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Retomada nos ARROZAIS

A safra de um dos alimentos mais tradicionais na mesa dos brasileiros voltará à normalidade no atual ciclo. Depois de uma temporada de perdas provocadas pelo El Niño, o arroz recupera produção, apesar de um pequeno recuo na área plantada. Consequência do incremento na produtividade, favorecida pelo clima e pelas inovações em cultivares, manejo e práticas sustentáveis. As perspectivas quanto à rentabilidade, no entanto, ainda estão cercadas de incerteza, já que o incremento na colheita poderá afetar os preços do grão no mercado.

Denise Saueressig
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Os produtores brasileiros cult ivaram menos arroz na safra 2016/2017. O plantio recuou 3,3%, para 1,94 milhão de hectares. A variação negativa se deve à redução em áreas de sequeiro, que somou 19,8%, segundo levantamento divulgado em fevereiro pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Por outro lado, as áreas irrigadas têm incremento estimado em 4%. A produtividade média nacional é calculada em 6.108 quilos por hectare, volume 15,7% acima dos 5.280 quilos do ciclo passado, quando o excesso de chuva fez estrago principalmente no Rio Grande do Sul, que responde por cerca de 70% do cereal produzido no País.

Nesta safra, os gaúchos estão apostando na recuperação da lavoura. Segundo a Conab, a área cultivada no estado cresceu 2,3%, chegando a 1,1 milhão de hectares, muito próxima da projeção do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), que fala em 1,099 milhão de hectares. A colheita nos campos gaúchos deverá alcançar os 8,4 milhões de toneladas, com um rendimento médio esperado de 7,7 mil quilos por hectare, 12,6% acima do que foi registrado em 2015/2016. O crescimento no principal estado produtor vai elevar a safra brasileira em 11,9%, para 11,8 milhões de toneladas.

A retomada depois das perdas da safra passada, no entanto, não é motivo para entusiasmo. “Há produtores faturando R$ 3 mil líquidos por hectare, mas também há aqueles que estão no prejuízo, obrigados a vender 100% da colheita abaixo dos custos”, relata o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Henrique Dornelles. O dirigente acredita que em torno de 30% dos produtores do estado estão em situação financeira complicada e que foi agravada com os prejuízos no ciclo anterior.

Henrique Dornelles, presidente da Federarroz: apesar da recuperação da safra, situação financeira de muitos produtores é preocupante

Para tentar minimizar os problemas enfrentados por parte dos orizicultores, a Federarroz está propondo que algumas medidas sejam incorporadas ao próximo Plano Agrícola e Pecuário. Uma delas sugere uma linha de crédito específica que contemple indústrias que financiam a lavoura, já que muitos produtores não têm acesso às linhas oficiais e buscam financiamento em processadoras ou fornecedores. “Nossa proposta inclui taxas de juros adequadas e vencimento dos prazos de pagamento de forma escalonada, para reduzir a pressão de venda na época da colheita”, argumenta Dornelles.

As outras reivindicações incluem o aumento do Valor Básico de Custeio (VBC) para a cultura e melhorias no seguro rural. “Precisamos de um mecanismo que realmente nos ofereça segurança. Hoje o produtor precisa perder mais de 50% da safra para ter direito ao prêmio”, reclama.

Gestão para enfrentar custo mais alto – Ainda que parte da rentabilidade da atividade dependa de fatores externos, o presidente da Federarroz ressalva que muitos precisam aprimorar a gestão das suas propriedades para conquistar melhores resultados. “Existem arrozeiros pagando um valor muito alto pelo arrendamento da terra, assim como existem aqueles que ainda têm baixas produtividades”, constata. Segundo Dornelles, em torno de 20% dos produtores que acessaram o crédito oficial precisaram renegociar suas dívidas na última safra. “Se não repensarmos nossos modelos e não conseguirmos remuneração adequada, a área cultivada poderá sofrer redução no próximo ciclo”, alega.

Para 2017/2018, a boa notícia é que os arrozeiros já podem acessar recursos de pré-custeio que foram anunciados em janeiro pelo Governo Federal. O volume disponível, de R$ 12 bilhões, é R$ 2 bilhões superior ao montante liberado para o pré-custeio da safra passada.

Lucilio Alves, do Cepea: o ideal é que as vendas sejam prorrogadas para depois do pico da colheita, mas decisão depende do fluxo de caixa de cada produtor

O comportamento dos preços na atual temporada é outro fator de preocupação entre os produtores. Ao longo de 2016, como reflexo da queda da safra nacional, as cotações da saca de 50 quilos chegaram a ultrapassar os R$ 50 em alguns momentos. Em meados do mês passado, a saca valia R$ 48,95, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. No levantamento da Emater/RS da semana de 13 a 17 de fevereiro, a saca apresentou cotação de R$ 48,43, acima dos R$ 44,79 registrados no mesmo período do ano passado. A média de 2016 foi de R$ 45,89.

Agora, a tendência é que a entrada de um maior volume do cereal no mercado possa provocar recuo nos preços especialmente no segundo trimestre do ano. “Também é a época em que muitos produtores precisam vender devido ao vencimento das dívidas”, observa o pesquisador do Cepea Lucilio Rogerio Alves.

A análise do mercado, no entanto, indica que o cenário poderá se modificar no segundo semestre, já que o quadro de oferta e demanda é bastante ajustado. A produção, projetada em 11,8 milhões de toneladas, é muito próxima do consumo doméstico, de 11,5 milhões de toneladas. Soma-se a isso o estoque de passagem estimado pela Conab para o período-safra encerrado em fevereiro e que é o mais baixo desde 1999/2000, de 365 mil toneladas.

Evento que contou com palestras e vitrines tecnológicas foi realizado no mês passado em Cachoeirinha/RS e marcou a abertura oficial da colheita

Considerando o comportamento de preços esperado ao longo do ano, o ideal é que as vendas sejam prorrogadas para depois do pico da colheita. “Entretanto, essa é uma decisão que depende muito do fluxo de caixa de cada produtor”, conclui Alves.

A incerteza sobre as cotações vem acompanhada do aumento de custos na atual safra. O Irga calcula gastos de R$ 7.007 por hectare, contra R$ 6.715 no ciclo anterior. Itens como combustível, sementes, defensivos, arrendamento e mão de obra apresentaram elevação. O valor gasto por saco é estimado em R$ 47,86.

Abertura da colheita enaltece tecnologia – Organizada pela Federarroz, com o apoio do Irga, a Abertura Oficial da Colheita do Arroz foi realizada em evento com duração de três dias – entre 16 e 18 de fevereiro – na Estação Experimental do instituto em Cachoeirinha/RS.

Durante reunião da Câmara Setorial Nacional do Arroz, no dia 16, a cadeia produtiva aprovou o pedido que será feito ao Ministério da Agricultura para a inclusão do cereal na Portaria nº 82/2016, que estabelece pragas, doenças e invasoras de maior risco fitossanitário para as principais culturas com o intuito de priorizar processos de registro de produtos e tecnologias de controle.

Entre os principais desafios enfrentados pelos orizicultores nas lavouras estão a brusone, o capim-arroz, o arroz-vermelho e o caramujo. O diretor técnico do Irga, Maurício Fischer, salienta que é necessária a autorização de uso de um defensivo importado para o combate ao caramujo, que pode causar perdas superiores a 90% na lavoura. Segundo ele, produtores que vinham adotando o cultivo pré-germinado vêm desistindo do sistema porque não conseguem controlar a praga.

A resistência de invasoras como o capim-arroz e o arroz-vermelho também vem afetando o bolso dos produtores. “O gasto com herbicidas era de R$ 278,70 por hectare antes da resistência, mas agora fica em torno de R$ 630 por hectare”, alerta Fischer.

O trabalho de pesquisa realizado pelo Irga, continua o dirigente, vem sendo fundamental para o combate aos principais problemas fitossanitários. Na atual safra, as cultivares desenvolvidas pelo instituto estão presentes em quase 60% das lavouras gaúchas. Uma delas é a variedade 424 RI/CL, com genética resistente ao arroz-vermelho.

Na programação da abertura oficial da colheita, os produtores tiveram acesso às principais inovações voltadas ao arroz. Além das palestras, quem passou pelo evento teve a oportunidade de visitar as vitrines tecnológicas montadas por instituições de pesquisa e empresas que trabalham com soluções para a cultura.

A sustentabilidade da lavoura também mereceu destaque. O manejo conservacionista foi abordado pelo pesquisador do Irga Filipe Selau, que enfatizou práticas como a cobertura do solo, a rotação de culturas e a integração lavoura-pecuária, que proporcionam benefícios como alto aporte de resíduos, redução de pragas, diversificação de renda e melhoria da fertilidade do solo. Segundo ele, a soja vem oferecendo uma contribuição muito importante para a cultura do arroz em áreas onde é adotada a rotação, com incrementos de produtividade entre 10% e 28%.

Em 2018, a abertura oficial da colheita deverá ocorrer novamente na estação experimental de Cachoeirinha, onde o Irga, que é uma autarquia do Governo gaúcho, desenvolve pesquisas com arroz desde 1939.


Sequeiro perde terreno

A área cultivada de arroz de terras altas mostrou queda de 19,8% na atual safra, ficando em 491,5 mil hectares, de acordo com a Conab. A produção deverá ficar pouco acima de 1 milhão de toneladas, queda de 13% em relação ao ciclo anterior. Esse processo de recuo, no entanto, não é recente. Iniciou na década de 1970, recorda o pesquisador Carlos Magri Ferreira (foto), da Embrapa Arroz e Feijão. Segundo ele, até então, o brasileiro consumia um grão mais arredondado, produzido em sistema de sequeiro. “Mas a importação de um tipo longo e fino dos Estados Unidos agradou o consumidor e, aos poucos, o Sul do Brasil passou a dominar a tecnologia de cultivo desse grão em áreas irrigadas”, cita.

A opção econômica pela soja e pelo milho também tirou espaço do arroz de sequeiro, que foi bastante utilizado para a abertura de novas áreas de cultivo em regiões como o Cerrado. No entanto, algumas localidades que ainda produzem o cereal nesse sistema vêm se destacando pela eficiência. É o caso do Mato Grosso, que tem área plantada de 134 mil hectares e produção estimada em 420 mil toneladas. Uma pesquisa realizada em 2013 apontou que 87% das marcas de arroz disponíveis no varejo eram beneficiadas no próprio estado. “É uma situação em que a cultura também desempenha função social, já que são abastecidos pequenos estabelecimentos comerciais”, analisa Ferreira.

O perfil dos produtores que trabalham com o arroz de sequeiro em Mato Grosso é variado, mas o pesquisador diz que há resultados bastante interessantes em grandes áreas onde o cereal é cultivado em rotação com a soja. “Há produtores que conseguem colher em torno de 4 mil quilos por hectare, mas acredito em um potencial para até 6 mil quilos”, complementa.

Apesar da carência de assistência técnica percebida em algumas regiões onde o arroz de terras altas perdeu espaço para outras culturas, a pesquisa vem se dedicando ao lançamento de cultivares que atendam as demandas dos produtores e dos consumidores. “Investimos em materiais do tipo longo-fino, com alto potencial produtivo e qualidade competitiva para panela. Também trabalhamos com o estímulo à inserção do cereal em sistemas de produção voltados à soja ou ao milho”, diz Ferreira, lembrando que Maranhão, Piauí, Pará, Rondônia e Tocantins são alguns dos estados que ainda mantêm o cultivo de sequeiro.


Inovação que resulta em competitividade – A pesquisa do Irga que envolve o desenvolvimento de cultivares vem acompanhada de outras ações que são essenciais para alavancar a rentabilidade nas lavouras. Uma das iniciativas mais recentes é o Projeto 10+, iniciado no ano passado como uma sequência do Projeto 10, lançado na safra 2001/2002. “Agora estamos agregando elementos de planejamento da lavoura que visem à redução de custos e ao aumento de produtividade. Queremos, por exemplo, expandir o uso de sementes certificadas dos atuais 50% para entre 80% e 90% do total da área”, destaca Fischer.

Nos últimos anos – com exceção da safra 15/16 em razão do El Niño –, as 7.891 lavouras irrigadas de arroz do Rio Grande do Sul registraram média de produtividade em torno de 7,5 mil quilos por hectare, ou seja, em algumas áreas, as médias ficam abaixo dos 7 mil quilos por hectare. “Nosso objetivo é chegar a uma média de 9 mil quilos nos próximos três ou quatro anos. Existe tecnologia e material genético para isso, mas também precisamos que os produtores façam uso do que está disponível, investindo em organização, tomando a atitude correta no momento certo”, completa o dirigente. O 10+ inclui a instalação de unidades demonstrativas e realização de roteiros técnicos nas diferentes regiões produtoras.

Outro programa do instituto é o Soja 6000, desenvolvido em parceria com empresas de insumos para difundir tecnologias aos produtores que vêm trabalhando com a oleaginosa em rotação com o arroz. Hoje o plantio da soja em áreas de várzea é estimado em cerca de 300 mil hectares, mas existe potencial para que o sistema seja implantado em 50% ou 60% da área cultivada com o cereal. “As produtividades nessas lavouras são muito variáveis, desde 1,9 mil quilos até 5,4 mil quilos por hectare. Por isso, estipulamos a meta de 6 mil quilos”, ressalta Fisher, lembrando que a oleaginosa vem ajudando a controlar o aparecimento de plantas invasoras no arroz. Para auxiliar os produtores que pretendem iniciar o cultivo da soja ou ainda obter melhores rendimentos com a cultura, os técnicos do Irga prestam informações sobre a escolha correta da cultivar, época adequada de semeadura, fertilidade do solo e drenagem da área.

Diversificação – Na lavoura em Santo Antônio da Patrulha/RS, o produtor Luiz Carlos Machado procura seguir à risca as recomendações para conquistar um bom resultado com a soja na várzea. Ele recorda que, há cinco anos, quando deu início ao cultivo em rotação com o arroz, a lavoura mal cobriu os custos. No segundo ano, já conseguiu algum resultado e, na safra passada, colheu 48 sacas por hectare.

Normalmente, o plantio da oleaginosa é realizado em uma área entre 60 e 70 hectares do total de 190 hectares cultivados com arroz. Nos últimos três anos, Machado, que junto com os dois filhos administra a empresa Sementes L.C., também resolveu investir no plantio da soja em áreas de sequeiro, que são manejadas em integração com o gado no inverno.

Maurício Fischer, diretor técnico do Irga: projetos 10+ e Soja 6000 estão entre as iniciativas mais recentes para incentivar o aumento da produtividade

Assim como indica a média do estado, o produtor deverá recuperar a produtividade no arroz na atual safra. A expectativa é de que o rendimento da lavoura passe dos 7,8 mil quilos por hectare obtidos em 2015/2016, para 8,5 mil quilos por hectare agora. “Colhemos menos no ano passado, mas os preços chegaram a até R$ 54 a saca”, lembra Machado, que procura escalonar a venda da colheita para conseguir melhor remuneração. “Faço a comercialização durante nove meses do ano”, conta.

Produtora Fátima Marchezan: preparo antecipado do solo e entrada da água no período recomendado ajudam a garantir altos rendimentos na lavoura

Trabalhando com arroz há mais de 30 anos e representante da terceira geração da família na atividade, Machado entende que fatores externos também podem ajudar ou atrapalhar a rentabilidade do produtor nacional. “Ao mesmo tempo em que devemos continuar exportando nosso cereal, precisamos rever as importações de países do Mercosul, onde os impostos são mais baixos e os custos, em torno de 30% inferiores aos nossos”, frisa.

Alta produtividade com manejo eficiente – Embora tenham assustado em alguns momentos, os efeitos do El Niño na safra passada não foram suficientes para derrubar a produtividade das lavouras na Agropecuária Santo Antônio, em Alegrete, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. O menor rendimento nos 470 hectares cultivados foi superior a 8 mil quilos por hectare, enquanto o maior volume ficou em torno de 10 mil quilos por hectare.

Segundo a produtora Fátima Marchezan, que trabalha na propriedade junto com o pai, Afonso Marchezan, parte desse resultado se deve às áreas cultivadas em coxilhas e à eficiência da assistência adotada nas lavouras. Porém, o manejo e as técnicas incorporados ao longo dos anos certamente têm a maior influência e devem resultar em médias superiores a 8 mil quilos por hectare na atual safra. “Conseguimos semear na época certa e fizemos o preparo antecipado do solo com o rolo-faca, que nos permite uma série de benefícios, como incorporação da palha e economia nos gastos com combustível pela redução no número de operações na lavoura”, sustenta a produtora, que ainda credita a alta produtividade ao solo com alto teor de matéria orgânica e às plantas sadias, sem ocorrência de problemas fitossanitários.

Desde o ano passado, Fátima é presidente da Associação dos Arrozeiros de Alegrete, que reúne 180 produtores do município. Formada em Biologia, ela finaliza este ano seu doutorado em manejo e conservação do solo e da água na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Conhecimento adquirido na academia e que é colocado em prática na propriedade da família, onde a produtora defende a sustentabilidade do sistema irrigado. “A utilização da água na lavoura do arroz é extremamente eficiente, já que o recurso é gradualmente resposto ao ecossistema”, assinala. Para uma maior eficiência no uso da água, a produtora também salienta a importância da irrigação no período recomendado, medida que auxilia muito no controle das invasoras.

Diferencial para um mercado crescente – A família do produtor José Osmar Bauer tem na produção de arroz orgânico o carro-chefe da propriedade em São João do Sul/SC. Há 17 anos ele, o pai e os dois irmãos trabalham com o cereal em um sistema sem uso de químicos e que ainda envolve frutas, hortigranjeiros e criação de gado em integração lavoura-pecuária.

Dos cerca de 90 hectares de arroz, 50 hectares são cultivados com arroz preto e vermelho. Os tipos especiais têm produtividade mais baixa em relação ao cereal convencional. O vermelho rende em torno de 100 sacas por hectare, enquanto o preto fica em 55 sacas por hectare. No entanto, os custos também são mais baixos. “Acredito que o valor fique em menos da metade quando comparamos com o gasto da lavoura tradicional”, declara Bauer.

O preço de venda é outro diferencial. O valor é definido anteriormente com as cooperativas e indústrias que adquirem a produção. “Antes do plantio, já acertamos o preço, que nesta safra ficará entre R$ 75 e R$ 80 a saca do vermelho, e R$ 100 e R$ 120 a saca do preto”, informa o produtor.

O fator econômico, diz ele, é apenas uma das motivações para investir no arroz diferenciado. “Eu me divirto com a lavoura orgânica e, além disso, são alimentos mais saudáveis e que têm procura crescente pelos consumidores. Também estamos começando um trabalho com turismo rural e esse tipo de produção chama a atenção das pessoas”, acrescenta.

Produtor José Osmar Bauer: custos mais baixos e preços mais altos com a produção de tipos de arroz diferenciados em sistema orgânico

O produtor José Osmar Bauer conta com o apoio da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), que lançou dois tipos especiais de arroz: o SCS119 Rubi (vermelho) e o SCS120 Ônix (preto). “Além de Santa Catarina, as sementes dessas cultivares têm sido utilizadas em outros esta dos, como Rio Grande do Sul e São Paulo”, afirma o pesquisador José Alberto Noldin, gerente da Estação Experimental da Epagri em Itajaí. “Também temos resultados bastante promissores com outros tipos, entre eles um italiano, adequado para o preparo de risotos. No Brasil, existe um mercado crescente para esse arroz, e parte do que é comercializado é importado”, continua.

José Alberto Noldin, da Epagri: programa de produção de sementes resulta em alto índice de uso de material certificado em Santa Catarina

Qualidade na semente – Em 40 anos de trabalho da estação de Itajaí, a Epagri lançou 30 cultivares de arroz com características como resistência às principais doenças, alta qualidade para industrialização, resistência ao acamamento e bom desempenho no sistema pré-germinado e na semeadura em solo seco, que vem aumentando em Santa Catarina.

As linhas de pesquisa ainda incluem manejo integrado de plantas daninhas, pragas e doenças, monitoramento ambiental de agroquímicos, uso racional de defensivos e fomento ao uso de sementes de qualidade. De acordo com Noldin, em mais de 90% da área cultivada com arroz irrigado no estado são utilizadas cultivares desenvolvidas pela instituição. “Ainda contamos com um excelente programa de produção de sementes certificadas, resultado da parceria entre a Epagri e a Acapsa (Associação Catarinense de Produtores de Arroz Irrigado). A disponibilidade de material de qualidade tem resultado em uma alta taxa de uso de sementes certificadas, cerca de 80%”, frisa o pesquisador.

Apesar de bastante atrás do Rio Grande do Sul em área plantada, com 148 mil hectares, Santa Catarina é o segundo maior produtor de arroz irrigado do Brasil. A produtividade média da atual safra é estimada em 7.455 quilos por hectare, e a produção, em 1,103 milhão de toneladas. A economista Glaucia Padrão, do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola da Epagri, explica que, nos últimos anos, a área no estado vem se mantendo estável, enquanto o número de produtores vem diminuindo. “Isso ocorre devido ao percentual de arrendamento que vem aumentando e chegou a 47% das áreas nesta safra”, detalha.

Assim como os vizinhos gaúchos, os arrozeiros catarinenses enfrentaram aumento nos gastos para o plantio do ciclo 2016/2017. O custo total da saca avaliado pela Epagri é de R$ 50,93, enquanto na temporada passada ficou em R$ 43,66. Já o custo variável subiu de R$ 37,41 para R$ 43,16. “Além do incremento percebido em defensivos, sementes, energia e mão de obra, pesou no bolso o fato de que boa parte do trabalho da colheita é terceirizado pelos produtores”, descreve Glaucia.


QUALIDADE RUMO AO EXTERIOR

Junto ao incremento da colheita, o Brasil também deverá retomar as exportações de arroz no atual ano-safra. Em 2015/2016, as vendas externas caíram muito. Em 2014/2015, o País havia exportado 1,36 milhão de toneladas de arroz em casca. No ciclo passado, foram apenas 800 mil toneladas. A projeção da Conab é de que o volume passe a 1,1 milhão de toneladas na temporada 2016/2017, mesma quantidade estimada para as importações As vendas externas de arroz beneficiado também tiveram diminuição nos últimos meses. Entre janeiro e dezembro de 2016, foram 697,9 mil toneladas, 27,4% a menos do que em 2015. O número, divulgado pela Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), considera o levantamento do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Do total desssas exportações, 58% foram realizados pelo Projeto Brazilian Rice, desenvolvido em parceria entre a Abiarroz e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). A iniciativa teve início em 2012 com a participação de 20 empresas e hoje conta com 32 indústrias. O número de países atendidos também cresceu: de 21 para 56 nestes cinco anos.

Cuba, Peru, Arábia Saudita, Estados Unidos, Angola e Venezuela estão entre os principais mercados do arroz beneficiado produzido no Brasil. O México é um dos países que deverá integrar a lista de destinos este ano, já que o cereal foi incluído na pauta de negociações que ocorreu entre os governos dos dois países no mês passado. “O potencial do México é muito interessante, com chance de se tornar o maior comprador do Brasil nos próximos anos”, revela o gerente do Brazilian Rice, Gustavo Ludwig.

No ano passado, apesar da queda no volume total dos embarques, alguns resultados merecem destaque. É o caso dos Estados Unidos, que importaram 20 mil toneladas das empresas participantes do projeto. Em 2015, os norte-americanos haviam comprado 18,3 mil toneladas. As vendas para a Venezuela também chamaram atenção. Diante da crise de desabastecimento enfrentada por lá, o país, que não havia comprado nada em 2015, importou 15,8 mil toneladas do cereal brasileiro em 2016.

Para este ano, a expectativa é conquistar novos clientes e, principalmente, consolidar os mercados já atingidos.“Para isso, vamos trabalhar fortemente em ações de divulgação do nosso produto em uma série de eventos internacionais que serão realizados ao longo do ano”, relata Ludwig. A expectativa, segundo ele, é que a participação do projeto nas vendas externas possa crescer para cerca de 65% nos próximos dois anos.