Palavra de Produtor

CAMINHADA TECNOLÓGICA

Palavra

Rui Alberto Wolfart

Johanna L. K. Döbereiner, pioneira em biologia de solo, fez pesquisas associando plantas e bactérias fixadoras de nitrogênio com o início do plantio de soja no Brasil, nos anos 1960. Em 1974, descreveu a associação de bactéria do gênero Azospirillum e gramínea. Em 1997, foi indicada para o Prêmio Nobel. Arthur e Anna Maria Primavesi estruturam o curso de pós-graduação em Física e Biodinâmica do Solo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1968. Focava nas questões de manejo ecológico dos solos. Anna, além de figura icônica no Brasil, foi distinguida com o Prêmio Mundial da International Federation of Organic Agriculture Movements, da Alemanha.

José Lutzenberger fundou, em 1971, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), buscando difundir o conceito de produção sustentável. Em 1998, pela sua militância ambiental, foi distinguido com o Prêmio Nobel Alternativo. Herbert Bartz, em 1972, iniciou, visionariamente, no Paraná, o “plantio direto” de soja na palhada de trigo. Hoje, segundo dados da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação, o sistema é empregado em 35 milhões de hectares, o que representa 90% da área destinada para o plantio da produção de grãos.

Enfim, haviam sido criados conhecimento e condições para a massificação desse aparato tecnológico no campo brasileiro, uma revolução – especialmente em agricultura tropical, com produção crescentemente sustentável, para espanto de especialistas, como Norman Borlaug, Prêmio Nobel da Paz, por ocasião de sua visita ao estado do Mato Grosso. Derivou-se, desse conceito, o da integração lavoura-pecuária (ILP), com fantásticos resultados no sequestro de CO2 e a consequente verticalização e descarbonização da produção primária.

Há décadas, centros de pesquisas espalhados pelo Brasil desenvolveram trabalhos no controle biológico de pragas. Esse acervo técnico, inexplorado economicamente, ficou nas prateleiras por muito tempo. Todavia, ante os novos desafios produtivos, e pelas novas diretrizes internacionais de produção agrícola derivadas da Convenção da Biodiversidade, muitos resultados dessas pesquisas estão sendo incorporados ao seu cotidiano.

Um novo olhar, agora sob a ótica de “sistema de produção”, traz resultados extraordinários à produção sustentável. Atores, no campo, como Zecão de Lucas do Rio Verde/MT, e Clodoveu Franciosi, em Tangará da Serra/MT, munidos de determinação e foco na evolução tecnológica, ímpar no mundo, provocam uma revolução nessa agricultura globalizada e competitiva, com uma base moral irrefutável, desse modus operandi em agricultura tropical.

Richard Codgell, da Universidade de Glasgow, em 2012, conduzia pesquisas com a fotossíntese. É através dela que a energia solar é capturada pelos cloroplastos transformando-a, pela associação com água, CO2 e nutrientes do solo, em matéria vegetal. Codgell demonstrou, em seu trabalho, que apenas 5% da energia solar é fixada pela fotossíntese. Fazendo uso de nanotubos desenvolvidos com a bactéria Shewanella oneidensis, que ligam os cloroplastos a uma “bateria vegetal”, conseguiu fixar excedente de energia solar, ora não fixado por eles. Trata- -se da nanotecnologia a serviço da produção de alimentos, que permitirá incrementar a produtividade agrícola. Não é por outra razão que países como os Estados Unidos e a China investem pesadamente nas pesquisas em nanotecnologia, nova fronteira a ser atingida, com o objetivo de dianteira tecnológica e uma das razões veladas do atual conflito comercial entre eles.

Voltando ao “chão” da pesquisa agrícola, quais serão os vetores e o orçamento para que principalmente a Embrapa readquira seu papel de protagonista estratégico, fornecendo produtos e serviços à agricultura nacional, objetivando manter sua competitividade como player global no suprimento alimentar?

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano