Milho

 

Manejo moldado para ALTAS PRODUTIVIDADES

A condução da lavoura de milho, para se chegar a altas produtividades, depende da qualidade dos processos de gestão das culturas e da compreensão da biologia da planta. A rentabilidade é proporcional a conhecimento por hectare + manejo de cada pé de milho

Engenheiro-agrônomo Dirceu Gassen, pesquisador e consultor, [email protected]

A evolução da área cultivada e da produtividade de milho no Brasil foi significativa nas últimas safras. A colheita de 2012, pela primeira vez, foi maior na segunda safra do que a da safra considera normal. A primeira safra é semeada a partir agosto ou setembro e a Fotos: Dirceu Gassen colheita, no verão, ocupava a área destinada à soja. A segunda safra de verão é semeada em janeiro e fevereiro, com colheita nos meses de inverno, seco nas regiões de clima tropical.

O coleóptilo se desenvolve em direção à superfície do solo e para de crescer ao receber energia solar, e nesse momento o coleóptilo define a posição do primeiro nó, dois centímetros abaixo da superfície

Ao analisar o período de seis anos, entre 2006 a 2011, e comparar com o período de seis anos entre 2012, incluindo a projeção de safra para 2017, a produção total aumentou 48%, de 53 milhões para 78 milhões de toneladas. No mesmo período, a área cultivada cresceu apenas 14%, equivalente a 2 milhões de hectares. Portanto, o aumento na produtividade evidencia acréscimo na eficiência de manejo e de tecnologia, principalmente, porque a segunda safra sempre foi considerada “safrinha”, com menor investimento em fertilizantes, sementes e sanidade.

A segunda safra brasileira tornou-se fato novo no mercado mundial, que ocorreu como consequência da necessidade de controle da ferrugem asiática e do aparecimento das cultivares de soja com a biotecnologia RR, que continham genes de juvenilidade. O hábito de crescimento indeterminado, com a indução juvenil de florescimento na fase vegetativa da soja, sem reposta ao estímulo de fotoperíodo ao início da floração, permitiu antecipar a época de semeadura.

A ferrugem da soja, constatada em 2002, disseminou-se pelo País, causando danos severos e a necessidade de profundas mudanças no manejo da cultura. Além do uso de fungicidas, também foi necessário antecipar a época de semeadura e adotar cultivares de ciclo mais curto, para reduzir a multiplicação e severidade da ferrugem. No passado a semeadura normal da soja iniciava em novembro e terminava em fim de dezembro, com a colheita em abril e até maio. Predominavam as cultivares de ciclo tardio com mais de 140 dias da semeadura até a colheita.

Depois da ferrugem na soja, o início da semeadura foi antecipado para setembro e outubro, combinado com a adoção de cultivares precoces, resultando na colheita em janeiro e fevereiro. A colheita da soja no meio do verão abriu o espaço para a segunda safra. A soja não poderia ser semeada na segunda safra pela severidade da ferrugem. O milho encaixou como cultura viável no sistema de produção, aproveitando o período de chuvas no Centro- Oeste e Sudeste, até abril.

As cultivares de ciclo longo apresentam maior estabilidade e potencial de produção, pelo tempo disponível para se recuperar de eventuais estresses causados por clima ou pragas. As de ciclo curto e precoces, adotadas no sistema de duas safras de verão, exigem maior eficiência na qualidade dos processos de manejo e têm maior risco de perdas causadas por estresses bióticos ou abióticos. Elas exigem maior qualidade nos processos de manejo na semeadura, na fertilidade do solo e na sanidade das plantas.

Atenção ao bê-a-bá do cultivo — O milho é uma planta classificada como C4, com maior eficiência na formação de biomassa. No mesmo período vegetativo e condições de solo e clima, o milho produz mais do que o dobro de biomassa e de grãos do que a soja. O potencial de produção de milho também é elevado. Nos Estados Unidos, o campeão de produção em 2016, David Hula, colheu 33.420 quilos por hectare, equivalente a 557 sacas.

Ao completar cinco folhas (V5) e o primeiro nó acima da superfície do solo, a espiga e o restante das folhas já estão encaminhados e em formação

A qualidade no processo de semeadura determina o vigor e o potencial de produção da planta. Na semeadura, as sementes de milho devem ser posicionadas a quatro centímetros de profundidade e o sulco fechado, para permitir o desenvolvimento do coleóptilo e posicionar o primeiro nó com raízes definitivas a dois centímetros de profundidade. A semente de milho ao germinar emite uma radícula e quatro raízes laterais. Essas raízes são denominadas seminais e temporárias, mantendo-se ativas até duas semanas depois da emergência. Na fase de germinação, a partir da semente, até a emergência da plântula, desenvolve-se o coleóptilo, uma estrutura semelhante a uma folha subterrânea, que funciona como bainha para a plúmula ou a primeira folha do milho.

O coleóptilo se desenvolve em direção à superfície do solo e para de crescer ao receber energia solar. Nesse momento, o coleóptilo define a posição do primeiro nó, dois centímetros abaixo da superfície. Por isso, a profundidade de posicionamento da semente de milho deve ser a quatro centímetros de profundidade com o sulco de semeadura fechado. Independentemente da semeadura a três, cinco ou sete centímetros de profundidade, o primeiro nó ficará a dois centímetros abaixo da superfície, determinado pelo momento em que o coleóptilo chega a superfície do solo e recebe radiação solar direta. O comprimento do mesocótilo variará com a profundidade de posicionamento da semente.

Semeaduras rasas, com até dois centímetros de profundidade, ou com o sulco aberto, forçarão a formação do primeiro nó, próximo à superfície, aumentando a sensibilidade a efeitos de temperaturas baixas (geadas) ou radiação solar e calor. Ambos causando estresses. A plântula também sofrerá maiores efeitos de químicos aplicados na lavoura ou produzidos pela decomposição de material orgânico (alelopatia). Em qualquer estádio vegetativo pode-se calcular a profundidade em que foi posicionada a semente, somando-se o comprimento do mesocótilo com os dois centímetros entre o primeiro nó com raízes (a base do colmo) e a superfície do solo.

A unidade de produção é uma planta, que produzirá uma espiga com número variável de fileiras de grãos, número de grãos por fileira e peso de grão (na imagem, espiga com 981 grãos, a maior que o autor do texto já conheceu)

A qualidade de semeadura é o processo que determina o potencial de produção da lavoura. E a profundidade de posicionamento determinará a localização da base do colmo da planta de milho. Os quatro nós coronais subterrâneos desenvolverão as raízes permanentes que nutrirão a planta na fase de definição dos componentes de produção. Esses nós formam um triângulo com vértice sobre o mesocótilo, considerado a base do colmo da planta, por onde passam a água e os nutrientes consumidos pela planta de milho. O triângulo da base do colmo é considerado o ponto crítico para a nutrição e a sanidade da planta. A infecção por patógenos ou o dano de pragas nesse local, praticamente, definem a inviabilidade de formação de grãos.

Índice de Área Foliar — A soma da área de um lado de todas as folhas das plantas em cada metro quadrado de superfície de solo é denominado de Índice de Área Foliar (IAF). A área foliar para máxima eficiência na produção de grãos é limitada à capacidade de exposição das folhas para interceptar energia solar e estimada em quatro metros quadrados. A planta de milho completa o ciclo entre a semeadura e a maturação fisiológica em quatro meses e pode atingir mais de 3,7 metros de altura. Cada planta produz entre 16 e 24 folhas, como característica genética, ciclo da cultura e fertilidade de solo. Em geral, os híbridos de milho cultivados no Brasil produzem entre 18 e 20 folhas.

A folha 1 (estádio V1) de ponta arredondada é a que emerge do solo, protegida pelo coleóptilo, que permanece subterrâneo. A folha V5 é formada pelo primeiro nó acima da superfície do solo. Até essa fase, as folhas produzem energia para o desenvolvimento de raízes e definem o número de fileiras de grãos na espiga em formação no ponto de crescimento. A espiga principal é formada, quase sempre, no nó da sétima folha, da extremidade superior para baixo. Em alguns híbridos, pode se desenvolver entre o nó seis e oito de cima para baixo. A área foliar varia com as características genéticas, fertilidade do solo e clima. Para atingir o IAF de quatro metros quadrados de área foliar para um metro quadrado de superfície de solo são necessárias dez plantas com 4 mil centímetros quadrados de área foliar/metro quadrado ou cinco plantas com 8 mil centímetros quadrados/metro quadrado.

Floração — A fase reprodutiva do milho é caracterizada pela emissão da flor (inflorescência) masculina ou pendão, e da flor (inflorescência) feminina, ou espiga com estilo-estigmas (cabelos). Cada pendão de milho pode produzir até 25 milhões de grãos de pólen. A liberação maior de pólen ocorre no meio do turno da manhã e no fim da tarde. A membrana externa do grão de pólen é tenra e frágil, mantendo-se viável por poucos minutos, até dessecar. A desidratação, por baixa umidade relativa do ar ou por ventos secos, dificulta a fecundação. Os períodos de seca também prejudicam a sincronia na produção de pólen com o desenvolvimento do estilo-estigma.

Dirceu Gassen: “Cada planta é uma unidade de produção e deveria ser manejada como indivíduo que determina a produção coletiva da área de lavoura”

O cabelo da espiga é o tubo por onde o grão de pólen penetra e cresce até chegar ao óvulo para a fecundação. Esse período se completa em até 24 horas. Enquanto não é fecundado, o cabelo cresce até três centímetros por dia, podendo ser cortado por insetos ou sofrer danos físicos, e continuar viável. A cor avermelhada da parte exposta do cabelo de milho, da maioria dos híbridos, ocorre pela produção de antocianina, induzida pela fecundação. A fase fértil para a fecundação da espiga é de aproximadamente dez dias. Porém, os primeiros três a quatro dias definem mais de 80% da fecundação e da produção de grãos. Cada espiga de milho tem o potencial de produzir pouco mais de mil óvulos e o mesmo número de cabelos para a fecundação.

Como fazer a estimativa de produção — A estimativa de produção de grãos de milho é um exercício simples de matemática e habilidade de escolher espigas representativas. Os erros na estimativa de produção estão relacionados com a qualidade de amostragem e não com o método de calcular. Se o amostrador tiver experiência e habilidade de escolher espigas que realmente representam a lavoura, os resultados serão muito próximos da produção real. A unidade de produção é uma planta, que produzirá uma espiga com número variável de fileiras de grãos, número de grãos por fileira e peso de grãos. O número de fileiras de grãos na espiga é sempre em números pares e varia entre 10 e 24. Os milhos normais e cultivados em condições mínimas de fertilidade produzem entre 14 e 18 fileiras de grãos.

O número de grãos por fileira varia entre 30 e 40. Em alguns casos de condições ideais para a planta, pode chegar a 50 grãos na fileira. Estresses em diferentes fases de crescimento poderão causar a formação de nenhum grão na espiga. Ao se multiplicar o número de fileiras e grãos por fileira o resultado será o número total de grãos por espiga. O peso médio por grão varia entre 0,20 g e 0,45 g e é definido pela sanidade e o conteúdo nutricional da área foliar de cada planta. O exemplo prático de uma espiga com 16 fileiras de grãos, 37 grãos por fileira resultará em 592 grãos/espiga. Com peso médio de 0,34 grama por grão, resultará em 201 gramas de grãos por espiga.

Com base na população média de seis espigas/metro quadrado, a produção será de 1.204 gramas/metro quadrado ou 12.040 quilos de milho/hectare, ou 201 sacas de 60 quilos. O manejo de milho para alta produtividade e para rentabilidade no sistema de produção de grãos depende da qualidade dos processos de manejo das culturas e da compreensão da lógica da biologia da planta. Pode se afirmar que a rentabilidade da lavoura é proporcional ao conhecimento aplicado por hectare e o manejo de cada planta como unidade de produção.