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2017: LAVA-JATO e Trump podem entrar em campo

Leandro Mariani Mittmann
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Clima, câmbio, oferta e demanda (nacional e internacional), economia e política, cotações e custos, crédito e suas taxas de juros. Não faltam elementos para definir a vida e o negócio do agricultor e da agricultura. Assim foi neste ano, foi no anterior e será em 2017. Porém, nessa salada que está sendo preparada para o ano que vem, podem-se acrescentar dois novos componentes: a operação Lava-Jato, ilimitada em arrebanhar empresários e políticos, e um senhor chamado Donald Trump, que chega à Presidência dos Estados Unidos com um discurso considerado por muitos como assustador. A verdade é que se a Lava-Jato chegar ao coração do Governo Temer e Trump sacudir a política e a economia global, a agricultura brasileira vai sentir os reflexos, avalia o consultor Leonardo Sologuren, sóciodiretor da Horizon Company. Sobretudo porque o dólar – valorizado ou não – define muito por aqui.

A Granja — Quais as suas perspectivas para a economia brasileira como um todo em 2017? E que reflexos tudo isso terá direta e indiretamente no agronegócio brasileiro?

Leonardo Sologuren — A lambança política dos últimos dois anos, principalmente, sobretudo no ano passado, provocou consequências na nossa economia. Algumas negativas, outras positivas. Do lado negativo obviamente estávamos em uma economia em processo de recessão, o Brasil perdendo credibilidade lá fora, o crédito ficou bastante restrito, e teve reflexos no agronegócio. Isso de certa forma trouxe um cenário de insegurança. Por outro lado, causou um processo de desvalorização cambial, o que causou um efeito positivo, principalmente sobre soja e milho. Em soja, principalmente, que é um produto dolarizado.

Lá fora, os preços da soja no mercado internacional estavam muito baixos, e a desvalorização cambial acabou compensando esta queda dos preços de Chicago, e a desvalorização trouxe os preços para patamares históricos, o que ajudou a se ganhar fôlego no mercado. Vou fazer um parâmetro. Se no auge da crise política, quando a Dilma estava no Governo, se o dólar estivesse em torno de R$ 2,40 ou algo assim, possivelmente a soja estaria em R$ 40 (a saca). A soja a R$ 40 em junho do ano passado traria sérias consequências de crise setorial. Então, não aconteceu em razão da desvalorização cambial. No caso do milho, o preço acabou sendo corrigido por conta da paridade da exportação. Batemos recorde de exportações. Neste ano teve quebra de safra e, consequentemente, acabou ocasionando um cenário de preços elevados. Obviamente teve a consequência ruim. Os custos acabaram elevados, pois uma parte importante dos custos é dolarizada, principalmente os fertilizantes. Houve o aumento dos preços da soja acompanhado do aumento dos custos de produção.

Na sequencia, quando a Dilma acabou caindo, e houve, entre aspas, uma melhora na credibilidade do Brasil, houve cenário de retrocesso da taxa de câmbio, e o preço da soja não caiu exatamente na mesma proporção porque nos Estados Unidos o preço acabou dando uma recuperada. Nada muito significativo, mas saiu de US$ 8,50 (o bushel) para US$ 9,50 e, em alguns casos, a US$ 10 na Bolsa de Chicago. E também foi um cenário interessante. Quando olhamos os preços médios, tanto de soja como de milho, ainda temos patamares bastante interessantes. Para este ano, o volume de crédito aumentou até o momento, apesar de estarmos em uma carteira mais concentrada. No caso do milho, o volume aumentou, mas o número de contratos liberados reduziuse. Os bancos estão emprestando mais dinheiro, mas para menos produtores.

Em relação à soja, o volume cresceu, mas a carteira não cresceu na mesma proporção, resultado de quebra de safra em alguns locais, como no caso do Nordeste, por exemplo. O clima de certa forma teve impacto negativo nesse sentido sobre a safra brasileira. Estamos em um cenário político melhor em relação ao que estávamos no ano passado e isso traz um reflexo direto sobre a taxa de câmbio. Obviamente que a taxa de câmbio não tem um reflexo só sobre a macroeconomia brasileira, ela tem um reflexo lá de fora.

A Granja — Quais as consequências para o agronegócio brasileiro da eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos? Ele promete uma política mais protecionista...

Sologuren — Antes da eleição do Trump, qual cenário tínhamos? Estávamos passando por um reflexo de valorização cambial. Saímos de um cenário de R$ 3,80 (ao dólar) e chegamos a R$ 3,20, e obviamente teve impacto sobre os preços. Isso estava ligado diretamente a um aumento ou não ao aumento da taxa de juros nos Estados Unidos. Se houvesse um aumento da taxa nos Estados Unidos, possivelmente teríamos uma desvalorização do câmbio. Como o cenário internacional também não está às mil maravilhas, os Estados Unidos devem crescer 1,6% neste ano, os países emergentes crescendo a taxas baixas, principalmente o Brasil e a Rússia, que estão claramente em recessão, a Europa cresce um pouco mais, mas o Brexit, a saída do Reino Unido da Zona do Euro, trouxe uma certa insegurança, e o Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, está postergando um pouco o aumento da taxa de juros.

Depois o cenário inverte-se com o Trump ganhando as eleições. A vitória dele trouxe uma certa insegurança ao mercado, tensão no mercado, mas acho que daqui a pouco o mercado se acalma. Primeiro porque o Trump não vai conseguir fazer nada de imediato. Muita coisa que ele dizia que faria a gente sabe que era jogo político. Então, é a mesma coisa: o dia que o Reino Unido avisou que sairia da Zona do Euro o dólar disparou, as bolsas caíram e depois se viu que os efeitos eram um pouco menores. É difícil dizer ainda o quanto que o Trump vai fazer do que está dizendo. Sabemos que tem determinadas coisas que são complicadas. Não é possível que ele seja tão louco de começar a querer, por exemplo, romper toda relação comercial com a China. Ele tem pessoas muito inteligentes por baixo. O risco diplomático disso seria gigantesco. Na verdade, hoje, qualquer colapso na China teria reflexo diretamente na economia norte-americana. Falar que a economia americana vai se fechar mais vai completamente contra a ideologia da forma como o país foi construído. Então, tem certa instabilidade agora, mas acho que os mercados devem se acalmar. Por outro lado, isso acabou voltando a puxar um pouco o preço da soja.

A Granja — E quais os reflexos que a política poderá provocar no agronegócio? A operação Lava Jato pode atingir em cheio o Governo Temer...

Sologuren — Acho que o maior risco que temos agora é a Lava-Jato daqui a pouco começar a incriminar o Temer. Se chegar a esse nível, vai causar instabilidade política. Tem analistas políticos dizendo, por exemplo, que não sabem se o Temer chega ao final do Governo. Se chegarmos a esse nível, então de novo entramos em um processo de crise política. Esse é o maior risco nosso hoje: até onde a Lava-Jato vai. Como a gente sabe que não for 100%, 90% dos políticos estão envolvidos, eu diria que esee é o maior risco que vivemos. Uma crise política iria provocar uma nova desvalorização na taxa de câmbio, a soja iria subir, mas teríamos uma instabilidade, que é muito ruim para o mercado. O produtor retrai-se, vai deixar de investir porque não confia mais no País, o crédito vai fechar... Então, temos desafios ainda.

A Granja — E quanto à economia brasileira em 2017?

Sologuren — Do ponto de vista econômico, sabemos que, para o Brasil voltar a crescer de fato, precisamos fazer a lição de casa, o ajuste fiscal é importante de todas as formas. Se estamos gastando mais do que ganhamos, de fato, precisamos economizar. E o Governo está muito inchado, todo mundo sabe Por outro lado, temos que investir, e para investir é preciso baixar taxa de juros. Então, o Governo tem um desafio gigantesco pela frente. No caso do agronegócio, o Brasil anda à mercê porque somos um País exportador. Dependemos muito mais da demanda do lado externo do que das decisões internas. Obviamente que o investimento nos afeta porque se não se investe em infraestrutura temos gargalo de exportação.

Mas o nosso mercado é muito mais demandado. Então, há mais reflexos dos cenários externos do que do interno. Tanto é verdade que, no ano passado, o Brasil em recessão, a agricultura foi o único setor que de fato teve um crescimento positivo. Então, precisamos ficar de olho na China, que é o nosso maior demandador, pois hoje mais de 50% do que a gente exporta vai para a China. E nesse caso específico a China está em um processo de desaceleração. Hoje a China cresce em torno de 6,5%. Apesar de causar certo nervosismo no mercado, a gente vê que esse processo de desaceleração nesse patamar ainda não tem ocasionado queda de commodities.

Então, ano a ano a China vem batendo recorde de importação de soja. Na safra 2016/17, deve importar 86 milhões de toneladas. Então, a minha maior preocupação é se o Trump fizer uma besteira que ocasione algum nervosismo dentro do mercado chinês. De novo: a China virou um país tão grande, tão importante do ponto de vista global, que eu acho difícil o Trump peitar a China, o que teria reflexo direto no mercado dele, sem dúvida nenhuma.

A Granja — Ele já mudou o discurso entre a campanha e as primeiras manifestações após a eleição.

Sologuren — É, ele já mudou um monte de coisa. Ficou claro que o que ele estava fazendo era muito mais um jogo político ou política para ganhar votos, porque ele sabe que tem coisas ali que são impraticáveis. Do ponto de vista do agronegócio dependemos muito da China. E apesar de o país estar em um cenário de desaceleração econômica ainda não tem reduzido a demanda por commodities, o que é bom para a gente. Do ponto de vista de câmbio, dependemos de uma conjunção de mercado interno versus mercado externo. Do ponto de vista de mercado interno, ganhamos certa credibilidade com a mudança de Governo. Temos uma taxa de juros extremamente elevada, que atrai capital especulativo, e estamos fazendo superávit em balança comercial.

Então, em tese, tudo ocasionaria pressão na taxa de câmbio. Mas quando você olha a projeção, por exemplo, do Banco Central, ela fala que, ao final do ano que vem, a taxa de câmbio estará maior do que está. Por quê? Porque o mercado aposta que possivelmente os Estados Unidos teriam uma elevação na taxa de juros. Por outro lado seria bom do ponto de vista de commodities. Primeiramente porque precisamos melhorar o nosso déficit em conta corrente, que é ainda negativo, e uma forma seria melhorando o superávit comercial. Então, isso nos traz um cenário positivo.

A Granja — E em relação especificamente ao mercado agrícola?

Sologuren — Em relação ao mercado agrícola, tem pressão sobre as commodities porque estamos passando por um processo de supersafra no mundo. A expectativa é os Estados Unidos produzirem mais de 380 milhões de toneladas de milho, e mais de 118 milhões de toneladas de soja. E o Brasil deve ter crescimento. Então, haverá pressão sobre os preços das commodities. Nesse ponto, é importante estarmos em um processo de desvalorização cambial, porque vai manter o preço da soja em um patamar elevado. Caso contrário, poderíamos entrar em um ciclo de crise setorial, e a soja caindo em um patamar significativo. O cenário é mais ou menos este hoje do ponto de vista global.