de gestão e de promoção do SPD — Outro projeto da Febrapdp que merece destaque é o Índice de Qualidade do Participativo do Plantio Direto (IQP). Trata-se de um projeto em execução desde 2009, com o apoio financeiro e logístico da Itaipu Binacional e que estabelece um procedimento sintético para avaliar as áreas com SPD, atribuindo uma nota de 0 a 10 nas glebas ou talhões avaliados. O objetivo é criar uma ferramenta de apoio à gestão da atividade agropecuária, visando dar parâmetros ao interessado que ajude na tomada de decisões que favoreçam a consolidação do SPD na área avaliada.

Trata-se de um questionário com 25 perguntas que, quando sistematizado na plataforma específica, calcula a nota e destaca os pontos positivos e negativos em relação ao SPD avaliado, sugerindo alternativas. O procedimento pode ser feito para se avaliar uma área já adotada ou pode ser empregado para simular algumas situações de interesse, avaliando o resultado obtido. Pode ser empregado, também, por órgão de assistência técnica, como forma de monitorar sua área de atuação.

O IQP foi concebido pela Febrapdp sob demanda da Itaipu Binacional, interessada numa ferramenta aplicada para orientar os agricultores a adotarem as recomendações técnicas, emanadas de um grande projeto de consolidação do SPD na área ao redor do lago de Itaipu, executado pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Esta é a lógica fundamental do IQP, parte de informações técnicas e científicas já comprovadas. Outro pilar fundamental do projeto é seu cunho participativo.

A Febrapdp se propõe a traduzir as recomendações técnicas de adoção do SPD à uma situação, obtendo um reconhecimento dos critérios adotados por um grupo de produtores voluntários e indicados, adequando a forma de transmitir a informação ou a recomendação. É este o maior esforço realizado pela equipe, pois quando bem feito facilita a adoção pelos produtores das práticas sugeridas. Desta forma, os efeitos da adoção do SPD com fundamentos e com qualidade permitirá que haja paulatinas estabilidade na produção e redução nos custos de produção.

O IQP básico se baseia em oito indicadores que atendem aos preceitos do SPD, cada um destes possuem diferentes parâmetros a serem avaliados pelo questionário e cada parâmetro com pesos na composição da nota final. Estes indicadores, os parâmetros e os pesos variam nas diferentes regiões, visando adequar o índice à realidade. Esta adaptação faz parte do processo de proposição de um IQP para uma nova realidade e é feita por uma equipe técnica composta por integrantes permanentes e temporários, estes últimos justamente para incorporarem os conceitos consagrados para caso.

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Toda proposta de IQP passa por uma validação técnica e científica. Para tanto se emprega outra estrutura prevista no programa, o Grupo de Trabalho, também composto por integrantes permanentes, mas que incorpora técnicos e especialistas habituados com a realidade em estudo, para avaliar a proposta de adequação do IQP à nova situação e confirmar se os critérios adotados conferem com as recomendações técnicas à boa condução do SPD.

Para aprofundar esta validação e ampliação do emprego do IQP como ferramenta de gestão e de promoção do SPD, mais recentemente iniciou-se um projeto, o Solo Vivo, coordenado pela Embrapa Solos, sediada no estado do Rio de Janeiro, que visa realizar um amplo estudo dos impactos no ambiente dos sistemas de produção adotados em 12 microbacias de seis localidades em cinco estados: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás. O IQP é uma das metodologias que está sendo empregada e avaliada neste projeto, o que certamente contribuirá para seu aperfeiçoamento a expansão de uso. A Febrapdp está à disposição para atender qualquer região ou instituição interessadas em apoiar, empregar ou desenvolver algumas destas atividades.