Armazenagem

 

Grãos guardados com o ZELO que merecem

Como devem ser os procedimentos técnicos e operacionais com a produção armazenada no silo. Limpeza, secagem, controle de umidade e temperatura, expurgo de pragas, uso de raticidas e muito mais

Prof. Dr. Moacir Cardoso Elias, Prof. Dr. Nathan Levien Vanier e Prof. Dr. Maurício de Oliveira, do Laboratório de Pós-Colheita, Industrialização e Qualidade de Grãos Labgrãos, Universidade Federal de Pelotas, [email protected]

Produção, armazenamento, agroindustrialização e distribuição constituem os principais componentes da cadeia produtiva do agronegócio, os quais têm efeitos decisivos nos preços dos alimentos, principalmente de grãos. Os avanços verificados na produção, lamentavelmente, não são acompanhados pelo que se verifica na pós-colheita. E os conceitos modernos de produção não prescindem de uma forte aliança entre quantidade e qualidade, pois pode haver comprometimento da qualidade nutritiva e da segurança sanitária se não forem adotados procedimentos adequados. Cada vez adquire maior importância o gerenciamento operacional da qualidade dos grãos. Dentre os fatores que influenciam sua qualidade, há destaques para características varietais, condições de desenvolvimento da cultura, manejo e condições edafoclimáticas, época e condição de colheita, método e sistema de secagem e sistema de armazenamento e manejo tecnológico da conservação.

Nos parâmetros de qualidade é importante que os grãos apresentem umidade uniforme e relativamente baixa, pequena percentagem de impurezas e/ou materiais estranhos, de grãos quebrados e de defeitos, baixa suscetibilidade à quebra, alto peso específico, boa conservabilidade, baixos índices de contaminação por microrganismos, ausência de micotoxinas e alto valor nutricional. Armazenamento é uma área relativamente nova como conhecimento e prática, mas que tem se caracterizado como gargalo na evolução da cadeia produtiva de grãos. Se bem projetado, instalado e operado, o armazenamento a granel permite elevados desempenhos técnicos de conservabilidade.

Como os silos apresentam comportamento semi-hermético, há necessidade, no mínimo, do uso de ventilação forçada, a aeração, para reduzir e uniformizar a temperatura dos grãos, visando controlar o metabolismo deles próprios e dos organismos associados. Sempre que possível, é recomendável o uso de resfriamento no armazenamento de grãos em silos, da mesma forma que essa técnica é recomendável para sementes. Secagem e aeração, com ar natural ou resfriamento controlado, necessitam seguir rígidos preceitos de engenharia, e em engenharia quem improvisa geralmente se dá mal.

A qualidade dos grãos durante o armazenamento deve ser preservada ao máximo, em vista da ocorrência de alterações químicas, bioquímicas, físicas, microbiológicas e da ação de seres não microbianos a que estão sujeitos. A velocidade e a intensidade desses processos dependem da qualidade intrínseca dos grãos, do sistema de armazenagem utilizado e dos fatores ambientais durante a estocagem. A boa conservação de grãos começa na lavoura. À medida que passa o tempo após a maturação, diminui a resistência dos grãos ao ataque das pragas e dos microrganismos. A colheita deve, portanto, ser realizada no momento próprio e de forma adequada, pois o retardamento e as danificações mecânicas podem determinar que sejam colhidos grãos com qualidade já comprometida ou com pré-disposição para grandes perdas durante o armazenamento.

Os grãos devem ser colhidos preferencialmente com umidade entre 18% e 24%, dependendo da espécie e do genótipo (variedade ou híbrido), do sistema de colheita e de secagem, com regulagem correta de máquinas e equipamentos. No transporte, entre a lavoura e a unidade armazenadora, deve ser evitada exposição prolongada dos grãos ao sol, assim como não se deve mantêlos abafados sob a lona do caminhão ou outro transportador, antes de ser submetido à pré-limpeza e à secagem. E, principalmente, devem ser evitadas grandes filas de espera e/ou longos tempos de carga. Para algumas espécies, como arroz, feijão e trigo, os grãos de cada variedade devem ser recebidos separadamente e assim mantidos, para não prejudicar o beneficiamento industrial. Nessas espécies, e em outras como milho, trigo e soja, a segregação dos grãos na recepção deve levar em consideração a estrutura operacional e os parâmetros de qualidade dos grãos.

Importância da secagem — A secagem deve ser efetuada tão logo seja realizada a colheita ou, no máximo, até o dia seguinte. Não sendo possível, é importante pré-limpar, aerar e/ou pré-secar os grãos, mantendo-os em aeração constante ou com resfriamento até a secagem, de modo a reduzir o metabolismo dos próprios grãos e dos organismos associados. Grãos não devem permanecer úmidos na moega, sem aeração ou resfriamento, por período superior a 12/24 horas, para não comprometer a conservabilidade e reduzir a incidência de defeitos metabólicos, que se intensificam ao longo do armazenamento. Se o sistema de secagem for o contínuo, bastante utilizado para milho, soja e trigo, é importante regular o fluxo dos grãos no secador, bem como as temperaturas do ar e dos grãos.

Se o sistema for o intermitente, bastante utilizado para arroz, aveia e café, mas que poder ser utilizado também para outras espécies, sempre é preferível usar temperaturas crescentes, desde que sem choque térmico e sem superaquecimento dos grãos. Fica em geral em 40ºC o limite de temperatura da massa no final da operação de secagem, sendo maior a segurança operacional com valores de 37º/38ºC durante o processo. Devem-se evitar aumentos e/ou reduções bruscas de temperatura do ar durante a secagem. Se o processo de secagem for o estacionário, bastante usado para feijão e para outras espécies de grãos na propriedade, realizado no próprio silo, deve haver controle da umidade relativa e da temperatuta do ar de entrada, juntamente com a temperatura dos grãos. Isso é necessário para se reduzir a desuniformidade de secagem e não haver muita quebra nos grãos, o que acaba diminuindo sua conservabilidade no armazenamento.

Como os silos apresentam comportamento semi-hermético, há necessidade, no mínimo, do uso de ventilação forçada, a aeração, para reduzir e uniformizar a temperatura dos grãos

Mesmo que seja arroz para parboilização, deve ser evitada secagem em condições drásticas, com danos e choques térmicos, para não favorecer a intensificação dos defeitos de origem metabólica durante o armazenamento. Parboilização não é “emendadeira” de arroz como alguns pensavam. Esse conceito é completamente ultrapassado. Boas condições de higiene e os controles dos ataques de insetos e de roedores são também decisivos na conservação da qualidade dos grãos, devendo haver um bom programa de manejo fitossanitário, incluindo o manejo integrado de pragas. Afinal, o grande uso dos grãos é como alimento, que a maioria da população consome. Isso exige consciência social, bom conhecimento e muitos cuidados na preservação de seu valor nutritivo e de sua sanidade.

Limpeza do ambiente — Boas condições de higiene e sanidade em silos e armazéns são fundamentais para a conservabilidade dos grãos. Aparecendo pragas, qualquer que seja a população, deve ser realizado expurgo de acordo com o Receituário Agronômico e sob a orientação, supervisão e responsabilidade técnica do engenheiro agrônomo que emitir a receita, considerando as prescrições. Em grãos armazenados que se destinem à alimentação humana, por exigências legais e pelos riscos de desenvolvimento de fungos produtores de micotoxinas, principalmente, a partir do ataque de insetos e/ou de ácaros, deve haver ainda mais cuidados.

Igualmente importante é o controle de ratos, para o qual devem ser colocados raticidas ao redor do armazém, sendo calafetados todos os buracos e fendas, assim como vãos ou buracos entre telhas e paredes devem ser fechados com argamassa. Aberturas de aeração, entrada de condutores de eletricidade ou vãos de qualquer natureza devem ser vedados com tela metálica de malha inferior a 6 milímetros. Galhos de árvores próximas aos armazéns devem ser podados para se evitar que tenham contato com paredes e/ou telhado. Quando possível, fazer o fechamento de esgotos e canais efluentes ou limpeza de suas margens, utilizando-se tampas de ralos pesadas, sempre que estes tenham comunicação com a rede de esgoto cloacal ou pluvial.

No interior do armazém, fazer as pilhas de sacaria sobre estrados com 40 centímetros de altura e afastadas das paredes e umas das outras, por um espaço que permita a inspeção por todos os lados. Já no lado externo do armazém é importante manter uma faixa de cinco a dez metros livres de qualquer vegetação. Cerca de 90% das operações de controle de ratos no mundo usam raticidas anticoagulantes, devido à grande segurança de uso e a existência de um antídoto altamente confiável, a vitamina K1. Os raticidas anticoagulantes são de dose única (o roedor necessita ingerir apenas uma dose para que o efeito letal ocorra) ou dose múltipla (o roedor necessita ingerir várias doses para que o efeito letal ocorra). Nos raticidas anticoagulantes de dose única, a morte acontece em três a cinco dias, embora possa ocorrer até 14 dias após. Na prática, são recomendadas no mínimo duas aplicações com intervalos de oito dias.