Etanol

 

ETANOL: possibilidades a partir do milho

O cereal pode representar alternativa para a fabricação do biocombustível em estados onde há excedentes de produção e durante a entressafra da cana-de-açúcar. Sorgo sacarino também é uma possibilidade

Denise Saueressig
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OBrasil é tradicional produtor de etanol a partir da cana-de-açúcar, mas é cada vez mais presente o debate sobre as possibilidades da utilização do milho para a fabricação do biocombustível. A vocação agrícola do País e a demanda global pela redução do uso de fontes fósseis já seriam motivos suficientes para incentivar pesquisas e investimentos na área. Porém, o mercado do milho, caracterizado por dificuldades de escoamento e por grandes variações de preços entre regiões, oferece ainda mais subsídios para o avanço do tema. “Precisamos importar gasolina, mas temos excedente do cereal para exportação. É difícil pensar que um caminhão precisa transportar gasolina dos portos até Sinop/MT, enquanto lá poderíamos estar produzindo o etanol de milho”, ressalta o vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) e presidente da Câmara Setorial da Soja, Glauber Silveira, também colunista d’A Granja.

Historicamente, os produtores de Mato Grosso – estado que mais cultiva milho no Brasil – recebem pelo grão, em média, 40% menos em comparação com os produtores de São Paulo, por exemplo. Em meados de 2010, enquanto a saca valia em torno de R$ 8 no estado do Centro-Oeste, os produtores paulistas recebiam cerca de R$ 20. Este ano, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), registram preços em torno de R$ 31 e R$ 42 a saca, respectivamente.

No Mato Grosso, das dez usinas associadas do Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras (Sindalcool/MT), três atuam com estruturas flex, ou seja, têm condições para processar tanto o milho quanto a cana. As plantas processam em torno de 375 mil toneladas do cereal por ano, o que resulta em cerca de 150 milhões de litros do biocombustível. Também no Centro-Oeste, o estado de Goiás tem usinas com produção flex. Silveira acredita que essa operação tem potencial para um rápido crescimento nos próximos anos. “Se as questões mercadológicas forem aprimoradas, podemos projetar que, daqui a cinco anos, em torno de 5 milhões de toneladas do grão sejam utilizadas pelas usinas em Mato Grosso”, destaca.

Glauber Silveira: se as questões mercadológicas forem aprimoradas, em torno de 5 milhões de toneladas do cereal podem ser processadas pelas usinas do MT nos próximos cinco anos

Na safra 2015/2016, mesmo com as perdas provocadas pela estiagem, a safra nacional de milho foi de quase 67 milhões de toneladas, sendo que o consumo interno é calculado em cerca de 56 milhões de toneladas. Para 2016/ 2017, a produção brasileira é estimada entre 82 milhões e 85 milhões de toneladas e, as exportações, em cerca de 25 milhões de toneladas. “A gestão do mercado do milho precisa ser trabalhada de uma maneira mais eficiente, porque existe um problema comercial. O grão é exportado porque internamente há poucos contratos firmados anteriormente pelas empresas que precisam do cereal para ração”, considera o dirigente.

Além de estimular o mercado em regiões onde os produtores recebem menos pelo cereal, o etanol de milho também pode ajudar a reduzir os preços do combustível ao consumidor final, já que atualmente os valores sobem na época da entressafra da cana e a opção nos postos acaba sendo pela gasolina. Para o analista Paulo Molinari, de Safras & Mercado, o Brasil reúne as condições necessárias para desenvolver a produção do etanol a partir do cereal. “O milho é uma cultura de giro rápido, que ajuda o produtor e a microeconomia regional. Pode ser estocado e, portanto, é administrável para as usinas”, sustenta.

Estudo de viabilidade — Na safra 2015/2016, segundo o Imea, a colheita em Mato Grosso foi de 18,9 milhões de toneladas, bem abaixo das 26,2 milhões de toneladas de 2014/2015. A perda fez com que os preços disparassem ao longo deste ano, fato que, no entanto, não deve ser um impeditivo para possíveis investimentos de usinas. “As cotações deste ano foram anormais, mas de qualquer forma, essas empresas trabalham com planejamento de compras”, afirma Silveira.

Estudo realizado pelo Imea em parceria com a Aprosoja/MT e o Sindalcool revela que o preço de equilíbrio da saca para as usinas varia de R$ 25 a R$ 35, considerando os valores pagos pelo etanol e o tamanho do empreendimento. No trabalho apresentado durante o 1º Congresso de Bioenergia de Mato Grosso, realizado em setembro, em Cuiabá, o superintendente do Imea, Daniel Latorraca Ferreira, detalhou as possibilidades que existem para o fomento dos negócios envolvendo o etanol de milho, que tem rendimento entre 380 e 420 litros a cada tonelada processada. “Analisamos a cadeia sob a ótica dos arranjos que podem ser estabelecidos de forma sustentável”, diz.

Entre os aspectos positivos está o volume de produção e a constatação de que mais de 80% do cereal produzido têm como destino outros estados e o mercado internacional. A projeção é de que em 2025, Mato Grosso possa colher 38 milhões de toneladas do grão. “É muito importante lembrar que também existe mercado para o DDG”, menciona, referindo-se ao subproduto gerado a partir dos grãos secos de destilaria, (dried distillers grains), que servem como farelo para a ração de animais.

A logística está entre os principais desafios para o desenvolvimento do mercado, já que parte do etanol é comercializada em outros estados. Uma das formas de facilitar o escoamento para a Região Sudeste poderia ser via expansão da obra do etanolduto até Mato Grosso. Outra ressalva está relacionada ao cultivo do eucalipto para o fornecimento de energia por meio da biomassa. Os números totais do estado indicam que a área plantada, de 176,1 mil hectares, é superior à demanda, que é de 155 mil hectares. No entanto, em algumas regiões, como Médio-Norte, Norte e Nordeste, há déficit nessa relação. O vice-presidente da Abramilho, Glauber Silveira, também salienta a importância da criação de políticas públicas consistentes que reduzam os entraves burocráticos e estimulem os investimentos do setor bioenergético.


ETANOL DA CANA

A produção de etanol no Brasil no ciclo 2016/2017 é estimada em 27,8 bilhões de litros, sendo que o etanol anidro, utilizado na mistura com a gasolina, é calculado em 11,49 bilhões de litros. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta a safra 2016/2017 de cana em 684,77 milhões de toneladas, um incremento de 2,9% em relação ao período anterior. A área a ser colhida deverá ser de 8,97 milhões de hectares, o que representa um aumento de 3,7% sobre a temporada passada.


Daniel Latorraca Ferreira: um dos pontos fortes da cadeia do etanol do milho é a possibilidade de destinar o DDG para a alimentação de suínos, aves e bovinos

Investimento em usina full — A primeira usina voltada exclusivamente à produção de etanol a partir do milho deverá entrar em funcionamento em junho de 2017 em Mato Grosso. A planta da FS Bioenergia é resultado de parceria entre a brasileira Fiagril e o grupo americano Summit Agricultural. A fábrica que está em construção em Lucas do Rio Verde demandou aporte de aproximadamente R$ 400 milhões e terá capacidade para processar entre 500 mil e 600 mil toneladas do cereal por ano. No início da operação, a indústria será responsável pela geração de 110 empregos diretos.


MILHO NO MATO GROSSO

? Maior produtor de milho do País
? Projeção de 38 milhões de toneladas em 2025
? Mais de 80% da safra destinada a outros estados e exportação
? 3 usinas flex
? Usina full de milho em 2017
? Logística, oferta de eucalipto para energia e políticas públicas são desafios


A produção de etanol é estimada entre 210 milhões e 220 milhões de litros anuais e a geração do DDG é calculada em 150 mil toneladas. “Desse total, 50 mil toneladas serão de alto teor proteico, com potencial para abastecer criações de aves e suínos”, explica o diretor executivo da FS Bioenergia, Rafael Abud. As outras 100 mil toneladas de alta fibra serão aproveitadas na alimentação de bovinos. “Todo o subproduto terá como destino empreendimentos no entorno de Lucas do Rio Verde e em outras regiões do estado”, relata. A nova indústria também vai fabricar 6 mil toneladas de óleo de milho por ano. Segundo Abud, a planta está preparada para ter toda a sua capacidade duplicada, o que poderá ocorrer a partir da análise do comportamento do mercado.

A inauguração está prevista para ocorrer na época da colheita da segunda safra do milho em Mato Grosso, e a empresa está preparada para funcionar durante todos os meses do ano. “Estamos começando a negociar a aquisição do grão diretamente com produtores, tradings e cooperativas”, declara o executivo.

Alternativa com o sorgo — O sorgo sacarino é outro cereal que pode representar uma alternativa interessante para a fabricação do etanol. A Embrapa investe em pesquisas com o produto há bastante tempo e, mais recentemente, desenvolveu híbridos que surpreenderam pela interessante produção de biomassa e pela alta qualidade, revela o engenheiro agrônomo Rafael Parrella, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo. “Esses materiais são projetados para que tenham viabilidade econômica e são especificamente voltados ao etanol”, assinala.

O trabalho de melhoramento do sorgo sacarino é acompanhado de estudos que envolvem os diferentes ambientes de cultivo com adaptação a áreas tradicionalmente ocupadas por canaviais. “Fizemos ajustes aos sistemas de produção, incluindo, por exemplo, fatores como a colheita para que as usinas possam aproveitar as mesmas máquinas utilizadas nos processos da cana”, detalha Parrella.

Segundo o especialista, o plantio do sorgo sacarino ocorre em novembro, enquanto a colheita é realizada entre fevereiro e março, durante a entressafra da cana. “O sorgo pode complementar as demandas do setor sucroenergético e também possibilita o uso do bagaço para a cogeração de energia. Outra vantagem é que o processamento é feito no mesmo parque industrial da cana, sem a necessidade de outros equipamentos, apenas pequenos ajustes na moenda”, observa.

Na próxima safra, está previsto o cultivo de materiais desenvolvidos pela Embrapa em estados como Goiás, Mato Grosso e Bahia, em áreas próximas a usinas. No ano passado, por meio de parcerias, os híbridos passaram por testes em dez localidades de diferentes regiões do País. Em situações de clima favorável e de manejo adequado, a produtividade do sorgo sacarino pode chegar a 3,5 mil litros de etanol por hectare em um ciclo de cerca de 120 dias. Já a cana tem rendimento médio de 6 mil litros por hectare para um ciclo de 12 ou 18 meses.

Processamento do sorgo sacarino pode ser realizado no mesmo parque industrial da cana, sem necessidade de outros equipamentos, apenas pequenos ajustes na moenda

A planta do sorgo sacarino pode atingir entre 4 e 5 metros de altura e contém caldo e açúcar no colmo. O sorgo granífero tem porte mais baixo, em torno de 1,20 metro, e é destinado à produção de grãos. Já a planta do sorgo forrageiro, voltado à produção de silagem, tem porte entre 2,5 e 3 metros. “Um agricultor que cultiva o sorgo granífero também pode trabalhar com o sacarino, o que significa uma alternativa interessante para o futuro dessa produção. Uma das características interessantes do sorgo é a grande rusticidade da planta, com maior tolerância a veranicos em comparação com o milho”, descreve Parrella.

Recorde norte-americano — Os Estados Unidos são a grande referência mundial de fabricação do etanol a partir do milho. A produção norte-americana existe desde a década de 1970, mas o grande salto foi percebido a partir do ano 2000. Da safra de 382 milhões de toneladas estimadas para o cereal em 2016/2017, 134 milhões de toneladas deverão ter como destino a elaboração do biocombustível. “Esse volume cresce a cada ano, e a produção no ciclo 2015/2016 deverá fechar perto de 14,9 bilhões de galões, o que será um novo recorde”, informa o analista Paulo Molinari, da Safras & Mercado. Em litros, a produção norte-americana deverá ficar próxima dos 56 bilhões.

Como se trata da mudança na estrutura de consumo de uma commodity, é natural que sejam percebidos impactos sobre o mercado. “O país é o maior exportador mundial de milho, e o quadro gerou mudanças nos fatores formadores de preços e na competição internacional. Em situações mais ajustadas de oferta e demanda, o alto consumo para etanol ajudou os preços a alcançarem novos níveis recordes”, conclui o analista. Porém, acrescenta Molinari, sem o impulso do etanol, talvez a produção de milho também não apresentasse fôlego para crescimentos tão importantes nos últimos anos.