Familias

 

Com a SOJA no DNA

Por trás dos números que fazem a soja ser tão grandiosa estão famílias corajosas que encararam desafios, acreditaram no potencial do grão e transmitiram o conhecimento adquirido na lavoura para as novas gerações. São produtores que carregam a soja no DNA e constroem a trajetória de sucesso do grão em solo brasileiro

Denise Saueressig
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Os mais de 30 milhões de hectares cultivados com a soja de Norte a Sul são testemunhas de trajetórias de famílias que se formaram e cresceram em torno das propriedades. São histórias que ajudam a enriquecer o caminho do grão que se espalhou pelo País por meio do trabalho de homens e mulheres que desafiaram condições nem sempre favoráveis e hoje representam a produção da mais importante cultura agrícola brasileira.

Produtor Luiz Kulkamp (de chapéu) conta que o plantio da soja teve início na década de 1960 na propriedade da família em Maripá/PR

Relatos como o de Luiz Kulkamp, produtor em Maripá, no Oeste do Paraná, mostram que o caminho da família confunde-se com a evolução da lavoura. “Cheguei nesta propriedade com meus pais, em 1962, quando o sustento ainda vinha do milho, da mandioca e da criação de suínos”, lembra o produtor de 56 anos. “Mas ainda na década de 1960 meu pai começou a plantar a soja”.

Kulkamp recorda que, aos sete anos, no turno inverso ao da escola, ajudava o pai José Guilherme na lavoura. A época era de experimentações. A primeira safra foi cultivada no meio da plantação do milho, e o grande desafio era conseguir fazer a colheita. As sementes utilizadas ou eram as que ficavam guardadas de uma safra para a outra, ou eram trocadas com os vizinhos. Em 1972 veio o primeiro trator da família e, dois anos depois, a primeira colheitadeira.

Com o início da participação na cooperativa Coopervale (hoje C.Vale), a assistência técnica passou a ser realidade na propriedade, assim como as variedades adaptadas à região. Na década de 1980, foi a vez de o plantio direto chegar à lavoura. Com o manejo bem conduzido, a produtividade foi gradativamente aumentando e, nos últimos anos, o rendimento ficou próximo das 60 sacas por hectare. Hoje a soja ocupa os 106 hectares da propriedade que, na segunda safra, tem o cultivo do milho como carro-chefe.

Luiz Kulkamp e a esposa Helena tiveram três filhos. Daniel e Rafael, de 28 e 26 anos, ajudam o pai na lavoura. A filha Isabel, de 32 anos, trabalha no Sicredi em Palotina.

Kulkamp sabe que é difícil se defender das intempéries do clima, o maior inimigo da lavoura. Contra problemas como pragas e nematoides, o primeiro insumo é a informação que recebem quando buscam atualização. “Quanto menos defensivos usarmos, melhor será”, resume.

Com simplicidade e sabedoria, o produtor dá sua opinião sobre a importância da soja. “Sem o grão não temos como produzir a ração que vai dar origem à carne. Sem a soja o Brasil não teria tanto para exportar”.

Herança de determinação

A vocação para a agricultura ajuda a sustentar a produção do estado líder na soja. É no Mato Grosso que dona Claudina Piazza Topanotti, de 89 anos, constrói sua história desde o final da década de 1970. Natural de Santa Catarina, ela morava no Paraná com o esposo Alberto (já falecido), quando um dos 11 filhos do casal voltou de viagem contando sobre as oportunidades que existiam no Centro- -Oeste do País.

Desde então, a família vive e trabalha em Lucas do Rio Verde, onde a lavoura de soja ocupa 3 mil hectares. “Em 1978, quando meus avós começaram, não havia energia elétrica na região, barracas de lona eram improvisadas como moradias e o trabalho era feito sob o sol, já que os tratores não tinham cabine”, observa Gabriel Topanotti, filho de Valdir Topanotti, um dos filhos de dona Claudina.

Com 18 anos, Gabriel conhece a história da família, mas vivencia o conforto que a modernização da tecnologia trouxe nos últimos anos. “Hoje nosso manejo é conduzido com as ferramentas da agricultura de precisão e as sementes transgênicas”, afirma. Ele e o primo Rafael, que tem a mesma idade, dividem o tempo entre o trabalho na fazenda e o curso superior de Tecnólogo em Agronegócio em uma faculdade de Lucas do Rio Verde.

A lavoura onde a soja é plantada na safra de verão recebe na segunda safra o milho como cultura principal, o arroz, em uma parcela menor, e o milheto, como adubação verde. A produtividade média da oleaginosa nos últimos anos ficou entre 55 e 58 sacas por hectare. Na atual safra, com a perspectiva de um clima bastante favorável, a família acredita que poderá colher até 60 sacas por hectare.

Para os próximos anos, faz parte dos investimentos da família um projeto de armazenagem de grãos na propriedade. “Sempre seremos dependentes das variações do mercado, mas quem consegue segurar a sua safra tem vantagens nesse cenário”, justifica Valdir Topanotti, que espera poder contar com um silo próprio em dois ou três anos.

Dona Claudina é a matriarca da família Topanotti e vai completar 90 anos

O produtor, que aprendeu a cultivar a soja com os pais no início da década de 1980, resume a importância do grão para a família. “É o nosso meio de sobrevivência”.

A matriarca dessa família que está na terceira geração de produtores vai completar 90 anos em abril. Dona Claudina sempre conciliou as atividades domésticas com o trabalho no campo. Hoje, não abre mão de cuidar da horta e do jardim em volta da casa. “Mas se a gente deixasse, ela ia para a lavoura”, diz o neto Gabriel.

No Mato Grosso, a família Topanotti fixou raízes e cresceu. Gabriel (de camiseta escura) tem 18 anos, trabalha na lavoura e estuda Agronegócio


Continuidade que orgulha

Enquanto trabalhava como caminhoneiro, o gaúcho Gilberto José Marasca alentava a vontade de se tornar um agricultor. O projeto começou a ser colocado em prática quando ele e os dois irmãos resolveram arrendar terras em Goiás, próximo ao município de Goiatuba. Quando o contrato de arrendamento chegou ao fim, em 1986, decidiram adquirir uma área mais ao Norte do estado, onde os preços eram atrativos. Hoje a região faz parte do distrito de Buritirana, que pertence à Palmas, capital do Tocantins.“Eles enfrentaram os desafios que o pioneirismo cobra, ou seja, pouca estrutura, falta de escolas, dificuldade de encontrar serviços de transporte e de saúde. Goiânia, por exemplo, ficava distante 800 quilômetros”, conta o produtor Jeferson Luiz Marasca, 45 anos, filho de Gilberto.

Jeferson Marasca (de camiseta azul) ao lado do pai, Gilberto, e do irmão, Pedro: as dificuldades do passado deram lugar às altas produtividades

Inicialmente, a lavoura de 100 hectares foi cultivada com arroz. Depois, veio a pastagem para a criação de gado. Os anos passaram, a emancipação política do Tocantins levou desenvolvimento para a região, e a família vislumbrou a possibilidade de voltar a trabalhar com a soja, que era cultivada nas terras arrendadas em Goiás. “O solo naturalmente pobre resultava na perda da capacidade das pastagens em um período de dois anos, o que também levou à opção pela renovação dessas áreas com a soja”, descreve o produtor.

Hoje os Marasca cultivam 1,7 mil hectares da oleaginosa em quatro propriedades no distrito de Buritirana. Jeferson terminou o curso de Agronomia em 1995, em Cruz Alta/RS, onde a família foi formada. O trabalho é dividido com o pai, a mãe Edela, os irmãos Lucas, Pedro e Kisy, e o sobrinho Igor, de 20 anos. Todos moram na fazenda, em uma espécie de condomínio familiar.

Jeferson recorda que as safras iniciais foram cultivadas com sementes que eram utilizadas na Bahia. No primeiro ano, quando houve pouca chuva, a produtividade foi baixa, em torno de 30 sacas por hectare. A colheita teve que ser vendida em Anápolis/GO, distante mais de 800 quilômetros da propriedade. “Aos poucos as tradings passaram a se instalar na região, o que facilitou a comercialização”, comenta.