Arroz

 

PRAGAS: o recomendado é chegar antesPRAGAS: o recomendado é chegar antes

Conhecer de perto as ameaças à plantação e como agem é uma tática fundamental para a adoção de um manejo adequado das pragas. O agricultor precisa se antecipar aos problemas antes que eles se alastrem pelo arrozal, e examinar as lavouras com frequência é uma das muitas orientações

Eng. Agr. e Dr. Eduardo Rodrigues Hickel, Epagri/Estação Experimental de Itajaí/SC, [email protected]

O arroz irrigado sofre o ataque de diversas pragas, tanto no sistema de cultivo pré-germinado, que predomina em Santa Catarina, como nos sistemas de semeadura em solo seco, praticada no Rio Grande do Sul. Embora haja diferença na cronologia de ocorrência dessas pragas, as espécies principais são as mesmas em todos os sistemas de cultivo Fotos: Divulgação do arroz irrigado (tabela). O conhecimento dos organismos nocivos às plantas, bem como de sua ocorrência e de aspectos da biologia, é necessário para a adoção do manejo de pragas no arroz irrigado. É igualmente importante saber identificar na lavoura os inimigos naturais das pragas e outros organismos benéficos, para que não sejam adotadas medidas equivocadas de controle.

Implementar o manejo de pragas no arroz irrigado é estar atento ao que acontece na lavoura. Se o agricultor descuidar das medidas gerais de manejo e apenas notar quando a área estiver tomada por uma praga, pouco lhe restará a fazer. Portanto, é preciso antecipar possíveis problemas antes que eles ocorram. Uma boa prática é examinar as lavouras com frequência para verificar pragas, danos ou práticas culturais inadequadas, tomar nota dos problemas encontrados e aprender a reconhecer quando as plantas não estão normais ou quando a praga ou seus danos estão atingindo níveis prejudiciais. Finalmente, selecionar medidas de controle efetivas nas condições de cultivo e menos prováveis de agredir o ambiente natural. A seguir, a relação das principais pragas e as medidas para o controle.

Reboleira típica de ataque de bicheira-da-raiz, um inseto natural das várzeas inundáveis da América do Sul que encontrou no arroz irrigado um hospedeiro propício para sua multiplicação

Bicheira-da-raiz: Oryzophagus oryzae (Costa Lima) (Coleoptera: Curculionidae): é um inseto das várzeas inundáveis da América do Sul e encontrou no arroz irrigado um hospedeiro propício para sua multiplicação. O adulto é um gorgulho aquático com cerca de 3 mm de comprimento e corpo acinzentado, com manchas brancas. Mergulha e nada na água, e alimenta- se nas folhas novas do arroz. Eventualmente, pode comer o coleóptilo e a radícula de sementes germinadas. A larva é um verme branco com 6 a 10 mm de comprimento, e a pupa vive dentro de um casulo aderido às raízes do arroz. Os danos são causados pelas larvas, que se alimentam das raízes do arroz. As plantas atacadas ficam amareladas, com as extremidades das folhas eretas e têm retardo no desenvolvimento. O ataque é mais intenso onde a lâmina de água é mais profunda e nas bordas das lavouras.

Principais medidas de manejo integrado:

• executar bom preparo e nivelamento do solo;

• drenar a área por dois a cinco dias, a partir dos três dias após a semeadura, para forçar a saída dos adultos. A drenagem tardia e mais prolongada, visando matar as larvas, pode não dar o controle desejado, com o inconveniente de propiciar maior incidência de plantas daninhas;

• em solos de baixa fertilidade, aumentar a adubação nitrogenada em até 50% da dose usual de nitrogênio/hectare. Isso não controla a praga, mas estimula o perfilhamento das plantas e recupera em parte o sistema radicular cortado pelas larvas;

• monitorar a população de bicheirada- raiz, principalmente nas bordas das lavouras e nos locais onde a água é mais profunda, verificando a presença de adultos e raspagens nas folhas;

• aplicar inseticidas em caso de necessidade. Nas áreas de ocorrência frequente, pode se recorrer ao uso de sementes tratadas;

• após a colheita, eliminar a resteva e outras ervas daninhas hospedeiras.

Lagarta-militar (Spodoptera frugiperda (Smith) (Lepidoptera: Noctuidae): é mais conhecida como lagartado- cartucho do milho, que é seu hospedeiro preferencial. O adulto é uma mariposa robusta, com 40 mm de envergadura e coloração pardo-acinzentada. A lagarta atinge cerca de 40 mm de comprimento, e a pupa vive livre de casulo, no solo. As mariposas infestam as lavouras de arroz irrigado, principalmente na ausência temporária da lâmina d’água. Lavouras constantemente inundadas são evitadas, pelo risco iminente de afogamento. As lagartas comem as folhas do arroz, destruindo-as parcial ou completamente. Aparecem em altas populações no período seco e o ataque pode se iniciar no capim-arroz ao longo das taipas e dos canais de irrigação.

Principais medidas de manejo integrado:

• em caso de semeadura em solo seco, antecipar a inundação da lavoura (irrigação) para afogar os insetos;

• o controle químico só é necessário quando há alta população de lagartas e baixa incidência de inimigos naturais;

• após a colheita, destruir a resteva, utilizando grade, rolo-faca ou enxada rotativa.

Percevejo-do-colmo Tibraca limbativentris (Stal) (Hemiptera: Pentatomidae): como o próprio nome sugere, suga a seiva nos colmos do arroz. O adulto mede cerca de 15 mm de comprimento, com coloração parda-escura ou marrom, e a ninfa é semelhante ao adulto, de coloração marrom-escura. O percevejo suga a seiva nos colmos das plantas, onde fica de ponta-cabeça. Quando a água atinge a parte inferior das plantas, o percevejo alimenta- se nos internódios, caso o colmo já tenha se alongado. Na fase vegetativa da cultura, o ataque do percevejo provoca a morte da folha central, gerando o sintoma “coração morto”. O ataque na fase reprodutiva gera panículas brancas e grãos chochos.

O percevejo-do-colmo suga a seiva nos colmos das plantas, e os adultos passam o período de entressafra (outono/ inverno) em hibernação

Principais medidas de manejo integrado:

• nivelar bem a lavoura e mantê-la sempre com lâmina de água;

• monitorar a população de percevejos, principalmente nas bordas das lavouras vizinhas aos locais de hibernação;

• aumentar a lâmina d’água e, se possível, introduzir marreco-de-pequim nas áreas infestadas;

• incrementar o controle biológico natural com a instalação de gaiolas teladas (www.pragasarroz.xpg.uol.com.br/ GaiolaTelada.htm), colocando nessas gaiolas ovos e percevejos capturados;

• iniciar o controle com inseticida nos focos de ataque, pulverizando após as 16h;

• após a colheita, eliminar a resteva e roçar as taipas, valas e estradas internas. Logo em seguida, instalar abrigos de hibernação para captura de adultos, que podem ser pedaços de tábuas ou telhas nas taipas e margens de lavouras, verificando e eliminando periodicamente os percevejos encontrados sob os abrigos.

Percevejo-do-grão: Essa praga, como o nome diz, suga os grãos de arroz, danificando-os. Diversas espécies parecidas podem ocorrer nas panículas, porém, no Brasil, predominam Oebalus poecilus (Dallas) e Oebalus ypsilongriseus (DeGeer) (ambas Hemiptera: Pentatomidae). Os adultos medem de 8 a 10 mm de comprimento, são de coloração marrom-clara com manchas amarelas no dorso do tórax e nas asas. As ninfas são pretas com o abdômen amarelado, e os ovos são agrupados em pontos de desova, onde poucas plantas de arroz ficam recobertas de ovos. A praga suga os grãos nas fases leitosa e pastosa, que ficam manchados e quebram-se facilmente no beneficiamento. No arroz parboilizado, as manchas ficam mais evidentes, pois se tornam escuras após o processamento.

Principais medidas de manejo integrado:

• evitar o plantio escalonado em áreas próximas. Se não for possível, plantar quadros em sequência no sentido contrário à direção do vento dominante;

• inspecionar periodicamente gramíneas nas bordas da lavoura para achar e controlar os primeiros focos de percevejo;

• realizar vistorias periódicas na lavoura a partir de dezembro e, se constatada a presença de percevejos, eliminá-los nos focos, antes da postura, com a pulverização de um inseticida, no final da tarde;

• retirar ou eliminar os ninhos de ovos encontrados na lavoura e colocá-los em gaiolas teladas, para a criação dos inimigos naturais (www.pragasarroz. xpg.uol.com. br/GaiolaTelada.htm);

• usar o arroz como cultura armadilha, semeando faixas de 5% a 10% da área dez a 15 dias antes do plantio ou então semeando uma cultivar de ciclo mais curto. Quando a cultura armadilha passa a ser infestada, aplica-se nela algum inseticida;

• após a colheita, eliminar a resteva ou mesmo aplicar um inseticida para eliminar os adultos e as ninfas antes que procurem refúgio.

As posturas do percevejo-dogrão são concentradas em pontos de desova, onde umas poucas plantas ficam recobertas de ovos

Lagarta-das-panículas (Pseudaletia sequax (Franc.) e Pseudaletia adultera (Schaus) (ambas Lepidoptera: Noctuidae): são as mesmas que atacam os cereais de inverno como trigo e cevada, onde são conhecidas por lagarta-do-trigo. Os adultos são mariposas muito semelhantes, com cerca de 35 mm de envergadura e coloração cinza-palha, com duas pequenas manchas ocelares no primeiro par de asas. As lagartas atingem cerca de 40 mm de comprimento, e a pupa vive livre de casulo, no solo. As lagartas aparecem em populações altas no período final da lavoura de arroz e, devido ao costume de comer as aristas nas espigas de trigo, vão para as panículas de arroz onde cortam as raques, derrubando os grãos no chão. Durante o dia, as lagartas ficam na parte baixa da planta, entre os colmos ou até escondidas no solo. Somente à noite vão para a parte de cima se alimentar.

Principais medidas de manejo integrado:

• inspecionar a lavoura e efetuar o controle químico quando há alta população de lagartas, atentando para o período de carência dos produtos;

• após a colheita, destruir a resteva, utilizando grade, rolo-faca ou enxada rotativa.