Agricultura 4.0

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AGRICULTURA DE PRECISÃO

Agricultura

Carlos Otoboni

O mês de outubro foi movimentado para a agricultura de precisão (AP) no Brasil pela realização do Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão, em Curitiba/PR, com palestrantes nacionais e internacionais, evento promovido pela Associação Brasileira de Agricultura de Precisão. E em Pompéia/SP, pelo 7º Encontro de Mecanização em Agricultura de Precisão, com a participação de ilustres palestrantes da área no Brasil. Percebeu-se que ambos os eventos se preocuparam em trazer questões práticas da AP para os fóruns científicos e mostraram uma evolução importante em aspectos da prática agronômica. Assim, ficou evidente nos eventos que a AP começa a se fortalecer dentro da prática agrícola, saindo um pouco das tecnologias embarcadas e avançando para as questões de agricultura, como em fitossanidade, com benefícios significativos da filosofia de manejo e impactos nas prescrições agronômicas no campo.

Como exemplo, gostaria de destacar a tradicional questão da amostragem em grade para a fertilidade do solo. Comum nos primórdios das abordagens de AP no seu início no Brasil, foi a base para a formação de muitos prestadores de serviços em AP, porém questionada pelos cientistas da área. Essa técnica tem sido modificada e aprimorada na precisão, no planejamento e na execução, de forma mais científica do que automatizada no campo. Isto é uma mudança importante, pois o processo passa a ser mais investigativo, assertivo e incorporado a outras tecnologias de apoio. Uma delas, que parece estar auxiliando muito a prática e resolvendo alguns problemas, é a análise da condutividade elétrica (CE) do solo.

Com a CE, é possível fazer uma investigação genérica e rápida da área e encontrar as maiores variações que ela apresenta, principalmente em termos indiretos de textura do solo. Com base nessa informação, realiza-se a amostragem independente em cada variação encontrada.

Isso parece ter resolvido a questão da amostragem em grade e/ou zonas de manejo, na qual muitos palestrantes e técnicos de campo apresentaram evidências significativas para isso em AP. Particularmente, fiquei muito feliz com essa metodologia, pois estabelece um padrão prático que técnicos e agricultores podem utilizar no campo, com precisão, economia e, principalmente, assertividade de investigação.

Outra abordagem forte para a AP tem sido a digitalização do campo como importante ferramenta investigativa e de tomada de decisão. Com o exemplo dos drones, várias empresas se organizaram para prestar serviços, e, em pouco tempo, eles chegaram ao produtor rural, e este passou a fazer sua própria investigação. Os prestadores de serviços que ficaram se especializaram em técnicas de análise mais sofisticadas, robustas e de alto desempenho, investindo em aeronaves e sensores de alta performance para garantir a qualidade dos serviços e não prejudicar a coleta dos dados, ponto frisado no Congresso de AP. A digitalização do campo, como dito em texto anterior, vem a passos largos, e a questão que fica é: como impactará a agricultura de precisão?

Na verdade, em AP e agricultura digital (digital farming), ainda não sabemos onde uma começa e a outra termina, se são coisas complementares ou até a mesma coisa em abordagens diferentes. Mas o que interessa é que trazem uma nova forma de enxergar o campo de produção e agir de acordo com as especificidades que ele nos apresenta, saindo do design da uniformidade dos fatores de produção, fenômeno raro de ocorrer no sistema solo-planta- atmosfera em agricultura tropical, para a casualidade e/ou agregação desses fatores, o que é mais comum no sistema.

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura