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O planeta em 2050 e a eficiência da agropecuária brasileira

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Daqui a 32 anos, a população global será superior à atual em 2 bilhões de pessoas, o que demandará produção muito maior de alimento. E, num cenário em que serão incorporadas apenas 5% de novas áreas agricultáveis, cresce a relevância do aumento das produtividades das lavouras brasileiras

Professor Fábio Marin, Tropical Crop Modeling Lab, Biosystems Engineering Dept., Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP)

Os economistas projetam que, até 2050, a população mundial au mentará em, aproximadamente, 35%, e a maior parte desse adicional de 2 bilhões de pessoas viverá em cidades de países em desenvolvimento. Essas projeções também apontam que a maior parte desse crescimento deve ocorrer até 2035 e que o aumento na demanda por alimentos deve ser mais do que proporcional ao crescimento da população. Isso porque se observa uma tendência de forte crescimento na demanda por proteína animal e implica em aumento no consumo de grãos não apenas pela população, mas também pelos animais. Projeções da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), por exemplo, apontam potencial de crescimento de 73% na demanda por carne e 58% na demanda por leite e derivados até 2050.

Em uma economia de livre mercado, aumento na demanda normalmente implica aumento de preços, em um primeiro momento, até que a produção suba proporcionalmente para atender a esse novo padrão de demanda, uma vez que um retorno mais favorável da atividade passa a atrair mais interessados. Disso, é razoável supor que os próximos 30 anos serão marcados por um rearranjo no setor agropecuário mundial no sentido de se ajustar a esse novo padrão de demanda e produção.

Contudo, essas estimativas de longo prazo também apontam que as terras agricultáveis disponíveis para expansão horizontal (feita pela inclusão de novas áreas produtivas ao sistema) no mundo são estimadas em apenas 5% do que já há atualmente produzido. Isso implica um paradoxo, uma vez que a produção precisa se expandir, mas não há terras suficientes para isso. A solução desse paradoxo, por sua vez, passa, então, pela necessidade de elevação da produtividade das terras atualmente já mobilizadas para a produção.

Essa questão tem uma dimensão socioeconômica interessante, uma vez que os setores com elevada demanda por terra serão (já tem sido, na verdade) mais pressionados pela disputa no uso do solo. Isso ocorre em todo o mundo, e, no Brasil, não seria diferente. Dada a necessidade de intensificação da agricultura, a identificação das regiões com os melhores potenciais de incremento da eficiência produtiva é importante e deve ser objeto de políticas públicas que melhor orientem os gestores públicos e privados para onde direcionar os investimentos de modo mais eficiente, sob o ponto de vista de desenvolvimento social e econômico.

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A eficiência agrícola é resultado da razão entre a produtividade real obtida numa propriedade ou numa área e a produção potencial nesse mesmo ambiente

Nesse exercício de projetar cenários de médio e longo prazos, a questão das mudanças climáticas precisa ser mencionada. Esse tema se baseia no fato de que as temperaturas estão subindo (note-se, essa evidência é fornecida por termômetros, e não por políticos, ativistas etc.), e isso pode gerar mudanças nos padrões de chuva, vento e umidade do ar, com efeito sobre a agricultura. Estudos recentes mostram que os impactos são menores do que inicialmente projetados e que o futuro não é catastrófico como alarmado por alguns.

No entanto, adaptações serão necessárias, e, felizmente, muitas delas já estão disponíveis aqui mesmo, uma vez que a grande variação de climas e solos do Brasil permite “importar” sistemas produtivos e materiais genéticos usados em outras regiões do País para se poder lidar com as novas condições climáticas. Este é um tema ainda pouco aceito por alguns setores do agronegócio do Brasil, e, dado o contexto político, econômico e ambiental brasileiro, essa reação é compreensível. Contudo, fechar os olhos não elimina o problema e se apropriar dele o quanto antes reduz custos e permite que os ajustes sejam feitos do modo mais suave possível.

A zona tropical do globo é tida como uma das regiões que têm um dos maiores potenciais para contribuir com a demanda futura de alimentos, baseando- se, principalmente, no aumento da eficiência agrícola. Essa zona tropical do globo é definida como aquela compreendida entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio. É caracterizada pela alta incidência de radiação solar (principal variável que explica a produtividade potencial das culturas), relativamente baixa variação das temperaturas ao longo do ano e chuvas com padrões bastantes variados (no Brasil, por exemplo, o clima semiárido, o clima do cerrado e as zonas mais chuvosas da Amazônia estão todos na zona tropical).

Ela, contudo, também tem grandes desafios a enfrentar, pois, assim como as culturas e pastagens encontram condições favoráveis para seu crescimento (quanto à radiação, à chuva e à temperatura, por exemplo), as pragas, doenças e daninhas também se beneficiam dessas condições, e isso exige maior controle no processo produtivo e um manejo mais dedicado. Aliás, isso explica em grande parte as diferenças quanto ao uso de agroquímicos quando o Brasil é comparado a países de clima temperado, no qual patógenos, pragas e daninhas enfrentam condições adversas durante o inverno, e isso reduz o potencial de danos sobre as culturas.

Baixa eficiência — Agora que foram expostos alguns aspectos que afetarão a agropecuária brasileira nas próximas décadas, vale definir o termo que é o ponto central deste artigo: a eficiência agrícola. Eficiência agrícola é dada pela razão entre a produtividade real de uma propriedade (usando os padrões comerciais de produção) e a produção potencial nessa mesma área. No caso das culturas e pastagens, a produtividade potencial pode ser definida como aquela obtida por um genótipo adaptado às condições ambientais sob condições ótimas de cultivo, sem qualquer fator limitante (água) ou redutor (pragas, doenças, nutrientes) ao seu desenvolvimento e crescimento. Se a eficiência se aproxima da unidade, a área produz em níveis próximos do potencial; se ela se aproxima de zero, a área tem baixa eficiência e poderia ser elevada, uma vez que o ambiente oferece boas condições (desde que a produtividade potencial seja elevada) e que seria possível elevar a produtividade com base em novos padrões de manejo.

Estudos publicados nos últimos 20 anos mostram que as culturas que formam a base da alimentação mundial operam, atualmente, em níveis relativamente baixos de eficiência nas zonas tropicais e que as razões para essa baixa eficiência são comumente decorrentes do manejo agrícola, e não dos fatores ambientais. O Brasil se inclui perfeitamente neste contexto. Como a elevação da produtividade pode implicar em maiores investimentos, é importante que os produtores conheçam os fatores que controlam a produtividade, para que a decisão sobre o patamar produtivo a ser alcançado seja uma opção consciente, baseada no retorno esperado e nos custos de produção.

No Brasil, vale destacar, nem sempre o aumento da produtividade passa pelo aumento de custos, uma vez que é comum se observar nas fazendas menos produtivas uma certa acomodação em padrões tecnológicos preestabelecidos sem a devida avaliação da sua pertinência naquela realidade. A adoção de insumos e técnicas sem um questionamento quanto à real necessidade de uma tecnologia e/ou sobre possibilidade de adaptação às condições ambientais, biológicas e socioeconômicas vigentes na unidade produtiva. A capacidade de análise crítica e uma certa dose de ceticismo, necessárias em qualquer atividade econômica, são ainda mais relevantes em uma atividade eivada de riscos como a produção agropecuária.

No longo prazo, a preparação da agropecuária brasileira para este novo e promissor momento, que envolve a segurança alimentar da humanidade, passa por considerar os diferentes aspectos que podem interferir sobre o processo produtivo e se antecipar a eles tanto quanto possível. Este é um processo que envolve os produtores principalmente, mas demanda atuação próxima e intensa das universidades, da Embrapa e de institutos estaduais de pesquisa, e do setor privado, notadamente, aquele ligado ao fornecimento de insumos e serviços.

Ao Governo, neste contexto, cabe o alinhamento com o setor para a geração de políticas públicas que, ao mesmo tempo, ofereçam segurança à atividade produtiva e promovam o avanço para novos patamares de produção, considerando aspectos econômicos, sociais e ambientais. Se, como país, soubermos nos antecipar a este momento, todo o Brasil poderá usufruir deste futuro promissor e desafiador que se desenha no horizonte, no qual poderemos atuar como agentes centrais no suprimento alimentos, fibras e energia para o mundo todo.