Gestão

 

Por um horizonte promissor na sociedade entre IRMÃOS

A maioria dos fracassos na continuidade do patrimônio familiar ocorre, principalmente, na passagem da primeira para a segunda geração – onde, por vezes, há irmãos

Cilotér Borges Iribarrem, consultor em sucessão familiar e governança em empresas rurais, [email protected]

Sejam grandes, médias ou pequenas, as empresas familiares têm um papel significativo no desenvolvimento econômico, social e político do Brasil. A economia do País destacase no que diz respeito às empresas familiares, visto que 62% do PIB brasileiro provêm desstas empresas. Estas que só podem ser consideradas familiares após a sobrevivência por gerações. A sobrevivência ao longo dos anos é a maior preocupação dessas empresas, pois a maioria delas enfrenta problemas existenciais ou estratégicos.

Os números comprovam que muitas não conseguem sobreviver à passagem das gerações ou chegam lá com muita dificuldade. De cada 100 empresas familiares brasileiras, somente 30% chegam na segunda geração e apenas 5% na terceira. Entre as principais causas do fracasso familiar, 60% destacam-se pelo rompimento da comunicação e da perda de confiança, 25% pela preparação inadequada de seus sucessores ou herdeiros e somente 15% por razões técnicas ou conjunturais.

No setor rural não é diferente. O fracasso da continuidade da empresa rural e do negócio é um fator preocupante, principalmente se o processo de sucessão não for estruturado já logo na primeira geração, visto que o grande fracasso na continuidade do patrimônio em mãos de família dáse, principalmente, quando passa da primeira para a segunda geração.

Nas empresas familiares, os acordos estabelecidos hoje sobre quem manda e quem será mandado sem dúvidas evitam os desacordos de amanhã, pois a harmonia entre os integrantes de uma família empresária está diretamente ligada aos acertos na tomada de decisão. Dessa forma, a sociedade entre irmãos não pode ser estabelecida na informalidade. Na maioria dos casos, os sócios querem solucionar os problemas, mas não querem saber as causas. Por isso, é importante refletir sobre o seguinte na criação e ou manutenção da sociedade:

* Vocês querem continuar sendo sócios?
* Como vocês se imaginam como sócios?
* Vocês são sócios porque eram sucessores, irmãos ou não tiveram outra oportunidade de trabalho?

E algumas práticas, a seguir, são fundamentais para que a sociedade, assim como a empresa, perpetue:

* Comunicação. Tem?
* Prestação de contas. Fazem?
* Resolução dos conflitos. Fazem?
* Regras para trabalharem em sociedade. Tem?

Se as respostas acima não são positivas, por que continuam sócios?

Os danos da falta de comunicação — Buscar as soluções para essas questões vai garantir a transparência na administração e na continuidade do negócio, já que a falta de comunicação, por exemplo, resulta em desconfiança e rompimento. Em uma empresa familiar, os irmãos são mais irmãos que sócios e os primos são mais sócios que irmãos. O grande erro é que não foi planejado o processo de sucessão na primeira geração, pois é nessa transição que deveria ter sido criada a sociedade familiar empresarial entre pais e filhos, para que tanto a família como o patrimônio e o negócio não se confundissem e, com isso, tornem essa família uma família empresarial.

Não é uma situação simples, pois marca o início da fase de transição quando os fundadores passam a delegar as funções e dar mais autonomia aos futuros sucessores. E é neste momento que aparecem as resistências, o medo de ficar sem função dentro do negócio, além de inseguranças como, por exemplo, a insegurança financeira. Esses receios podem trazer sérias consequências para a empresa, pois se os fundadores não cuidarem da transição, previamente e de forma consciente, e por ventura algo acontecer, serão obrigados a fazê-la às pressas.

Sendo assim, realizar o processo de sucessão sem a presença ativa dos pais leva muitas empresas a falirem na segunda geração. Isso ocorre, principalmente, porque essa escolha de sócios não foi realizada livremente, e os herdeiros, independentemente de aptidão ou vontade, passam a ser sócios por necessidade, que é o que acontece na sociedade de irmãos, quando a estruturação do processo sucessório não ocorreu na primeira geração.

Não compreender que a relação entre a família, o patrimônio e o negócio tem enormes pontos de sombreamento e conflitos, certamente fará com que a empresa não sobreviva à segunda geração. Por isso, a preparação dos sucessores e o estabelecimento de regras são tão importantes. Existem soluções técnicas que permitem que esse processo de transição ocorra com harmonia familiar, crescimento econômico e sustentabilidade financeira do negócio e da empresa.

Caso o processo de sucessão não tenha sido estruturado na primeira geração e, para que se chegue na segunda geração, que é a sociedade de irmãos, precisam-se adotar previamente algumas regras para resolver os conflitos:

* fazer reuniões e estabelecer uma comunicação permanentemente;
* implantar um protocolo no qual estarão descritas todas as regras a serem seguidas;
* cobrar o cumprimento das regras;
* estabelecer claramente as funções operacionais de cada irmão, para que um não interfira na função do outro dentro da propriedade;
* definir a remuneração;
* os administradores necessitam prestar contas do negócio aos demais irmãos;
* criar um conselho com a participação dos irmãos;
* estabelecer um diálogo aberto e franco durante as reuniões.

Psicologia — É preciso salientar que as pessoas têm perfis psicológicos diferentes e, em um trabalho em que diversos membros da família estão envolvidos, essas características acabam sendo externadas mais facilmente e, quando não compreendidas, colaboram para o aumento dos conflitos. É muito difícil um irmão aceitar o outro de líder, ainda mais quando mistura família e negócio em sociedade. Por isso é necessário que se organize tecnicamente essa sociedade para que não briguem e não dividam o patrimônio, o que faz perder escala e, consequentemente, fará com que nenhum dos irmãos sócios consigam sobreviver do negócio e da empresa, e fará com que a mesma se extinga. Os conflitos não resolvidos provocam atitudes que dificultam as relações pessoais e tornam a comunicação muito difícil, condição essa que é necessária para trabalhar em equipe e ter sucesso na vida pessoal e empresarial.