Reportagem de Capa

EXPECTATIVA DE RECUPERAÇÃO

É hora de projetar a safra 2016/2017. Os números não foram os melhores no último ciclo, mas agora existem razões para acreditar em uma retomada do crescimento. Os bons preços das principais commodities devem ajudar a impulsionar um aumento na área plantada, e a perspectiva é de margens bastante positivas. O alerta fica por conta do clima e do câmbio, variáveis que fogem do controle do produtor.
Como informação e atenção nunca são demais, o momento é de fazer as contas e investir na gestão da lavoura para garantir uma colheita de bons resultados

Denise Saueressig
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Na safra 2015/2016, os produtores enfrentaram o mais inconstante e temido vilão das lavouras. E a derrota em muitas regiões foi responsável pela queda de 8,9% na colheita brasileira. As adversidades do clima, que tiveram como aliado o fenômeno El Niño, provocaram falta de chuva em alguns estados e excesso em outros, derrubando a produção recorde de 207,7 milhões de toneladas em 2014/2015 para 189,3 milhões de toneladas agora, segundo levantamento divulgado no mês passado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

O estresse climático abalou a produtividade média de grandes culturas, com destaque para o milho 2ª safra, que tem estimativa de queda de 27% (de 5.716 para 4.174 quilos por hectare). O tombo vai colaborar para uma perda de 18,3% na colheita total do cereal, que deve ficar em 69,1 milhões de toneladas. Lavouras do Centro-Oeste e do Matopiba foram as que mais sofreram com a estiagem. Mato Grosso, o maior produtor do grão, deve reduzir em quase 23% a 2ª safra, para 15,6 milhões de toneladas.

Os resultados da última safra estão praticamente consolidados, e o momento é de planejar a lavoura de 2016/2017. “O mercado, com os bons preços internos e a forte demanda internacional, é o grande estímulo agora”, avalia o ex-ministro da Agricultura e presidente-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Alysson Paolinelli. “É importante que o produtor realize investimentos em tecnologia para tentar recuperar o desastre de 2015/2016”, continua. O recado, como ele faz questão de frisar, vale para todos, mesmo aqueles que sofreram com grandes perdas no último ciclo. “É interessante aproveitar os nutrientes que estão no solo e voltar o manejo para altas produtividades”, observa.

Área em crescimento - As expectativas iniciais são de ampliação para o plantio nesta temporada que, conforme indicam os prognósticos, contará com a presença do La Niña. A tendência é de inversão nas condições climáticas que foram observadas no período 2015/2016, mas a intensidade do fenômeno ainda gera dúvidas.

Especialistas do mercado acreditam que os produtores possam olhar com mais atenção para o milho na 1ª safra, já que a perspectiva de rentabilidade é positiva. Nos últimos anos, o cereal perdeu área para a soja. Só na temporada 2015/2016, o recuo na lavoura de verão foi de 11,4%, caindo para 5,44 milhões de hectares. Nas duas safras, o milho foi cultivado em 15,75 milhões de hectares, segundo a Conab. “O produtor pode fazer a conta entre os dois cultivos, especialmente nas regiões onde não há a possibilidade de uma 2ª safra”, constata o analista Carlos Cogo, diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica.

Pela sua projeção feita no mês passado, o consultor indica um aumento de 1,4% no plantio do milho na 1ª safra e de 5% na 2ª safra. Outros produtos que devem crescer são a soja, com 3,6%, e o arroz, com 4%. No total, Cogo estima um acréscimo de 3,7% no cultivo em 2016/2017 sobre os 57,989 milhões de hectares do último ciclo, quando a elevação foi de apenas 0,2% na área. “No caso de condições climáticas favoráveis, a produção total no Brasil poderá alcançar 218,5 milhões de toneladas. A soja tem potencial para 105 milhões de toneladas”, informa.

Também em levantamento divulgado em julho, a Safras & Mercado projeta uma expansão de 0,9% para a área a ser plantada com soja em 2016/2017, em um total de 33,488 milhões de hectares. Para o milho de verão, a consultoria prevê um incremento de 7,8% no plantio. Já para a 2ª safra, a estimativa é de redução de 0,9% na área.


COMPRAS ADIANTADAS

A queda no preço dos fertilizantes é outra razão para acreditar em um crescimento da área plantada no Brasil em 2016/2017. Tanto que os produtores aproveitaram o primeiro semestre para assegurar as compras do insumo, que apresentou retração nos valores principalmente pelo excesso de oferta mundial e pelo recuo nas cotações do petróleo.

Segundo a Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda), a entrega de fertilizantes no primeiro semestre deste ano foi 12,6% superior em relação ao mesmo período do ano passado. Fevereiro foi o mês com o maior crescimento: 2,24 milhões de toneladas foram comercializadas – volume 22,1% acima de 2015.


A tendência de crescimento para as duas principais commodities é compartilhada pela consultoria Céleres. “É provável que esse cenário se confirme principalmente entre os produtores mais capitalizados, que podem calcular seus custos e investir até mesmo na expansão das duas culturas”, cita o analista de mercados da empresa, Enilson Nogueira. “Em áreas onde o clima é mais favorável, o produtor pode pensar em realizar a rotação de culturas, que também tem impacto agronômico positivo”, complementa. Incrementos no plantio da soja podem ocorrer em novas áreas e em substituição a outros grãos e pastagens. Para o milho, em regiões onde foram registradas perdas mais severas em função do clima, pode haver problema no fornecimento de algumas variedades de sementes.

Preço médio do milho no mercado interno, que era de R$ 22 a saca em julho de 2015, chegou a R$ 48 este ano antes do início da colheita da 2ª safra

Remuneração é atrativo - As previsões otimistas que consideram aumento na área nesta safra levam em conta a motivação dos produtores com os altos preços. O analista Leonardo Sologuren, sócio-diretor da consultoria Horizon, faz um comparativo com o ano passado. Nas primeiras semanas de julho de 2015, recorda, a saca do milho tinha cotação média de R$ 22,00. Na mesma época deste ano, o valor estava em R$ 36,00, sendo que chegou a R$ 48,00 antes do início da colheita da 2a safra.

A saca da soja, que no início de julho de 2015 tinha cotação de R$ 64,00, este ano chegou a R$ 81,00. “Além dos preços atrativos, agora temos a novidade da mudança política, com níveis de confiança maiores no mercado. É um ambiente mais propício que faz acreditar em crescimento da lavoura”, descreve. No mercado, há motivos que indicam sustentação nos preços do milho, segundo o analista Enilson Nogueira. “A frustração de safra, o crescimento das exportações e os estoques mais baixos do cereal são algumas das razões”, enumera, lembrando que em 2015 o Brasil vendeu ao exterior 29 milhões de toneladas do cereal. “Este ano poderá haver uma desaceleração em relação a 2015 porque o mercado interno está pagando bem e porque existe a necessidade de abastecimento das indústrias de carnes para a fabricação de ração”, relata.

Um dos limitantes para um significativo aumento no cultivo do milho, na opinião de Sologuren, é o acesso ao crédito, que costuma ter mais facilidades para a soja, principalmente pelo alto volume de negociações envolvendo as tradings. “Independentemente da decisão do produtor, o importante é trabalhar com planejamento de vendas para assegurar, pelo menos, os custos de formação da lavoura. A gestão de riscos também é fundamental, com acompanhamento da questão climática e investimento em ferramentas que possam auxiliar nos controles operacional e financeiro da propriedade”, recomenda.

Informação para a tomada de decisão - O engenheiro agrônomo e produtor Rogério Vian procura seguir essa rotina a cada nova safra. Antes de formar a lavoura na propriedade em Mineiros, no Sudoeste de Goiás, ele se abastece de informações sobre o clima, sobre os estoques e sobre outras variáveis que podem influenciar seus resultados. O trabalho é feito em conjunto com uma consultoria contratada e também em eventos de associações de classe e de cooperativas das quais ele faz parte. “O setor já admitiu muito amadorismo, mas hoje a realidade é diferente. Se existem condições para buscar esse tipo de ajuda, não há porque não utilizarmos. Com tudo nas mãos, fica mais simples tomar as decisões”, salienta.

Vian cultiva 620 hectares com soja no verão. Na 2ª safra, a principal cultura é o milho. Ele ainda está pensando se plantará uma parcela com feijão no ciclo 2016/2017, mas já definiu que não vai cultivar algodão. A justificativa é o custo alto da pluma, calculado entre R$ 6,5 mil e R$ 8 mil por hectare na sua região.

Esta não será uma safra de grandes gastos, diz o produtor, que nos últimos anos aproveitou as taxas de juros atrativas para investir em maquinário e em estruturas de armazenagem. O momento é de garantir produtividade e rentabilidade com planejamento agronômico e financeiro. Na lavoura de soja, os últimos 10 anos foram marcados por produção média de 60 sacas por hectare, sendo que em alguns talhões, chegou a 80 sacas por hectare.

Já o milho obteve rendimento médio de 126 sacas por hectare na safra 2014/2015, mas agora caiu para em torno de 100 sacas por hectare. Segundo Vian, produtores da sua região vêm constatando elevação nos custos, de cerca de R$ 2,8 mil por hectare na temporada passada, para entre R$ 3,2 mil e R$ 3,5 mil agora. “Apesar de o fertilizante estar mais barato, itens como defensivos, mão de obra e combustível estão mais caros”, afirma.

Produtor Rogério Vian: safra não será de grandes investimentos, mas de planejamento para garantir a produtividade da lavoura

Na sua propriedade, Vian utiliza poucos insumos químicos, dando prioridade para a adubação orgânica e os defensivos biológicos. O Manejo Integrado de Pragas (MIP) também é adotado com regularidade. Assim, ele calcula seus custos em torno de R$ 2,5 mil por hectare na próxima safra. Segundo ele, o objetivo é conquistar a certificação de produção orgânica de soja em um período de dois anos.

Até a segunda semana de julho, o produtor havia comercializado 7% da colheita futura com preço médio de R$ 71 a saca, R$ 9 acima da média de venda no ano passado. “Este ano, a cotação chegou a R$ 82 em junho. Agora, vamos acompanhar a safra nos Estados Unidos e voltar ao mercado aos poucos”, diz.

Vian e um sócio também são produtores em Uruçuí, no Piauí. Na última safra, no entanto o resultado foi desastroso nos 1 mil hectares cultivados na região. “Foram 90 dias de seca e 100% de perda na soja. No milho, colhemos 20 sacas por hectare. Para a próxima safra, vamos aguardar até setembro para decidirmos se vamos investir novamente por lá”, declara.

Planejamento da lavoura e da venda - O produtor e engenheiro agrônomo Jackson Berticelli Cerini e o pai, Gilmar Antônio Cerini, pretendem cultivar apenas a soja na safra de verão nos 250 hectares de lavouras em Mormaço e Tio Hugo, no Noroeste do Rio Grande do Sul. “A decisão é porque sabemos da possibilidade de ocorrência do La Niña, e o milho é mais sensível à escassez de chuva”, argumenta Jackson, que no inverno planta trigo em 30% da área e aveia no restante. “Trabalho com alta população de plantas para obter um bom volume de palhada e reter a umidade no solo”, frisa. Entre as estratégias para obter altas produtividades também estão o plantio escalonado e a escolha por variedades com diferentes ciclos de maturação. Na última safra, o rendimento médio da oleaginosa foi de 60 sacas por hectare na propriedade da família. A meta agora é alcançar as 65 sacas e, nos próximos anos, chegar a 70 sacas por hectare.

A definição pela soja que começa a ser plantada na segunda quinzena de outubro também foi econômica. Em abril e maio, a saca chegou a ser vendida com média de R$ 85 na região. Os Cerini optaram por comercializar 30% da colheita futura e, agora, analisam o mercado para decidir quando serão realizadas novas operações.

Embora não tenha fechado o cálculo dos custos de produção, Jackson percebe que o valor dos insumos está bastante parecido com o do ano passado. No entanto, a relação de troca (de insumos por sacas) está mais favorável agora. Em torno de 50% dos negócios da safra 2016/2017 foram realizados diretamente com a Cotrijal, cooperativa com sede em Não-Me-Toque/RS, onde a família é associada. “Essa é mais uma estratégia de segurança para o agricultor”, considera.

Jackson está entre os muitos produtores brasileiros que aproveitaram o momento positivo do primeiro semestre para adiantar as vendas da safra de soja, que este ano registra números recordes para o período. Na média dos últimos cinco anos, a comercialização antecipada no Brasil ficou em 12% até o mês de julho. Agora, chega a 24%, segundo informações da Céleres. “O produtor que vendeu cedo a soja fez bem, porque aproveitou um momento de altos preços e garantiu o pagamento dos seus custos”, aponta o analista Enilson Nogueira.

Atenção para o clima nos Estados Unidos - O consultor Carlos Cogo lembra que negócios interessantes ocorreram entre os meses de maio e junho, quando muitos conseguiram comercializar a saca com valores em torno de R$ 82. Na segunda quinzena de julho, as vendas futuras diminuíram porque os preços já estavam R$ 10 mais baixos. “Claro que R$ 72 é uma cotação muito boa, mas também é natural que as negociações tenham perdido ritmo”, destaca.

O analista explica que os preços da soja caíram principalmente porque a perspectiva para a safra dos Estados Unidos é bastante positiva. O milho tem cenário semelhante neste momento, já que as condições no chamado Corn Belt favorecem uma safra recorde do cereal.

Produtor Jackson Cerini: meta é alcançar 65 sacas de soja por hectare com boa formação de palhada e uso de variedades com diferentes ciclos de maturação

O fundamento do clima provocou oscilações nos preços na Bolsa de Chicago. A soja passou de mais de US$ 11/bushel na segunda semana do mês passado para entre US$ 9 e US$ 10/bushel em 22 de julho. “Se as condições confirmarem uma safra cheia nos EUA, permanece a pressão baixista, porque se retira o prêmio de risco climático do preço. Nesse caso, o cenário só poderá mudar se existir uma novidade como, por exemplo, a queda na produção da América Latina em decorrência do La Niña”, detalha Cogo. Outra possibilidade de reversão é considerada se houver adversidades climáticas no mês de agosto, que é decisivo para a lavoura norte-americana.

A queda do dólar também ajudou a retrair os preços no mercado interno. Como boa parte dos custos foram formados com a moeda americana em torno de R$ 3,60, será preocupante se as cotações mantiverem a baixa. Na terceira semana de julho, o dólar tinha valores próximos dos R$ 3,30. “A continuidade desse movimento, que acontece pela maior confiança na economia brasileira, pode encurtar a rentabilidade do produtor ao final do ciclo”, alerta o consultor. Na avaliação de Cogo, o Governo poderia pensar em medidas para evitar uma queda mais brusca na taxa de câmbio, já que as exportações de produtos agrícolas são fundamentais para a balança comercial brasileira.

O consultor projetou, no mês passado, um cenário para 2016/2017em que a taxa média de câmbio para os custos foi de R$ 3,63 e, para as vendas, de R$ 3,46. Considerando todos os custos, um preço de US$ 11/bushel e uma produtividade média de 52 sacas de soja por hectare, as margens sobre o custo seriam de 29,7 sacas por hectare para produtores do Sul e do Sudeste e de 15,3 sacas por hectare para lavouras em Mato Grosso, Goiás e Bahia. Na safra 2015/2016, as mesmas regiões tiveram resultado de 22,1 sacas por hectare e de -1,4 saca por hectare, respectivamente.

Para o milho, ao preço de US$ 3,60/bushel em Chicago e contando com rendimento médio de 143,3 sacas por hectare nas lavouras do Sul e do Sudeste (1ª safra), a margem sobre o custo foi calculada em 78,5 sacas por hectare. Nas áreas do Cerrado (2ª safra), com produtividade de 107 sacas por hectare, a margem seria de 22,3 sacas por hectare. No ciclo anterior, os desempenhos foram de 66,9 sacas e de -9,5 sacas, respectivamente.

Arroz: problemas financeiros geram incerteza - Embora as consultorias acreditem em um pequeno incremento na área a ser cultivada com arroz na próxima safra, ainda existem motivos para incerteza entre os produtores gaúchos, que são responsáveis por mais de 70% da colheita do cereal no Brasil. O momento de cotações recordes em torno de R$ 50 a saca de 50 quilos não vem sendo acompanhado por elevação da renda no setor, ressalta o presidente da Federação das Associações dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Henrique Dornelles.

“Em 2015/2016 enfrentamos os maiores custos da história e perdas significativas de produção em função do clima”, recorda. Considerando a produtividade média, que teve queda de quase 12% no estado, o custo da saca foi avaliado em torno de R$ 47. Segundo Dornelles, é preocupante a diferença percebida entre os produtores capitalizados, que têm condições de investir também em outras culturas, e aqueles que não estão conseguindo acessar recursos para o custeio da próxima safra.

São justamente as dificuldades no acesso ao crédito que geram dúvidas sobre a área que será cultivada em 2016/2017. “Não sabemos se conseguiremos repetir a lavoura da última safra, mas a tendência é de boa produtividade com a perspectiva do La Niña”, conclui o presidente da Federarroz. Em 2015/2016, os produtores gaúchos sofreram com o excesso de chuvas decorrente do El Niño, que derrubou a safra em 15,2%, para 7,3 milhões de toneladas em 1,05 milhão de hectares que foram colhidos.

O anúncio da renegociação das dívidas dos atingidos pelas perdas climáticas e o reajuste no preço mínimo do cereal, de R$ 29,67 para R$ 34,97 são algumas das boas notícias deste ano.

Henrique Dornelles, presidente da Federarroz: momento de cotações favoráveis não vem acompanhado de elevação da renda

A perspectiva, pelo menos para o segundo semestre, é de sustentação nos preços do arroz devido ao quadro de oferta e demanda bem ajustado no País. Os estoques iniciais, somados à produção, formam uma oferta de 11,415 milhões de toneladas para um consumo interno de 11,45 milhões de toneladas. “No entanto, se a produção crescer em 2016/2017, pode haver pressão negativa sobre as cotações no ano que vem”, indica Carlos Cogo, que estima 4% de aumento na área a ser cultivada nesta safra. Ele lembra que a área de cultivo do cereal recuou 13,5% na safra 2015/2016, acumulando uma retração de 50% desde 2004/2005.

João Carlos Jacobsen Rodrigues, presidente da Abrapa: plantio poderá ter incremento em MT e MS, mas tendência é de redução no Nordeste

O preço, continua o consultor, também pode sofrer influência da queda do dólar, que reduz a paridade de exportação nos portos brasileiros e torna mais atrativas as importações. “Se o ritmo de exportações continuar declinando, ao mesmo tempo em que as importações sigam crescendo, as altas dos preços do arroz em casca devem ser mais moderadas no curto e no médio prazo”, acrescenta.

A Safras & Mercado estima um incremento de 5% no plantio com arroz em 2016/2017, em um total de 2,285 milhões de hectares. Se a área for confirmada e a produtividade voltar à normalidade, o potencial de colheita é de 11,93 milhões de toneladas, 13% acima de 2015/2016. Para as lavouras irrigadas do Rio Grande do Sul, a consultoria projeta 1,1 milhão de hectares.

Algodão tem fortes concorrentes – As perdas da última safra, que reduziram a colheita em 11%, os altos estoques mundiais, a concorrência com as fibras sintéticas e as cotações positivas da soja e do milho são alguns dos elementos que irão ajudar a definir o próximo ciclo do algodão no Brasil. A previsão, assim, é de que a área cultivada no País fique bem próxima aos quase 960 mil hectares de 2015/2016, assinala o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), João Carlos Jacobsen Rodrigues. “A soja e o milho têm menor custo de produção em relação ao algodão, e as previsões de boas chuvas renovam as esperanças dos produtores”, justifica.

Segundo o dirigente, os níveis atuais de preço do algodão, oscilando entre R$ 4,8 e R$ 5 o quilo, são mais favoráveis ao plantio do algodão safrinha, cultivado principalmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. “Este é um indicativo de que a área dos dois estados possam ter um leve aumento para a safra 2016/2017, contrabalanceando com a diminuição das áreas no Nordeste”, analisa.

Pelas particularidades climáticas da safra 2016/2017, com boa ocorrência de precipitações nos estados do Centro-Oeste e do Nordeste, os produtores devem intensificar o monitoramento de pragas e doenças, recomenda o presidente da Abrapa. “É o momento de investir na maior proteção das áreas, planejar muito bem as janelas de plantio, buscar altos índices de produtividade e aproveitar as ferramentas de comercialização disponíveis no mercado. Também é preciso considerar o ganho oculto nas lavouras, em torno de 10 sacas por hectare, quando o algodão é cultivado em rotação com a soja”, sustenta.

O recorde do feijão - Quebras expressivas na 1ª e na 2ª safras no Brasil levaram o feijão-carioca a alcançar preços recordes de R$ 600 a saca este ano. A produção nas três safras em 2015/2016 chegou a 2,697 milhões de toneladas, abaixo do consumo nacional de 2,9 milhões de toneladas. “A questão é que 72% do consumo brasileiro de feijão é carioca, 19% é preto e o restante é de inúmeras outras variedades. É possível importar feijão-preto da Argentina e da China, feijão-branco de diversos países, mas não há como importar feijão-carioca, que foi desenvolvido no Brasil”, observa Carlos Cogo, justificando a razão para que o produto chegasse aos R$ 600.

Segundo o analista, na segunda quinzena de julho, com o avanço da colheita, os preços do feijão-carioca estavam entre R$ 310 e R$ 340 a saca do produto de melhor qualidade, em São Paulo, contra R$ 480 a R$ 500 um mês antes.

Devido aos preços positivos, a Safras & Mercado acredita em avanço avanço na área plantada na 1ª safra de 2016/2017. A estimativa é de aumento de 3,8% sobre os 959,9 mil hectares do ano anterior. Com produtividade positiva, a colheita poderá crescer 8,2%, chegando a 1,292 milhão de toneladas.

Renegociação e mais recursos – Ainda que os fundamentos positivos estejam presentes às vésperas da nova safra, perdas tão acentuadas como as que ocorreram com o milho e com o arroz em 2015/2016 podem limitar o crescimento esperado. Alguns agricultores não conseguiram colher nada em suas áreas, e as contas no banco preocupam. É preciso resolver o endividamento para conseguir dinheiro para a lavoura seguinte. Produtores relatam dificuldades para acessar recursos devido ao rigor de exigências bancárias.

Neri Geller, secretário de Política Agrícola do Mapa: se houver necessidade, o Governo vai buscar a expansão de recursos para programas oficiais

A necessidade de expandir a oferta de recursos no atual Plano Agrícola e Pecuário (PAP) também será avaliada. Segundo Geller, uma das solicitações do ministro Blairo Maggi é acompanhar de perto a demanda de programas que têm impacto na incorporação de tecnologia nas propriedades, com recursos voltados para aquisição de máquinas agrícolas, equipamentos de irrigação e armazenagem. É o caso do Moderfrota, do Moderinfra, do PCA e do Inovagro. “Se for preciso, vamos buscar mais dinheiro para essas linhas”, garante o secretário.

O PAP 2016/2017 foi anunciado em maio pela então ministra Kátia Abreu, com recursos de R$ 202,88 bilhões. No entanto, os volumes foram reajustados para R$ 185 bilhões devido ao redimensionamento da Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), que recebeu R$ 10 bilhões com taxa de 12,75% ao ano. A LCA é um recurso extrateto destinado ao custeio de produtores de maior escala. São valores complementares aos limites fixados pelo crédito rural.