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A PESQUISA PARA O AGRO NO BRASIL

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ALYSSON PAOLINELLI

Recebi de um grande amigo, do qual sou grande admirador, o professor Décio Zilberstein, uma advertência sobre o distanciamento das universidades, especialmente as federais ligadas ao ensino das Ciências Agrárias, em relação à Embrapa e à necessidade de um melhor relacionamento de seus programas de pesquisas, procurando melhor aproveitar o verdadeiro e grande potencial que o Brasil tem, o equivalente a mais de duas Embrapas. Estas, juntas, teriam as condições ao melhor atendimento das verdadeiras necessidades de resultados e inovações que ainda dependemos para coroar a verdadeira joia que foi o desenvolvimento da primeira agricultura tropical altamente sustentável e competitiva nos últimos 40 anos.

Tocou-me profundamente essa advertência por duas razões: a primeira foi o fato acontecido em 1974, quando o Governo efetivamente decidiu tocar a Embrapa para frente e, de saída, tomou a corajosa decisão de autorizar a contratação de mil profissionais que viriam reforçar e complementar os quadros de cientistas do Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação (Dnpea), em fase de extinção, e o aproveitamento pela nova empresa que era criada. Participei bem de perto dessa fase. Eu vinha das universidades e tive, em 1971, a experiência de transformar o Instituto Agronômico de Minas Gerais no então recém-criado Programa Integrado de Pesquisas Agropecuárias do Estado de Minas Gerais (Pipaemg), hoje Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).

Ali, num esforço do governador Rondon Pacheco, que autorizou a contratação de 72 novos profissionais, o que prontamente fizemos abrindo um concurso e dando a nítida prioridade a quem portasse cursos de pós-graduação. E os que não tivessem seriam classificados e imediatamente colocados em treinamento para obter a sua pós-graduação. Naquela época, conseguimos 36 pós-graduados, que entraram imediatamente nos programas de pesquisas já propostos e em andamento. Os outros 36 foram para as universidades buscar seu aperfeiçoamento.

Como a demanda mineira pelo conhecimento – especialmente de ciência e tecnologia para as suas principais culturas e produtos – era muito grande, usamos do artifício de chamar pelo Pipaemg as nossas universidades, o próprio Dnpea, pela participação pelo Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Centro-Oeste (Ipeaco) de Sete Lagoas/MG, bem como a iniciativa privada, que se integraram num esforço conjunto que deu, em pouco mais de dois anos, a Minas Gerais, respostas que jamais se esperou que seriam tão brevemente atendidas. Foi um sucesso! Em 1974, passei pela mesma situação na contratação dos mil profissionais autorizados para a Embrapa, dos quais, em um primeiro momento, só apareceram 52 pós-graduados.

Aí, a situação era muito mais grave, pois, no Dnpea, apesar do excelente quadro de pesquisadores, poucos eram os que já tinha a pósgraduação completa, e a meia centena de pósgraduados da primeira seleção não seria suficiente para atender a quase nada da imensa demanda brasileira em termos de conhecimento e inovação. Essa equação ficou tremendamente difícil para o Governo, pois o investimento para a formação de um novo conhecimento não tinha limitações e a ele foi dada total prioridade. Mas como responder a essa fabulosa demanda nacional com menos de uma centena de cientistas de alto nível? O risco de um fracasso era iminente. Veio, à nossa cabeça, a lembrança do que se passou em Minas Gerais. Não perdemos tempo.

A Embrapa entrou em campo, procurou as universidades de Ciências Agrárias à época existentes no Brasil – em que especialmente Piracicaba/ SP, Viçosa/MG e Lavras/MG, que tinham a mentalidade e o conhecimento do Land Grand College Americano, foram um verdadeiro sustentáculo e apoio à nova fase de nossa instituição. Além delas, imediatamente buscamos a parceria com as instituições estaduais de pesquisas agropecuária, e São Paulo, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul e Pernambuco já tinham apreciáveis instituições, que, ao se integrarem ao sistema nacional, receberam um reforço financeiro substancial para que pudessem acompanhar a evolução desejada. Tratamos, também, de estimular a criação de mais nove empresas estaduais que foram, de forma semelhante, fortalecidas na integração que participaram. A busca da iniciativa privada e produtores mais evoluídos foram perfeitamente aproveitados nessa integração.

Como fazia parte do programa inicial, um treinamento de nossos novos cientistas foi montado, inclusive com ajuda de empréstimos internacionais, e mais de 1,5 mil profissionais tiveram oportunidade da preparação nos melhores centros internacionais de ciência. E todos eles tinham uma tarefa: conhecer, ali, a ciência no mais alto grau que existisse, mas a tecnologia e a inovação teriam de ser feitas nos biomas tropicais brasileiros.

A segunda razão é a coincidência dessa advertência com o esforço que o nosso Fórum do Futuro, com a participação do MCTII, do CNPQ, do CGEE e da Capes, dos ministérios de Minas e Energia, da Agricultura e do Meio Ambiente, e, agora, com vários organismos nacionais e internacionais num projeto há tanto tempo sonhado, que é o estudo dos seis biomas tropicais brasileiros pelo esforço integrado, e que já começa a apresentar seus positivos resultados.

Caro amigo professor Décio, depois de passar por essas duas experiências e compará-las no tempo é que vejo que um país que deve formar, neste ano, 31 mil doutores não pode se dar ao luxo de se isolar em suas instituições de pesquisa como se fossem estanques, já que as demandas não são. Estas já existem em grande número e se multiplicam a cada momento, e estão a nos exigir racionalidade, coragem e inteligência para fazer aparecer não apenas duas Embrapas. Mas, neste conjunto a que me referi, antevejo a possibilidade do aparecimento de, no mínimo, quatro novas instituições com novas e objetivas ideias, esforços e vontade para resolver os verdadeiros problemas de conhecimento que ainda temos pela frente. O que não podemos é deixar que esses novos doutores só encontrem na direção dos Ubers o seu meio de trabalho. O meu grande abraço e meu muito obrigado.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura