Fundacão MT

 

Fundação MT já trabalha para 2030

Evento Fundação MT Em Campo reuniu em Itiquira/MT centenas de produtores para apresentar conclusões sobre manejo de lavouras. A equipe técnica da instituição também já se articula para propor soluções técnicas a mais 5,5 milhões de hectares a serem incorporados à agricultura mato-grossense nos próximos 13 anos

Leandro Mariani Mittmann* [email protected]

A Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso, mais conhecida por Fundação MT, tem um papel fundamental no desenvolvimento da agricultura no estado há 24 anos. Desde a fundação, em 1993, a instituição validou para o estado tecnologias e técnicas de soja, milho e algodão em relação a manejo de solo e adubação e a ameaças fitossanitárias já usufruídas pelos produtores de outras regiões da agricultura brasileira. Além Fotos: Leandro Mariani Mittmann disso, desenvolveu inovações para a realidade do estado do Centro-Oeste. Inclusive criou novas cultivares, o que era uma carência da região na época. Agora, a Fundação MT, que reúne um time de pesquisadores de ponta, mira os próximos 13 anos. Afinal, em 2030, segundo projeção da Secretaria de Estado e Desenvolvimento Econômico do Mato Grosso (Sedec), serão 15 milhões de hectares de soja, 5,5 milhões a mais que a atual safra – e muito mais que os quase 2 milhões da safra 1993/94.

E uma parte considerável dessa área agregada, algo como metade, será de cultivos em desafiantes solos arenosos, o mesmo perfil de 2 milhões de hectares atuais. “Merecem atenção especial”, definiu o pesquisador da fundação Leandro Zancanaro, no evento Fundação MT Em Campo, Itiquira/MT, em um dos Centros de Aprendizagem e Difusão da instituição, que reuniu, no início de fevereiro, a imprensa especializada e também centenas de produtores. O tradicional Fundação MT Em Campo é um dos muitos eventos de difusão de tecnologia que a instituição promove durante o ano em que os pesquisadores exibem as mais recentes conclusões de suas pesquisas. E no bate-papo com os jornalistas, o cultivo em solos arenosos foi um dos temas que recebeu mais atenção. Inclusive no contexto da integração lavoura-pecuária, objeto de uma nova experiência da fundação a partir de 2018, em uma parceria com a Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja).

Presidente da Fundação MT, Soares Neto: nos 23 anos de existência da fundação, os desafios da agricultura foram mudando

Zancanaro lembra que a pecuária será um elemento importante para a agricultura em solos arenosos (nos atuais em exploração e nos futuros), pois a atividade “se adapta melhor que a cultura anual”. “Para cada ambiente, há uma aptidão”, lembra, ao esclarecer que as espécies de pastagens podem melhorar as condições físicas e biológicas dos terrenos. “A pecuária é opção para rotação”, acrescenta Francisco Soares Neto, presidente da Fundação MT. A pesquisadora responsável pela área de nematologia da fundação, Rosangela Silva lembra que em solos com alta incidência de nematoides, por vezes apenas as braquiárias dão respostas produtivas, pois as culturas anuais não mais se desenvolvem satisfatoriamente. E a ideia é aproveitar para implantar agricultura em áreas já “abertas”, incrementando as produtividades de agricultura e também pecuária.

Agricultura como um cubo mágico — Independentemente da cultura, da atividade, da forma como essas são conduzidas, os pesquisadores ressaltaram que, absolutamente, sempre uma ação na lavoura tem efeitos em outras. Por isso, um cubo mágico, daqueles que quebram a cabeça para ajustar as mesmas cores em cada uma das suas faces, foi o símbolo do evento Fundação MT Em Campo. Soares Neto lembrou que, em um cubo, sempre se enxerga um lado, mas não os demais, e que cada movimento de peça altera a posição de outra. E essa é a analogia com a “complexidade da agricultura” atual, pois em 23 anos de existência da fundação, os desafios da agricultura foram mudando. E, acrescentou Zancanaro, assim como no cubo mágico, é preciso haver sincronia entre os movimentos. Mencionou que, por exemplo, a distribuição de plantas interfere na incidência de doenças. E que uma cultura é influenciada pelas antecessoras da sequência de dez anos. “O que eu fiz lá atrás interfere hoje”, advertiu o pesquisador.

O pesquisador Leandro Zancanaro descreveu experimento de nove anos com diferentes sistemas de cultivo em que ficou comprovada a importância da cobertura do solo

Um exemplo simbólico da interferência de um ciclo nos seguintes foi apresentado por Zancanaro. O caso se deu em nove anos de uma experiência que envolveu várias combinações de cultivos com a soja como a cultura principal, além de milho, milheto, braquiária, crotalária, com manejos em sucessão, rotacionados, consorciados e até pousio, comparados a uma experiência com gradeação, sem revolvimento do solo, cujo objetivo foi ressaltar a fundamental relevância da cobertura de solo e da rotação de culturas. A semeadura de todas as diferentes parcelas se deu no mesmo dia, em solos com condições semelhantes, adubações idênticas e com a mesma variedade, igual tratamento fitossanitário e assim por diante. Conforme o pesquisador, nos diferentes sistemas, o elemento químico não se alterou, mas os aspectos biológico e físico se mostraram distintos em razão do manejo – o que causou efeitos consideráveis na produtividade.

Entre as múltiplas e detalhadas conclusões, um resultado convincente: a produção da parcela sem cobertura de solo para as demais, independentemente da combinação, foi o acumulado de 55 sacas por hectare em sete safras (no primeiro ano, não foi possível avaliar diferenças, já que todos os sistemas partiram do zero, e a atual safra ainda não tinha sido colhida até o dia do evento). “A diferença vai ‘abrir’ ainda mais”, avalia Zancanaro sobre os próximos anos. E observaram-se, por exemplo, vantagens como o acúmulo de nitrogênio e supressão a nematoides em sistemas com a inserção de crotalária, aumento da palhada no caso do uso de uma braquiária, cinco culturas em três anos (soja e milheto; soja e crotalária; e milho e braquiária em consórcio), além da possibilidade de uma “safra” de bois alimentados pela braquiária após soja e crotalária (sequência); soja, depois milho e braquiária em seguida.

O jornalista esteve no evento a convite da Fundação MT