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Tecnologia de elite na AGRICULTURA brasileira

O Brasil foi abençoado por Deus com recursos naturais invejáveis para sua agricultura: amplas áreas de terras agricultáveis, relevo facilitado à mecanização, clima que permite duas, três safras por ano no mesmo lugar, sol brilhante durante o ano todo. Mas tudo isso seria em vão não fosse a adoção de tecnologias e inovações, recursos esses pesquisados e desenvolvidos pelo homem e que fizeram do agronegócio brasileiro o colosso em produtividade e produção. Tecnologia, essa sim é uma bênção para a agricultura e, sobretudo, ao agricultor brasileiro

Leandro Mariani Mittmann
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Prezado agricultor brasileiro, na sequência estão algumas das razões pelas quais você é um produtor de ponta na agricultura mundial. Também porque o agronegócio brasileiro é tão exitoso e porque o planeta ainda espera muito das nossas lavouras nas próximas décadas para alimentar bilhões de seus habitantes – inclusive os que se juntarem aos que já estão aqui. Da mesma forma, produtor, está descrito muito do que você e, sobretudo, quem herdar seu negócio terão que incorporar ao processo produtivo para seguirem vivos na atividade. A seguir, uma síntese das tecnologias e inovações desenvolvidas para a agricultura brasileira que se pode desfrutar hoje, assim como perspectivas do que mais virá em breve ou em um futuro um pouco mais distante.

Uma semente com rigoroso aprimoramento genético embutido, inclusive com modificação no seu DNA, semeada por uma máquina que opera com tecnologias (e conforto) que lembram um carro de Fórmula 1 e pode ser guiada a partir de orientação de um satélite, depositada para germinar e crescer em um ambiente trabalhado com algumas técnicas exclusivas, que nem são utilizadas em outras partes do mundo (as tecnologias da agricultura tropical do Cerrado brasileiro), amparada para se desenvolver por insumos refinados pelas principais indústrias do mundo. Acrescente-se a colheita dos frutos dessa semente sendo monitorada pelo dono da lavoura no escritório – ou a milhares de quilômetros – via celular, com subsídios para saber o quadrante da lavoura que está produzindo mais ou menos. Eis o roteiro de uma lavoura de hoje na agricultura brasileira.

“Se formos comparar com o que aconteceu em três décadas, quando já estamos na era da agricultura de precisão, podemos dizer que, tecnologicamente, o campo virou do avesso”. A conclusão é de Coriolano Xavier, professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM e vice-presidente Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), e sintetiza o boom tecnológico que ocorreu nos últimos anos – sobretudo nos mais recentes. Ele exemplifica o rigor milimétrico das possibilidades da agricultura de precisão a uma campanha que participou nos anos 1980 – a Fique de Olho no Milho – em que uma das indicações sobre espaçamento da cultura mencionava a “medida de um palmo”. Conforme Xavier, agora, os grandes desafios estão em torno da sanidade, vegetal e animal, além de produtividade, qualidade e saudabilidade dos alimentos, proteção ao ambiente e competitividade em custos de produção. “A tendência, portanto, é que as tecnologias associadas a esses desafios sejam as mais proeminentes daqui para frente”.

A agricultura tem se submetido a evoluções drásticas e velozes nos anos recentes, assim como em outros setores da sociedade, é claro. Verdadeiras mudanças de patamares. “Parece que o agronegócio está vivendo uma nova onda de salto tecnológico e isso tem a ver com uma resposta da ciência ao acirramento da competitividade no agronegócio internacional”, considera Xavier. “Os desafios competitivos são imensos – do campo à mesa – e nunca a tecnologia foi tão importante para os produtores e outros elos da cadeia produtiva adaptarem suas ofertas aos novos tempos”. E para ele, as áreas de tecnologia que prometem grande impacto de resultado estão a genética e a tecnologia da informação, a automação dos sistemas de gestão.

Futuro: há um grande potencial dos drones para o levantamento de pragas e doenças e no monitoramento do desenvolvimento das lavouras, ainda que a novidade seja hoje incipiente no Brasil

O imenso universo dentro de uma semente — Quem é alheio à agricultura não imagina o volume e o refinamento de tecnologias embutido em uma – aparente – simples e comum semente. Tanto que os que estão mais familiarizados com o segmento da semente há muito a chamam de “chip” – um mecanismo repleto de informações com possibilidades de desempenhar muitas funções. Além de ser uma propagadora da espécie conforme os desígnios da natureza, a semente foi submetida a uma diversidade de melhoramentos, agregando características desejáveis para altas produções, além de ciclos e hábitos específicos (conforme região, altitude, latitude e assim por diante), e resistência a doenças e pragas. E, mais recentemente, a ciência ainda agregou à semente os avanços da modificação genética, cuja realidade já se mostrou extraordinária e de horizonte promissor e ilimitado.

E esse arsenal tecnológico está disponibilizado ao produtor brasileiro ao mesmo tempo em que chega ao seu colega americano ou europeu. “Somos um dos países com a melhor tecnologia para produzir sementes de soja de alta qualidade”, exemplifica Fernando Henning, primeiro vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates) e pesquisador da Embrapa Soja. “Estamos lado a lado com os Estados Unidos”. Com a diferença, lembra, que o clima tropical brasileiro é um desafiador extra, visto que por aqui não tem neve para interromper o ciclo biológico de pragas ou patógenos. Além disso, o que é disponibilizado à agricultura americana é propagado em paralelo à brasileira visto à competitividade das empresas multinacionais presentes nos dois países. Afinal, Estados Unidos e Brasil são os dois maiores produtores de soja.

“Há a perspectiva de desenvolvimento de plantas com teor nutricional aumentado e que produzam substâncias com diferentes usos, como no tratamento de doenças”, revela Adriana Brondani, diretora-executiva do CIB

No futuro, prevê Henning, a evolução tecnológica, seja a de melhoramento convencional assim como a transgênica, vai produzir grãos com agregação de características nutricionais, como mais proteína e Ômega 3. “O mercado vai sinalizar para isso”, entende. Além, é claro, de seguir a incorporação dos tradicionais aperfeiçoamentos (como exemplo, a resistência a doenças, pragas e herbicidas). Mas, alerta Henning, outra evolução esperada cabe ao produtor, no manejo de todas as inovações. “Para preservar essas tecnologias. Para ter mais sustentabilidade”, justifica. Afinal, se as possibilidades que as sementes oferecem não forem manejadas conforme as recomendações (a exemplo do refúgio no caso de lavouras de milho e soja), logo perdem a eficácia, e toda a dedicação da pesquisa se esvai. “Vamos utilizar a tecnologia pelo maior tempo possível”, sugere. “Não só o que está dentro da ‘sementinha’, mas no entorno”.

O mundo ilimitado da modificação genética — Os organismos geneticamente modificados são um capítulo à parte nas tecnologias usufruídas pela agricultura. Para muitos, a transgenia é a nova revolução verde. Atualmente estão aprovadas pelo organismo que autoriza a liberação de transgênicos no Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), 61 eventos entre variedades de soja, algodão, milho, feijão e eucalipto. Estão em uso diferentes sementes com características agronômicas como resistência a insetos, tolerância a herbicidas ou a combinação de ambas. Já as variedades de feijão e de eucalipto ainda não estão sendo comercializadas. E ainda há aproximadamente uma dezena de eventos transgênicos em análise, e muitos outros em diferentes estágios de testes. No curto prazo, devem ser analisadas variedades de soja, milho e algodão com resistências a outros insetos, tolerância a outros herbicidas ou a combinação de diversas dessas características visando a uma semente cada vez mais protegida. No médio prazo, já é possível pensar na modificação genética de outras culturas (como cana e cítricos) com características agronômicas e também resistência a estresses abióticos (como tolerância à seca e resistência a solos com alto teor de salinidade). “Para o futuro, ainda há a perspectiva de desenvolvimento de plantas com teor nutricional aumentado e que produzam substâncias com diferentes usos, como no tratamento de doenças”, revela Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).

Ou seja, muito ainda se espera desse mundo da modificação genética, que esteve distante das lavouras brasileiras por safras após safras em razão de uma discussão maniqueísta, muitas vezes embasada em ideologias, inclusive religiosas. Nos Estados Unidos, país mais avançado nessa inovação, já existem variedades transgênicas aprovadas de frutas como mamão e maçã, além de canola, alfafa e beterraba. Por lá já se cultiva um milho tolerante à seca, característica ainda não desfrutada pelo agricultor brasileiro. “De maneira geral, os americanos contam com mais variedades de produtos, embora o Brasil esteja diminuindo esse gap ao longo dos anos”, avalia Adriana.

O produtor já sabe (e quantifica em números quanto a produtividade, redução de custos e ganhos econômicos) a importância da transgenia. A consultoria britânica G Economics estimou que para US$ 1 investido em biotecnologia, os agricultores obtêm de US$ 3,12 (em países desenvolvidos) e US$ 4,42 (em desenvolvimento). Além da redução de custos, sobretudo pela diminuição do uso de defensivos, de 1996, quando os transgênicos chegaram às lavouras, a 2014, o incremento de produtividade proporcionado pela tecnologia ao algodão foi de 17,3% e ao milho, de 13,1%. No caso da soja, 9,4% apenas em 2014. Isso tudo em relação apenas a GMs resistentes a insetos. Outra estimativa da G Economics é que, de uma maneira geral, de 1996 a 2013, os benefícios obtidos com a produção global de transgênicos foi de US$ 132,3 bilhões, resultado de redução de custos dos cultivos à melhora das produtividades. A adoção de práticas mais sustentáveis, como a diminuição de tratores e pulverizadores visto ser necessária a menor utilização de pulverizações, evitou a emissão, apenas em 2014, de 22,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono (equivalente a retirar das ruas 10 milhões de carros).

“O dia rende mais com um trator com quatro marchas avante e uma a ré, com reduzida”. Muito se evoluiu em tecnologia de máquinas, desde o anúncio de um trator n’A Granja nos anos 1940

E o horizonte dessa ciência é promissor. No médio e longo prazos visualiza-se a modificação genética de segunda geração, ou seja, plantas com melhores qualidades nutricionais e tolerância a estresses abióticos (seca, alagamentos), e de terceira geração, plantas como biofábricas de compostos úteis até para outros setores, não apenas na agricultura. Além disso, explica Adriana, uma recente tecnologia promote grande potencial de gerar, segundo ela, “produtos revolucionários” para a agricultura. É a CRISPR- -Cas9 (do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats). Descoberta em 2012, essa técnica utiliza a enzima Cas9 para cortar o DNA em pontos determinados por uma cadeia-guia de RNA. “Utilizando uma metáfora, seria como a ferramenta localizar e substituir palavras do Word”, define. “Se o Brasil quiser continuar competitivo no mercado global, deve olhar com atenção para essa tecnologia”.

O campo e suas maravilhosas máquinas — À primeira menção sobre “tecnologia no campo”, qual provavelmente é a primeira imagem que vem à cabeça de muitos? Uma suntuosa máquina agrícola, com a cabine climatizada, o pneu mais alto que o operador, arrastando uma plantadeira com o comprimento de uma quadra de futsal. Pois a representação é bem verdadeira, ainda que não seja a única a simbolizar a tecnologia top a ser usufruída pelo produtor.

“Quatro marchas avante e uma a ré, com reduzida, em um total de oito marchas para a frente. Partida elétrica e faróis dianteiros e traseiros. O dia rende mais com um trator”. Eis o anúncio de um trator moderníssimo veiculado pela edição d’A Granja de dezembro de 1949, o Cockshutt 30, da empresa canadense Cockshutt Plow Company. Muito se revolucionou desde aquela máquina – que era importada – até as atuais. É inimaginável qualquer comparação.

A tecnologia embarcada em uma máquina agrícola promove dois efeitos consideráveis. Um é a melhoria de todo o processo produtivo, o que torna as práticas melhor realizadas, e isso significa mais produtividade, maior produção e custos menores. Outro é o conforto que as máquinas de hoje propiciam aos operadores, e em absolutamente nada se compara ao Cockshutt 30 de seis décadas atrás, cujo operador ficava acomodado em uma “poltrona” de aço ao relento. O conforto e a comodidade oferecidos por trator, pulverizador e colheitadeira colaboram para que as atividades agrícolas sejam melhor executadas, e ainda convence o trabalhador a não abandonar o campo.

“A mão de obra (no campo) é defasada. É muito complicado no meio rural, que está envelhecendo. As pessoas vão embora, trabalhar na cidade”, descreve Renato Levien, doutor em Mecanização Agrícola e professor do Departamento de Solos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e também coordenador da comissão julgadora do Prêmio Gerdau Melhores da Terra, a principal premiação brasileira em máquinas e equipamentos agrícolas. Além disso, acrescenta Levien, a legislação trabalhista, com instruções normativas mais recentes (as de números 12 e 31) tem sido implacável com uma série de exigências junto ao empregador. “Ou vai dar processo trabalhista”, adverte a quem não as respeita. E facilidades para trabalhar também é um incentivo ao herdeiro seguir o negócio no campo.

Porém, é na eficiência para realização das atividades que as máquina destacam-se. No caso de aplicação de defensivos, Levien menciona a precisão na dosagem e na distribuição como muito importante. “Para que se aplique onde precisa. E não fazer mal às plantas e às pessoas. Colocar aquilo que precisa da forma mais racional possível”, descreve. Além disso, a gestão da máquina está automatizada. “O painel mostra o que está aplicando”. Mais do que isso, a telemetria permite que, do escritório (ou a milhares de quilômetros), se acompanhe, pelo celular, o desempenho da máquina. A partir do uso do GPS é possível na pulverização controlar os bicos que precisam estar ativos ou não na distribuição do defensivo, conforme a incidência do alvo (praga, doença, daninha). “Menos produto fora é uma questão ambiental”, ressalta. E a taxa variável possibilita dosar de acordo com as necessidades a distribuição de fertilizantes e sementes. “Quanto mais automatizado, melhor”, resume.

“O pequeno produtor quer a mesma tecnologia da máquina grande. É uma preocupação das fábricas atender a este mercado”, lembra Renato Levien, professor da UFRGS

Toda essa tecnologia está presente nas máquinas que operam nas lavouras americanas e também brasileiras – ao mesmo tempo. E por aqui também chegaram às máquinas de menor porte. “O pequeno produtor quer a mesma tecnologia da máquina grande. Senão, ele não compra”, adverte. “É uma preocupação das fábricas atender a esse mercado”. Levien exemplifica que os pequenos tratores de 50 cv já são dotados de cabines, e, segundo ele, o custo de um upgrade como esse é menor do que se imagina. “A tecnologia encareceu muito pouco, diluiu-se. A diferença entre comprar um trator com cabine ou sem é pouca”, atesta. E todos os avanços, melhorias e novidades chegam facilmente ao conhecimento do produtor via a praticidade da Internet. “As pessoas vêem vídeos. Tem a influência do exterior. Essas pessoas trocam ideias, informações, vão a feiras. Vinte anos atrás ficavam em casa trabalhando”.

A exatidão milimétrica da AP — Tem uma área da agricultura cuja inovação tecnológica é a sua essência: a agricultura de precisão (AP). Afinal, neste mundo, até um equipamento que está a milhares de quilômetros da lavoura – e da Terra – é acionado para ajudar no plantio, pulverização, colheita: o satélite. Na AP, explica um especialista nessa ferramenta, Telmo Amado, professor da Universidade Federal de Santa Maria/RS (UFSM), os processos estão sempre em aperfeiçoamento e em transformação com a meta de melhorar eficiência e o retorno econômico, além de diminuir o impacto na atividade. “Avançamos muito na nossa capacidade de caracterizar a variabilidade espacial de atributos químicos do solo e também de, através da taxa variada de corretivos e fertilizantes, diminuí-la”, esclarece Amado, que também é coordenador do Projeto Aquarius, um projeto de pesquisa, desenvolvimento e difusão de técnicas em AP que reúne instituições e empresas.

Na AP, o avanço será com as novas ferramentas de acompanhamento da lavoura com elevada resolução espacial e temporal, que modificarão as intervenções durante o ciclo da cultura, anuncia Telmo Amado, da UFSM

A AP permitiu uma amostragem mais reveladora do solo e, então, adubá-lo com quantidade e qualidade mais particularizada, sobretudo adicionando os nutrientes mais necessários àquele ambiente específico. “Sensores de solo podem nos auxiliar a ter resolução espacial permitindo intervenções localizadas. Mas o grande avanço será no manejo das plantas na lavoura. Novas ferramentas de acompanhamento do desenvolvimento da lavoura com elevada resolução espacial e temporal modificarão as intervenções durante o ciclo da cultura”, descreve. “Assim, à medida que a planta na lavoura expressar variabilidade espacial, ela poderá ser quase que imediatamente corrigida”, complementa. Também nessa técnica avançarão o ajuste fino de cultivares, híbridos, população de plantas de acordo com a oferta ambiental. “A integração de informações sobre as condições climáticas, desenvolvimento da cultura, índice de vigor e atributos de solo guiarão as intervenções visando a uma maior assertividade”.

O professor avalia que o agricultor brasileiro já pode valer-se de máquinas e equipamentos com a agricultura de precisão de ponta da agricultura mundial. “A qualidade das máquinas melhorou significativamente. A AP é uma área de inovação e o lançamento de produtos com elevada frequência é uma característica do mercado. A tecnologia está mais amigável, simples e mais robusta”, atesta. “Além das máquinas, a tecnologia está evoluindo muito, incluindo informações de diferentes fontes de dados de modo a tornar mais assertivas as intervenções”. No entanto, entende que ainda faltam o que ele chama de “dados básicos” sobre classificação de solos, registros climáticos históricos de uma grande rede de estações meteorológicas. “O limitado acesso à Internet no campo e outros atrasarão um pouco a adoção de novas ferramentas da agricultura de precisão que já estão em uso nos Estados Unidos”, avalia, baseado em uma viagem recente àquele país.

Os ganhos econômicos, técnicos e ambientais da prática da agricultura de precisão são incontestáveis. E mensuráveis. Amado faz a seguinte lista dos benefícios da AP no processo produtivo do agricultor: qualidade das intervenções, maior assertividade na tomada de decisão, maior controle dos processos, possibilidade do registro de informações, a amostragem de solo em malha e dirigida para prospectar ambientes de produção distintos, a elevada acurácia no posicionamento de máquinas na lavoura (o que diminui o erro de aplicações de insumos) e a aplicação na pulverização de agroquímicos, entre outros. Em síntese, o produtor fica com a sua lavoura na mão. “A semeadura precisa, o ajuste fino de população de plantas, da escolha de híbridos e de variedades de acordo com a oferta ambiental, e o acompanhamento das lavouras durante o ciclo irão permitir maior eficiência no campo”, esclarece.

Drones: a novidade que vem do céu — A inovação também está chegando das alturas. Literalmente. Ciro Antonio Rosolem, professor da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” e vice-presidente de Estudos do CCAS, classifica como um “passo adiante” na agricultura de precisão os drones (zangão em inglês), os veículos aéreos não tripulados (Vants). “São excelentes para nos municiar com informações que, na maioria das vezes, já temos, embora sem tanto charme”, interpreta. “Há, sim, um grande potencial de uso, no levantamento de pragas e doenças, na detecção de problemas, no monitoramento do desenvolvimento das lavouras e muitos outros. Mas ainda não há tecnologia disponível para tanto. Ainda há um longo caminho no desenvolvimento de protocolos, algoritmos e, principalmente, no estabelecimento de correlações entre a imagem e o que, de fato, estaria ocorrendo na lavoura”, analisa.

E a inovação por aqui ainda é incipiente em relação a outros lugares. “O que ocorre é que em países como Estados Unidos, Austrália e Reino Unido há muitos grupos de pesquisa trabalhando, com alto investimento no desenvolvimento de conhecimento para melhor uso dessa tecnologia. No Brasil, são poucos grupos com pouco dinheiro. Assim, vamos, novamente, importar tecnologia, pagando royalties”, lamenta. Ele exemplifica que no Brasil há dificuldade para aquisição de câmaras mais sofisticadas, que permitiriam melhor interpretação de imagens, e, portanto, ampliar suas aplicações. Além disso, aqui tais tecnologias são mais custosas.

“Como os recursos investidos no desenvolvimento da tecnologia são escassos no Brasil, provavelmente estaremos, em pouco tempo, usando errado, usando algoritmos e interpretação desenvolvidos para outras condições”.

Defensivos: mais tecnologia, menos danos a tudo e a todos — O produtor sabe como ninguém o peso dos insumos na planilha de custos e, também, o dano (irrecuperável) se um produto não funcionar como se espera. No caso da proteção mal feita, a praga, ou a doença ou a invasora, não costuma manifestar nenhuma misericórdia da lavoura dele. E nesse segmento, inclusive pelas pressões da sociedade e das legislações, muito se avançou. “Os produtos de hoje, comparado com produtos de 40 anos atrás, são em média 160 vezes menos tóxicos e usados a 10% das doses utilizadas anteriormente”, argumenta Fábio Kagi, gerente adjunto de Inovação e Sustentabilidade da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef). “Investir em produtos melhores e tirar do mercado as soluções que já não atendem mais os anseios do mercado é a melhor forma que as indústrias têm para incorporar as inovações no dia-a-dia do agricultor”.

Kagi defende que as indústrias de defensivos sempre foram “ávidas” pela inovação. “E investem sempre muitos recursos na busca de soluções que ajudam a reduzir o peso do investimento no ato de controle de uma praga”, explica. “Tal redução passará também, necessariamente, pela otimização no uso das ferramentas já existentes, além da oferta de novas soluções”. Além de lançar produtos mais eficientes e menos danosos ao meio ambiente, outra ação relevante proporcionada pelas empresas é a orientação quanto ao uso correto. “As indústrias cada vez mais ofertam serviços e treinamentos que melhorem a capacitação dos usuários e capacidade de diagnóstico dos problemas enfrentados pelo agricultor. A indústria de defensivos há anos é incentivadora do manejo integrado de pragas e da intensificação de ações de prevenção antes das ações de cura”.

Potencialidades dos sistemas integrados — Além de pesquisar, desenvolver e viabilizar ao agricultor um incontável rol de tecnologias e técnicas, a Embrapa visualiza nos sistemas integrados também uma espécie de tecnologia de ponta e com muito potencial na agricultura brasileira. “Extrair mais da área que está aberta”, define Mauricio Lopes, diretor-presidente da instituição. “Intensificar o uso da terra de maneira sustentável”, traduz os sistemas que conciliam no mesmo espaço físico as combinações lavoura + pecuária (integração lavoura-pecuária, a ILP), pecuária + floresta (IPF) ou pecuária + lavoura + floresta (ILPF). “Entendo que o Brasil caminha nessa direção”, vislumbra. Lopes menciona que o País explora menos de 60 milhões de hectares com grãos e fibras, ao mesmo tempo em que a área degradada de pastagem é de 100 milhões de hectares. “Tem área subaproveitada para ser incorporada”, aponta.

Nesse contexto de poliexploração do mesmo espaço, Lopes lembra ser fundamental a procura pela eficiência das diferentes atividades. E cita o Plano ABC, ampla a diversificada iniciativa capitaneada pelo Ministério da Agricultura que busca mitigar a emissão de carbono na agricultura, como fundamental. Ele lembra que as tecnologias dos sistemas integrados promovem a recuperação dos solos degradados, ampliam o uso de fixação natural de nitrogênio pelas leguminosas e também gramíneas, além de melhorar a eficiência das pastagens e, por consequência, da atividade econômica pecuária ali desenvolvida. A Embrapa, inclusive, tem desenvolvido pesquisas para que as gramíneas tornem-se importantes fixadoras de nitrogênio. E o dirigente demonstra enormes expectativas nas potencialidades de milhões de hectares de braquiárias retirando nitrogênio do ar e fixando o elemento nos solos para funcionar como fertilizante.

E o acesso tem sido a todos? — Como é possível depreender, a tecnologia tem evoluído de maneira rápida e em diferentes áreas da agricultura. Mas esse mundo fascinante tem chegado a toda a agricultura brasileira e, sobretudo, a todos os produtores, independente de tamanho, atividade ou região? “O agricultor brasileiro e a pesquisa agrícola estão cientes da necessidade de usar toda a ciência e tecnologia para praticar uma agricultura sustentável e competitiva. A incorporação de novas tecnologias depende, entre outros fatores, da capacidade de investimento do produtor”, responde José Otávio Menten, professor associado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP, e integrante do CCAS. “Para isso, é fundamental aprimoramento das políticas agrícolas, incluindo crédito rural, seguro agrícola, o aprimoramento nas legislações trabalhista, fundiária e ambiental, e assistência técnica e extensão rural eficientes”.

Menten afirma que o grande desafio é encontrar uma maneira sustentável para aprimorar a pesquisa, a extensão e a fiscalização. Sobretudo em tempos de restrições orçamentárias. “O grande avanço do agro no Brasil ocorreu a partir dos anos 1970, graças aos investimentos principalmente públicos, entre eles a criação da Embrapa. Agora, certamente a solução está em investimentos privados, possivelmente através de PPPs (Parceria Público-Privada) que sejam transparentes e justas”, avalia. “Importante encontrar o modelo que seja ético e proporcione ambiente satisfatório para a geração e disponibilização das novas tecnologias e produtos”, acrescenta, e menciona que já existem instituições de pesquisa e universidades com potencial de produzir muito mais, “desde que sejam incentivadas, através de investimentos, políticas claras e boa gestão”.


O boom nas lavouras teve na tecnologia a parceira número 1

A relação entre aumento das produtividades agrícolas e as incorporações de tecnologia e inovação é umbilical. O Brasil foi abençoado pela natureza pelas suas terras abundantes, clima e relevo favoráveis à prática da agricultura. Mas nada disso teria dado frutos – literalmente – não fosse a adoção de práticas e recursos tecnológicos. Sobretudo nas décadas recentes, as que foram protagonistas do boom das produtividades de grãos e, por consequência, da expansão acelerada das produções agrícolas. Isso tudo com baixa inclusão de novas áreas (leia-se menos desmatamento). O pesquisador da Embrapa Elisio Contini (foto), chefe da Secretaria de Inteligência e Macroestratégia da instituição, acompanhou de dentro de laboratórios e da lavoura a expansão vertiginosa da agricultura brasileira, hoje responsável por metade de tudo o que País exporta.

Aos 70 anos de idade, 40 dentro da Embrapa, Contini ampara-se em números para mostrar tal transformação. De 1970 a 2016, a área de soja, milho, trigo, arroz e feijão foi ampliada em 156%, enquanto a produção saltou 555% e a produtividade, 155%. “Foi um desenvolvimento espetacular”, considera. A soja teve a sua produtividade ampliada em 72% desde a safra 1975/76, de 1.748 para 3.011 quilos por hectare. Já o milho que, naquela safra de 1976/77, alcançou a média de 1.632 quilos/hectare, expandida levemente para 1.670 em 1990/91, deverá atingir 5.192 nesta safra – 220% de crescimento sobre a média dos anos 1970. Sendo que em regiões do Paraná, por exemplo, colheitas de 9 mil, 10 mil quilos não são exceções. “A soja nasceu moderna, com insumos modernos. Não começou como o milho, que era de ‘fundo de quintal’, com baixa produtividade”, compara. “Nos anos 2000 o milho deslanchou. Foi se modernizando”

Em 1984 ,o pesquisador visitou o Corn Belt americano, observou o nível tecnológico das máquinas e pensou: “Quando o Brasil vai chegar aí? Não vai nunca!”. Atualmente, revela, ao visitar feiras como a Agrishow, a conclusão é outra: “Hoje nós estamos no mesmo nível dos Estados Unidos. Até mais avançado que a Europa. Nossas máquinas são tão eficientes quanto as americanas”. Da mesma forma, em relação a insumos, como a genética de sementes. “Os sistemas agrícolas internacionalizaram-se”, justifica o porquê da paridade da adoção de tecnologias. E ele entende que, como as “demandas externas são espetaculares”, afinal, 51% da população mundial está apenas no Sul da Ásia – continente que não tem mais como expandir as áreas agrícolas –, o Brasil será o “grande celeiro mundial” em 10, 20 anos. Estima uma produção brasileira de 500 milhões de toneladas em 2050. “É um sonho, mas é possível. Vai ter mercado”, atesta. “O mercado tem poder enorme de levar tecnificação às culturas”.


O cientista da soja adverte: “50% é manejo”

A tecnologia é fundamental para a agricultura brasileira, certo? Apenas 50% certo. A metade restante chama-se manejo. E quem afirma é um verdadeiro cientista da agricultura brasileira, Romeu Kiihl (foto), considerado o “Pai da Soja”, título que ganhou porque ele, no anos 1970, então pesquisador da Embrapa, adaptou a cultura, que é originada de altas latitudes e clima temperado, às baixas latitudes e clima tropical dos Cerrados. Kiihl decreta: “50% é melhoramento, 50% é manejo”, afirma quem tem a tecnologia e a inovação no seu DNA há quatro décadas. Ele é hoje melhorista da Tropical Melhoramento & Genética (TMG), e completou, em maio, 40 anos como pesquisador, com passagens, além da Embrapa, pelo Instituto Agronômico (IAC) e pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).

O cientista mostra-se um tanto desapontado com o que tem sido praticado lá no interior da lavoura pelo produtor, sobretudo nos últimos 15 a 20 anos. “O manejo está sendo deixado de lado. O agricultor está usando pouco o manejo”. Ele refere-se ao fato de técnicas fundamentais e comprovadas estarem sendo ignoradas, como a rotação de culturas. “O plantio direto envolve mais do que plantar na palha. A rotação está sendo deixada de lado”, lamenta. E cita o que classifica de “açodamento do solo” a partir da dobradinha soja + milho safrinha, que gera a compactação. Kiihl adiciona à falta de rotação outras ações equivocadas, como não rotacionar fungicidas, o que suscita a resistência dos patógenos. “Tem que prolongar a vida útil das coisas”, alerta. E lista outras ações sustentáveis na prática da agricultura. “Todas as ferramentas não são excludentes. Tudo faz parte do sistema”, diz. “O resultado é, na verdade, não soma, mas multiplicação”.