Aprosoja

Gestão e clima sob COMANDO do produtor

O 3º Simpósio Agroestratégico, no mês passado, em Cuiabá, abordou a vital importância da gestão profissional da propriedade e maneiras de obter o máximo potencial genético da planta, inclusive a partir de mitigação dos efeitos climáticos

Leandro Mariani Mittmann*
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A gestão do negócio da propriedade e o manejo adequado da plantação, inclusive a administração do clima – na prática, a mitigação de seus efeitos – formaram a pauta na terceira edição do Simpósio Agroestratégico, evento promovido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja/MT) e Fundação MT, com apoio do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), no mês passado, em Cuiabá. “Recebemos mais de 200 pessoas, em sua maioria agricultores em busca de informação. O sucesso do evento é Fotos: Fernando Martin ver que os participantes conseguiram conectar as discussões das palestras com o seu cotidiano na fazenda”, avaliou o organizador do evento, o diretor técnico da Aprosoja/MT, Luiz Nery Ribas. O evento, com a mesma temática, ainda será promovido pelo interior do estado.

“O que falta é gestão”. Com essa advertência, o consultor Leonardo Soluguren, sócio-diretor da Horizon Company, abriu a palestra em que discorreu sobre o tema Gestão a Favor do Campo. E ele se referia à atuação do produtor. “A agricultura é um banco a céu aberto”, disse, colocando o “banco” no lugar de “empresa”, um bordão que se estabeleceu ao longo do tempo. E justificou: o produtor está à mercê de taxa de câmbio e de juros, cotações, bolsa de mercadorias, mecanismos como Cédula do Produto Rural e hedge, operações de moedas, oscilações na economia brasileira e mundial e assim por diante. “Estamos preparados para operar um banco?”, questionou o consultor, e acrescentou que, além desses fatores, o produtor está à mercê de situações específicas da agricultura, como clima, ataque de doenças e pragas, logística e riscos políticos. E nesse contexto todo, lembrou, o produtor só tem controle sobre os seus custos de produção.

Latorraca, do Imea, lembrou que em 2001, no médio-norte do MT, o hectare valia R$ 3.750, valor hoje de R$ 24 mil, enquanto a soja,que rendia R$ 255/ hectare, passou a R$ 470 (somada à safrinha de milho)

Soluguren mencionou que 85% dos problemas de liquidez dos produtores têm como causa expansões mal-calculadas. “Eu simulo os impactos financeiros de novas decisões de investimento?”, perguntou. E, então, citou a importância da governança corporativa: planejamento da sucessão familiar, questões como exposição ao risco, decisões de investimento, planejamento, metas e orçamento, gestão da informação e processos operacionais e assim por diante. Essas circunstâncias devem ser pauta no cotidiano do produtor como qualquer outra operação agrícola ou financeira. E acrescentou que os desafios do agricultor cresceram nos últimos anos, como a instabilidade política, o aumento dos custos de produção, o encarecimento do capital e a queda de confiança do empresariado, além das adversidades climáticas.

Fancelli, da Esalq/USP, sobre produzir corretamente: “Não existe receita de bolo, fórmula mágica, bala de prata. O que existe é conhecimento para compreender e examinar diagnósticos”

Daniel Latorraca, superintendente do Imea, apresentou o perfil do produtor mato-grossense – chamado por ele de “João Modão” – e a realidade enfrentada por ele hoje em comparação à de 15 anos atrás. Em 2001, por exemplo, na região médio-norte do estado, o hectare valia R$ 3.750, valor que passou atualmente a R$ 24 mil – seis vezes mais. Já nesse período, a soja, que rendia R$ 255 por hectare, teve incremento para R$ 470 (agora junto com a safrinha de milho), ou aumentou apenas 0,84 vez. “São dois negócios: o imobiliário e o agropecuário”, constatou.

Latorraca apresentou levantamento apontando que 50% dos produtores matogrossenses possuem até mil hectares, número que variou pouco desde 2007, e que em 2008 metade do custeio no estado era bancado por tradings, número que caiu para 5% na safra 2014/15. Já os recursos próprios, que representaram 22% em 2008/09, hoje chegam a 35%, um número estável desde 2009/10. Entre outras descrições do perfil dos produtores, Latorraca mostrou que a diferença entre os mais e menos lucrativos, que foi de 65% na safra 2007/08, saltou para 157% em 2015/16.

Vez do La Niña. Como mitigar? — Os outros três palestrantes abordaram o problema que aflige todos os agricultores: a vulnerabilidade das lavouras às condições climáticas. O agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, da Somar Meteorologia, fez uma avaliação preocupante da safra 2016/17 para os mato-grossenses. Segundo ele, baseado em previsões de diferentes fontes, vai faltar chuva na hora de plantar, entre setembro e novembro, e sobrar em fevereiro e março, na fase de colheita. Tudo por causa do fenômeno La Niña, que vem na sequência do El Niño. Santos deixou claro que “no Mato Grosso não vai se plantar em setembro”. E emendou: em outubro serão 20 dias sem chuva, e as precipitações só estarão regulares em novembro. “Você que é empresário rural vai ter que se preocupar com o clima neste ano”, advertiu. Já em dezembro, janeiro e fevereiro, haverá “muita chuva”. “Este é um ano delicado novamente. É para se planejar, colocar a cabeça para funcionar”, alertou. E finalizou sugerindo aos expectadores que confiassem em previsões climáticas.

Visto à impossibilidade de controlar as nuvens, o recomendável é preparar as plantações para enfrentarem melhor essas e as demais condições desfavoráveis, para assim se desenvolver e produzir. O professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Antonio Fancelli, tratou das interferências fisiológicas do clima sobre as plantas. Lembrou ser importante “compreender de uma forma holística o sistema agrícola”. “Não existe receita de bolo, fórmula mágica, bala de prata. O que existe é conhecimento para compreender e examinar diagnósticos”, disse. E descreveu situações que facilitam o desenvolvimento de plantas, assim como aquelas que comprometem a manifestação do potencial genético. “O estresse vai impor à planta um gasto energético significativo”, lembrou, e enumerou o dispêndio em 35%. Entre as muitas orientações, destacou. “A planta tem que ter raiz, não tem jeito. Temos que trabalhar o aprofundamento da raiz”.

Sérgio Abud, pesquisador da Embrapa Cerrados, abordou os fatores bióticos (pragas, doenças, operações) e abióticos (seca, temperatura) que interferem na produtividade da lavoura. O pesquisador apontou que, de 1976/77 a 2000, a produtividade de soja no Mato Grosso cresceu 117%, e que desde então, até 2014/15, o incremento foi de apenas 1%. Ele elencou uma série de limitantes à produtividade, como acidez do solo, baixa fertilidade, compactação, salinidade, assim como as soluções para tais entraves. E citou a integração lavoura- pecuária como uma maneira de aproveitamento do espaço físico, com ganhos econômicos e melhoria das propriedades físicas e químicas do solo “com maior sustentabilidade e equilíbrio ambiental”. Especificamente sobre a importância do uso de semente com vigor, advertiu que a falha de apenas uma planta por metro quadrado de lavoura pode representar 240 quilos a menos de soja por hectare (quatro sacas).

O jornalista esteve no evento a convite da organização