Eduardo Almeida Reis

 

PAÍSES BAIXOS

Certos assuntos se impõem sem que a gente os procure. Dia desses liguei a tevê na hora em que duas brasileiras derrotavam a dupla holandesa em um torneio de vôlei de praia. Pouco depois, abro o jornal e leio que um grupo de jovens holandeses está residindo em uma favela carioca para conhecer e estudar o Brasil. Na véspera, havia recebido a revista Animal Business Brasil, editada por velho amigo, com um texto sobre a Holanda. Mexi com vaca de leite a vida inteira e os Países Baixos, com a sua história e os seus gados, são inseparáveis dos produtos lácteos.

No Mato Grosso, conheci um holandês, herói de guerra, que havia saltado de paraquedas à noite sobre território nazista levado por avião inglês. Três vezes saltou, fez o que tinha para fazer e voltou à Inglaterra. Não sei se escreveram livros contando suas aventuras. Morreu atropelado em Campinas.

O planeta leite é fascinante. Ainda outro dia, a CCPR e a Itambé homenagearam os produtores que se destacaram em 2014. Em segundo lugar, vejo a senhora Huguete Guaranis, cuja fazenda produziu a média diária de 30.643 quilos de leite. Hoje, viúva de um banqueiro, Huguete é apaixonada pela produção leiteira e foi ela quem entusiasmou o marido na compra e montagem da fazenda mineira.

Fiz matéria sobre a fazenda aqui n’A Granja há cerca de dez anos, quando lá estive. Propriedade montada para produzir 50 mil quilos/dia, gado holandês malhado de preto, estabulação livre, três ordenhas diárias. Havia lotes de 80 quilos/dia, empregados uniformizados, três turnos, tudo explicado na reportagem. Com os atuais 30.643 quilos de média anual, deve beirar os 50 mil nos meses favoráveis. O primeiro colocado no mesmo ano, Sekita Agronegócios, de Araxá, produziu em média 30.947 quilos/dia. E o terceiro do ranking, João Antônio Capanema, de Pará de Minas, ficou nos 16.691 quilos/dia. Ainda assim, é muito leite.

Bons comerciantes conseguem ganhar dinheiro produzindo mil quilos por dia, mas o lucro vem do comércio, um dom, aptidão inata para fazer algo difícil como comprar e vender vacas, bezerras e novilhas. Há sempre alguém querendo entrar no negócio sem saber que vaca precisa comer para produzir leite. Bons comerciantes vendem uma vaca por R$ 4 mil para recomprá-la meses depois, magérrima, por R$ 1 mil.

Há muitos e muitos anos, quando surgiu a moda free stall, visitei fazenda montada por um milionário. Instalações perfeitas, vacas morrendo de fome: não havia comida. Silos e fenis vazios. Sem comida é meio difícil. A estabulação livre montada pela senhora Huguete e seu marido conta com silagem de milho produzida em suas terras e toneladas de alimentos comprados de terceiros, ordenhadeiras em linha, tanques de expansão para 40 mil litros. Ainda assim, a empresa compradora do leite precisava deixar carretas isotérmicas para receber o leite que não cabia nos tanques de expansão.

Em matéria de free stall, anda fazendo sucesso o sistema compost barn, inventado nos Estados Unidos, em que as vacas ficam sobre cama de palhas, casca de algodão e café ou serragem de madeira em galpões com pé-direito alto de mais de cinco metros, área de dez metros quadrados por vaca em lactação. O custo da implantação por animal passa um pouco dos R$ 4 mil e o investimento se paga em poucos anos com o aumento na produção por vaca, o composto orgânico levado para a lavoura, a redução de mastites e problemas nos cascos. De longe, fiquei assustado com a “tecnologia” necessária para lidar com a cama, que parece exigir assistência diária de um PhD em Química, mas devo ter lido mal.

Há mais de 50 anos, no Sul de Minas, terras valorizadas com as lavouras de café, visitei galpões imensos para animais de serviço, cavalos e burros sobre cama de sabugo de milho picado. Na medida em que a cama subia, os cochos de arraçoamento também subiam e a cama era retirada uma vez por ano para adubação das lavouras. Em um dos cantos de cada galpão havia uma baia de réguas de madeira com pequenas frestas, para que os animais se acostumassem ao cheiro dos burros e cavalos introduzidos no grupo. Sem passar dois ou três dias nas baias, os novos animais seriam mortos a coices e dentadas.

Resta-me pouco espaço para falar da Holanda com 1,6 milhão de cabeças em 18 mil estabelecimentos produzindo 12,7 bilhões de litros de leite, dos quais 55% destinados à produção de queijos exportados principalmente para a França, Bélgica e Alemanha. O setor emprega menos de 45 mil trabalhadores e gera 12 bilhões de euros.