Agricultura Familiar

 

MINHOCAS: fertilizante natural e ainda geradora de renda

Engenheiro agrônomo Silvio Levy Franco Araújo, analista de Transferência de Tecnologia da Embrapa Amazônia Oriental, e Bievenildo Salviano de Brito Silva, estagiário da Embrapa Roraima, [email protected] e [email protected]

Conhecida como minhocultura ou vermicompostagem, essa atividade do sistema de produção ecológica gera produto e subproduto de qualidade para as propriedades familiares, como matrizes de minhocas, húmus e húmus líquido. Pertencente à família dos anelídeos, as minhocas vivem em média três anos, acasalando-se de sete em sete dias, dependendo das condições ambientais (temperatura e umidade). Após a maturidade sexual (formação de clitelo), alcançada em até 90 dias de vida, inicia-se a reprodução, com geração de cápsula (ooteca), que pode conter entre duas e dez minhocas, com tempo de incubação de até 21 dias e aparência de minhoca adulta em aproximadamente 30 dias (Emater/RJ, 1995; Embrapa Clima Temperado, 2006).

Desprovidos de pulmões, os anelídeos possuem respiração cutânea, ou seja, respiram pela pele, retirando o oxigênio do ar e exalando CO2, motivo pelo qual seus corpos mantêm-se sempre úmidos. Cegos e surdos, são fotofóbicos, isto é, tem medo de luz, que pode ser fatal por causa dos raios ultravioletas, sendo compensados pelo excelente olfato e tato. Esses vermes possuem, em sua composição, uma boa concentração de proteínas, quase 70%, além de vitaminas, sais minerais, carboidratos, lipídios (gorduras), nitrogênio, cálcio, fósforo, magnésio, ferro, sódio, potássio, niacina, riboflavina, tiamina, vitamina B12, etc. São utilizados na alimentação animal e com tratamento especial na alimentação humana (Emater/RJ, 1995).

Detentores de moela como as aves, esses anelídeos consomem por dia uma quantidade de alimento equivalente ao seu próprio peso, excretando em forma de húmus aproximadamente 60% como resíduo. A alimentação mais comum é o esterco bovino, podendo utilizar também estercos de ovinos, caprinos, equinos, aves, etc., além de composto orgânico, tudo pré-curado. Outra fonte de alimentação são os restos de frutas e verduras. A diferenciação na alimentação promove o aumento na produção de húmus ou na reprodução das minhocas. A alimentação rica em estercos acelera a produção de húmus, enquanto a rica em frutas e verduras, a produção de matrizes. É importante lembrar de não se utilizar material vegetal fresco, ou esterco verde, que ainda vai passar pelo processo de fermentação, pois poderá ocorrer grande mortandade de minhocas. As minhocas criadas comercialmente no Brasil são a Eisenia foetida, também conhecida como vermelha- da-califórnia, e a Eudrilus eugeniae, noturna africana ou minhoca do esterco.

A minhocultura possui diversas aplicações, desde a grande concentração de microrganismos, no húmus, que auxiliam na liberação de nutrientes e hormônios vegetais que contribuem para o crescimento das plantas, além do húmus líquido, quando as matrizes reprodutoras são usadas para iscas.

Técnicas de criação e manejo — O local para construção do minhocário deve ser sombreado, levemente inclinado, próximo à água, à fonte de alimentação e ao mercado consumidor. O sistema deve ser bem drenado, para não promover a mortandade das minhocas por asfixia/afogamento, e se possível com piso impermeável e recipiente para coleta de excesso de resíduos líquidos. A impermeabilização do piso também evitar fuga das minhocas e infestação de sanguessuga. Os tipos de construção são diversos: caixas de madeiras, tonéis de polietileno, tijolo, caixa d’água, etc. A altura média da massa alimentar é 40 centímetros para facilitar a manutenção. (Embrapa Agrobiologia, 2004).

Para se manejar um minhocário, devese considerar a proporção de 1.500 minhocas/ metro quadrado. Essa proporção promove a geração de 100% de húmus em 30 dias, considerando que elas consomem seu peso vivo por dia em alimentos, e descartam aproximadamente 60% do consumido em forma de húmus. Para que esse processo ocorra, devem-se selecionar minhocas adultas. Outro ponto a considerar é um ambiente adequado, com temperaturas entre 20°C e 25°C, umidade de 70% a 85%, pH 7 e boa aeração e drenagem do meio (que não deve ser compactado e nem encharcado). Esses fatores são importantes para o desenvolvimento e reprodução das minhocas (Embrapa Clima Temperado, 2006). Outro ponto é a presença, à noite, de uma lâmpada sobre os canteiros, principalmente, no cultivo da Eudrilus eugeniae, que costuma se movimentar muito à noite, inclusive fugindo dos canteiros.

Araújo (foto) e Silva: investimento para iniciar o cultivo de minhocas é relativamente baixo, considerando que a maior parte dos recursos necessários vem da própria propriedade

A criação deve ser protegida por telas para evitar ataques de pássaros, lagartos, ratos, galinhas, além de controlar formigas, sanguessugas, etc. Caso esse procedimento não seja atendido, pode acorrer redução na população das minhocas, prejudicando o processo de criação.

A separação e captura pode ser manual, por coleta nos canteiros, usando isca (esterco curtido), com saco de ráfia, malha ou peneiras. Coloca-se a isca no canteiro no final da tarde e cobre-se para escurecer o ambiente. A captura é feita entre dois ou três dias depois, de manhã bem cedo. Outra forma é deixar de molhar o espaço já umificado, colocando alimento fresco ao lado, para que as minhocas migrem. E 15 dias depois a maioria das minhocas já migrou, e então retira-se os húmus não molhado.

Comercialização — A minhocultura atende mercados de iscas vivas, de alimentação para pequenos animais e da área de jardinagem, paisagismo e agricultura, com a produção de húmus (Sebrae, 2011). A comercialização pode ser de três maneiras:

1) como húmus, possuindo validade de até seis meses, desde que bem guardado e umidificado. A partir do terceiro mês de armazenamento, o húmus atinge sua melhor fase química, devido à ação dos microrganismos, reduzindo a partir do sexto mês (Embrapa Agrobiologia, 2011);

2) biomassa (minhocas), como matrizes para reprodução, para alimentação animal, indústria farmacêutica e de suplementação esportiva (pesca) (Embrapa Agro-biologia, 2004);

3) como húmus líquido, e nesse caso recomenda-se diluir um quilo de húmus para dez litros de água, agitando diariamente por até sete dias. (Embrapa Clima Temperado, 2006). Após filtrar, é só embalar e aplicar.

O investimento para se iniciar o cultivo de minhocas é relativamente baixo, desde que a estrutura não seja feita em alvenaria, considerando que a maior parte dos recursos necessários vem da própria propriedade (madeira, palha, esterco, composto). As matrizes custam em média R$ 100/litro. O recipiente que vai conter as matrizes pode ser de madeira, impermeabilizado por lona plástica escura, acima de 100 micra, que custa entre R$ 0,50 a 0,80 o metro quadrado. Mangueira de irrigação de meia polegada, com 100 metros, custo de R$ 0,80 a R$ 1,20 por metro quadrado. Os recipientes plásticos de 50 litros para o húmus líquido custam entre R$ 50 e R$ 70.