O Segredo de Quem Faz

O agro brasileiro em tempos de GOVERNO BOLSONARO1

Leandro Mariani Mittmann
[email protected]

O

As entidades classistas e os seus produtores vinculados se jogaram em peso numa proposta diferente para o Brasil a partir de 2019. Em outras palavras, apoiaram Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República, bem antes do nome dele se tornar popular em todo o País e cair nas graças (e votos) de 55 milhões de brasileiros. Entre os que entendem que Bolsonaro fará uma promissora gestão para o agronegócio está o engenheiro agrônomo Marcos Fava Neves, professor das Faculdades de Administração da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto/SP, e da Fundaçao Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Mais do que apoiar, Neves trabalhou na elaboração de um documento sobre as potencialidades do agro brasileiro, entregue a líderes do novo Governo. Seu nome chegou a ser sugerido por organizações e associações de empresas do setor para ministro da Agricultura, cargo que ficou com a deputada Tereza Cristina, escolha que ele elogia na entrevista a seguir, em que também estima o que será do agronegócio brasileiro em 2019 e na década seguinte.

A Granja — Você participou da elaboração dos planos da agricultura do Governo Bolsonaro. O que o produtor pode esperar desse Governo para o setor?

Marcos Fava Neves — Foi um privilégio ter sido convidado para participar deste grupo, gente de diversas áreas que compôs um documento de umas 30 páginas apontando potencialidades do agro brasileiro nos próximos dez anos e os problemas que temos pela frente. Foi entregue ao comitê gestor dos planos (do novo Governo). Contribui mais com a visão de longo prazo da agricultura e o planejamento estratégico necessário. O agronegócio brasileiro exportou US$ 96 bilhões em 2017 e deve chegar a US$ 100 bilhões neste ano. Se este desempenho continuar nos próximos dez anos, somado ao adicional estimado em pesquisas nossas, o agronegócio trará US$ 1,2 trilhão na soma destes próximos dez anos, ou R$ 3,7 trilhões ao câmbio atual. Isto sem contar o provável crescimento em papel e celulose e outros produtos florestais, café, frutas, flores, açúcar, etanol e outros produtos. Um volume e valor impressionantes seriam atingidos, que levaria nossa área cultivada a 85 milhões de hectares, apenas 10% da área do Brasil. A renda no campo também terá grande crescimento, muito além da estimativa de 2019, que é de R$ 584,7 bilhões, que por sua vez está 40% acima do valor de 2009. Creio que o produtor pode esperar muita coisa principalmente na remoção de obstáculos hoje existentes que reduzem a velocidade de crescimento do agronegócio, e deve receber total apoio do novo Governo Bolsonaro, lembrando que o agronegócio embarcou em Bolsonaro quando ele ainda não tinha chances e foi o principal setor apoiador de sua candidatura. Nas duas últimas décadas, onde boa parte do Brasil teve dificuldade no nosso principal objetivo, que é a geração de renda, o agro mostrou ser uma máquina azeitada de criação de recursos à nossa sociedade. Começa um novo momento para a agricultura brasileira com Bolsonaro, onde a pauta será a geração de renda, o crescimento, a remoção de entraves e fazer do agronegócio o capitão do desenvolvimento do Brasil.

A Granja — Neste sentido, a insegurança jurídica sempre foi uma das principais e históricas queixas dos produtores. O que deverá mudar?

Neves — Muita coisa, pois diferentemente daquilo que tivemos nos últimos anos, agora temos eleito com enorme força democrática um Governo com DNA Militar, que não tem muita tolerância com baderna e indisciplina, não tem aquela visão de vitimização e de separação da sociedade brasileira. As cenas lamentáveis que observamos nos últimos anos de desrespeito às leis, aos direitos constitucionais garantidos de ir e vir, tais como bloqueios de estradas, destruição de patrimônio público, invasões sem punições espero que estejam com os dias contados. O Brasil perdeu muito tempo com uma visão obsoleta de mundo e de desenvolvimento. Agora é hora de privilegiar o mérito, o esforço, o indivíduo e trabalhar para gerar oportunidades às pessoas. Vamos tentar oferecer a estes movimentos que promoveram esta desordem a chance de se legalizarem e principalmente, dar oportunidades de trabalho, que depois, com esforço e mérito, se transformam em patrimônio, e não o contrário.

A Granja — O setor apoiou em peso a candidatura Bolsonaro bem antes do pleito. Quais os riscos de uma frustração dos produtores com a gestão do Governo para o campo? As expectativas não são exageradas?

Neves — Exato, foi o setor que primeiro embarcou, ainda até quando a candidatura era vista como “exótica”. Confiou, contribuiu e fez ganhar. Acho que os riscos são baixos, pois até o momento as escolhas tem sido bastante técnicas e a filosofia é a que o agronegócio precisa: um estado menor, mais eficiente, menos corrupto, que remova entraves e permita crescer, reduzindo seu custo. Eu tenho uma analogia interessante com um condomínio, que replico aqui, sendo na minha leitura o que o Brasil precisa: “A turma que paga o condomínio cansou um pouco da turma que não paga o condomínio, da turma que rouba o condomínio e da turma empregada no condomínio. E a estratégia bem simples é esta: assumir a gestão do condomínio, reduzir o grande grupo empregado no condomínio, vender algumas partes do condomínio, diminuir ao máximo o roubo ao condomínio e criar oportunidades para aqueles que não pagam, passarem a pagar o condomínio. Mais adiante, pelos ganhos de eficiência, reduzir a taxa do condomínio.” Até agora acho que as expectativas vêm sendo cumpridas na formação do time e na filosofia, vamos ver a prática a partir de janeiro.

A Granja — Qual a sua avaliação da escolha de Tereza Cristina para o Ministério da Agricultura? Ela substitui um peso-pesado do setor, Blairo Maggi...

Neves — Foi sim, por diversos motivos. Além de política com carreira admirada, ela é engenheira agrônoma e produtora rural, portanto tem experiência empresarial e política, além de ser mulher, saber ouvir e agregar. Fora isto tem um fato muito importante, que é ter sido a candidata da Frente Parlamentar da Agropecuária, que é muito grande e forte, e deve acompanhar Bolsonaro nas aprovações necessárias no Congresso. Teve experiência também como Secretária de Desenvolvimneto Agrário do MS, e tem excelentes relações no setor. O simples fato de Bolsonaro ter indicado quem o setor indicou já mostra seu respeito pelo agronegócio. Gostei também de ver a nova estrutura do Ministério, que na minha visão ainda deveria ter toda a parte ambiental que trata da agricultura dentro da estrutura. Isto faltou. O Brasil tem que ter apenas um Ministério ligado ao setor, e tomara que possa mudar de nome para Ministério do Agronegócio. Precisa acabar no Brasil esta separação de agricultura familiar x empresarial. Temos agricultura de pequeno, médio e grande porte, e de baixo, médio e alto conteúdo tecnológico. Nestes nove quadrantes cabem todos. Precisa acabar toda a política de vitimização e fortalecer o caráter empreendedor e empresarial independente do tamanho, afinal encontramos gente extremamente eficiente e ineficiente nos nove quadrantes.

A Granja — Quais são as suas expectativas quanto a conquista e ampliação de mercados externos, uma das bandeiras da atual gestão no Ministério da Agricultura?

Neves — É extremamente importante, mas isto não depende apenas do Ministério. Depende de uma filosofia de país, do Itamarati, que privilegie abertura, geração de negócios e desenvolvimento. A análise dos números é muito interessante, o que costumo chamar nas minhas apresentações de “duas Chinas”. Em 2000 o país vendeu de produtos do agro para a China, cerca de US$ 500 milhões. Em 2018 deve chegar a US$ 30 bilhões. Esta é a primeira China. Mas tem outra China quando se soma países como Indonésia, Egito, Índia, Tailândia, Vietnam, Bangladesh, Emirados Árabes, Coreia do Sul, Arábia Saudita que em 2000 compravam US$ 50 milhões cada em produtos do nosso agro e hoje compram perto de US$ 2 bilhões cada. Se pudesse recomendar ao novo Governo do Brasil, devemos ser exportadores em essência, estudando e muito cada mercado, levantando as oportunidades e dificuldades, tentar esforços de aproximação para abrir mercados e ser muito diplomático, o “amigo de todos”. O Brasil precisa vender desde o boi em pé até a carne bovina orgânica embala da para todos os compradores que desejarem nossos produtos, e na forma como desejarem, ou seja, desde o amendoim sem processamento até a paçoquinha diet embalada com adição de aveia. Onde tiver demanda e mercados, estamos lá para oferecer o que for demandado. Em 1998 escrevi um artigo no Estadão chamando o Brasil de “Fornecedor Mundial de Alimentos”. 20 anos depois, atingimos isto, mas dá para ir muito mais longe.

A Granja — O que o produtor pode esperar em relação ao câmbio em 2019, que define muito sobre as cotações? Houve momentos de dólares nas alturas na campanha presidencial...

Neves — As margens para nossos produtores de cereais devem ser piores na safra 2018/19. Em momento importante de compras de insumos, o câmbio esteve acima de R$ 4 por dólar e os fez mais caros. Se o câmbio permanecer nos valores de R$ 3,70 durante a safra, quem também não vendeu nada dos produtos ao câmbio de R$ 4,20 (lembrando que recomendei fortemente a venda quando a soja se aproximou de R$ 83) terá um descasamento. A consultoria Céleres estima margens 27% menores. Segundo o Rabobank, gastos com fertilizantes foram de 15% a 35% maiores e com defensivos, cerca de 20%. As chuvas frequentes também podem trazer maior necessidade de controles e investimentos em defensivos. A menos que tenhamos valorização de preços, o que aparentemente não ocorrerá caso as safras se comportem bem, virá um período de mais aperto, apesar dos preços em reais ainda permitirem margens aos bons produtores.

Muita atenção nos controles e custos de produção.

A Granja — E neste ponto, quais as suas perspectivas e estimativas para as cotações das principais commodities em 2019, na safra 2019/2020?

Neves — Temos coisas novas acontecendo, algumas que não estavam no radar. Surpreendeu o último relatório do USDA, que derrubou a expectativa de compras de soja pela China em 9 milhões de toneladas na safra 2018/19, vindo de 94 milhões para 85 milhões de toneladas. Os argumentos são a guerra comercial com os EUA e casos de peste suína africana, que podem diminuir a demanda de soja para rações e política de vendas de estoques de grãos. Temos que prestar muita atenção na evolução da peste suína africana na China, pelo baixo padrão sanitário e dificuldade de combate, podendo ter impactos positivos para as carnes brasileiras se sua produção for reduzida e negativo para a soja num primeiro momento. Os prêmios da soja em Paranaguá/PR estiveram agora no final do ano em US$ 2,20 a mais que o valor do bushel negociado na bolsa de Chicago, mas os de entrega em março, caem para apenas US$ 0,90. Acompanhar as conversas entre EUA e China para ver o que acontece no mercado de grãos e do agro. Por enquanto, imprevisível saber como serão as tensões comerciais. Eu apostaria na manutenção dos preços atuais em dólar no mercado mundial, mas menores em reais, pois se der certo toda esta mudança no Brasil de 2019, com privatizações, ganho de confiança e outros, acho que o dólar volta a R$ 3,20 até dezembro de 2019.

A Granja — E quais os principais desafios, dificuldades que do produtor e da agricultura brasileira em 2019?

Neves — No próximo ano e nos próximos dez anos teremos muitos mercados crescendo para comprar nossos produtos, mas as projeções indicam que os preços devem ser estes. Isto posto, o agronegócio deve focar no objetivo principal de construir margens. Se não podemos trabalhar nos preços da commodities, para ter margens maiores, temos que trabalhar na eficiência, nos custos de produção. Tem a agenda que é mais pública (aquela analogia que fiz do condomínio lá atrás), onde o Estado vai parar de atrapalhar e passar a impulsionar o setor produtivo reduzindo seus custos e promovendo eficiência (toda a parte de reforma estatal) e temos também a agenda privada de construção de margens, que nos três vértices do triângulo. O primeiro vértice é o da digitalização e tecnologia (inovação), com a utilização de drones e máquinas que permitem ao produtor acabar com o conceito de hectare e trabalhar com o método de metro quadrado, tendo mais eficiência e resultado na propriedade. Fora isso, a modificação de plantas para melhor adaptação e resistência, além da chegada de novos produtos serão assustadoras.

O segundo é o da economia circular, muito trabalhada já nos países europeus, a qual desponta com a ideia de que você tem que integrar suas atividades de forma que o subproduto de uma atividade se torne o insumo de outra, conciliando, por exemplo, o confinamento de gado, aves, suínos, produzindo esterco que vira fertilizante para a agricultura, o que pode ser feito numa região por produtores integrados. Você processa milho, gera etanol e composto proteico, alimenta gado, gera esterco e faz adubo, enfim uma orquestra integrada para criar valor. O terceiro vértice, que é uma tendência mundial em diversas áreas, diz respeito à economia do compartilhamento. Nos próximos anos, os agricultores não terão mais a necessidade de ter inúmeros equipamentos, tantos ativos, tantas máquinas, porque tudo vai ser compartilhado, dentro do modelo Uber e Airbnb, entre outros que já se mostraram a que vieram. Vai mudar muito, e quem não quiser evoluir junto com estes três vértices terá grandes dificuldades pois os hiatos aumentarão. Tudo na ideia fundamental de se fazer mais com menos, tentando sempre construir margens.