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Atenção à qualidade FÍSICA dos solos

A escarificação do solo, com escarificadores equipados de discos de corte e rolos niveladoresdestorroadores, minimiza o problema da compactação em solos sob plantio direto

Em caso de compactação, pesquisas demonstram que a escarificação esporádica dos solos – mesmo em sistema de plantio direto – não diminui o teor de matéria orgânica, aumenta a porosidade total e a rugosidade superficial, além da infiltração de água

Engenheiro agrônomo Vilson Antonio Klein, doutor em Agronomia, professor Titular da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo/RS; engenheiro agrônomo Delcio Rudinei Bortolanza, mestre em Agronomia, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Agronomia FAMV/UPF; e André Guilherme Daubermann dos Reis, acadêmico de Agronomia da FAMV/UPF, bolsista de Iniciação Científica

A preocupação com a conservação dos solos agrícolas fez com que a Assembleia Geral da ONU, a partir de resoluções da FAO, declarasse 2015 como o Ano Internacional dos Solos, como forma de chamar a atenção para essa camada superficial do planeta Terra tão pouco lembrada e tão mal tratada. O solo é suporte para a produção de alimentos, reservatório de água e nutrientes, ambiente de muita vida, e é sobre ele que moramos e vivemos.

Para a produção agrícola, o solo deve desempenhar funções importantes, como fornecer água, ar e nutrientes ao sistema radicular das plantas, no momento adequado e por intervalo de tempo maior, sem a necessidade de reposição. Solos com estrutura física degradada ou solos arenosos apresentam baixa capacidade de fornecer essa água às plantas e, importante destacar, períodos reduzidos de deficiência hídrica já comprometem significativamente a produtividade das culturas.

A compactação é considerada um dos principais problemas de degradação de solos e de comprometimento da produção agrícola, principalmente em condições em que o fornecimento de água não é uniforme e regular. Quando ocorre déficit hídrico, a compactação do solo acarreta redução na disponibilidade de água às plantas e excessiva resistência mecânica do solo à penetração, limitando o crescimento do sistema radicular das plantas. Para culturas anuais de ciclo cada vez mais curto, até mesmo pequenos déficits hídricos – principalmente em períodos críticos – ocasionam perdas de produtividade. Por outro lado, plantas perenes, por possuírem um sistema radicular mais desenvolvido e profundo, podem sofrer menores prejuízos pela deficiência hídrica.

Inúmeros estudos têm demonstrado que, em solos manejados sob o sistema plantio direto, ocorrem problemas de compactação. O tráfego das máquinas e implementos tem efeito cumulativo e causa danos à estrutura do solo, comprometendo o pleno desenvolvimento das plantas e a preservação do ambiente, uma vez que ocorre redução da infiltração da água no solo e consequente aumento da enxurrada. O efeito do manejo inadequado sobre a dinâmica da água no solo é, hoje, sem sombra de dúvidas, um dos mais sérios problemas que a agricultura tem de enfrentar. Por muitos anos, apregoou-se que os resíduos dispostos sobre a superfície do solo seriam suficientes para proporcionar a totalidade da infiltração da água na superfície do solo e, assim, evitar a erosão. Práticas conservacionistas consagradas e reconhecidas mundialmente, como o terraceamento e o cultivo em contorno, foram abandonadas.

A consequência desse cenário que é a erosão hídrica pode ser percebida em todas as regiões do Rio Grande do Sul e do Brasil. Precipitações intensas acabam carreando o solo da superfície, justamente o mais fértil, com todos os insumos aplicados, para os cursos de água, contaminando- os e assoreando-os. A grande questão é, então, “como manejar os solos agrícolas de forma intensiva, mesmo sob sistema plantio direto, e não causar compactação”? Tal ponderação é complexa e a questão depende de inúmeros fatores, como os seguintes: manejo ou tráfego do solo em condições não favoráveis à compactação; utilização de máquinas com relação rodado-solo adequada; e utilização de plantas com sistema radicular fasciculado e grande capacidade de crescimento em profundidade.

Identificação da compactação — Para identificar a compactação, várias análises físicas do solo estão disponíveis. Densidade relativa do solo, intervalo hídrico ótimo e distribuição do diâmetro dos poros são algumas das análises que podem ser realizadas para detectar a qualidade física dos solos agrícolas. É comum o diagnóstico ser feito pela análise do sistema radicular das plantas cultivadas, e esse diagnóstico pode até ser eficaz, no entanto, é tardio, ou seja, se a compactação era limitante, significa que uma safra toda teve a sua produção afetada. É por essa razão que diagnósticos prévios são tão importantes, pois permitem que ações corretivas sejam adotadas.

Mas, o que fazer quando a compactação é constatada? Existem ferramentas de preparo do solo, acopladas a semeadoras- adubadoras de semeadura direta, como sulcadores (facões), que podem ser eficientes, desde que consigam operar em profundidade na qual exista uma camada compactada. No entanto, a mobilização do solo é localizada e demanda elevada potência dos tratores, principalmente em solos argilosos e em culturas com espaçamento reduzido, nos quais a utilização de sulcadores é inviabilizada por questões operacionais. Implementos de hastes, como escarificadores ou subsoladores, atuam no solo, rompendo-o nas zonas de maior fragilidade, entre os agregados. Por isso, é consenso que, dentre os implementos de preparo do solo, os de hastes são aqueles que menos causam danos à sua estrutura.

Os resultados de pesquisa demonstram que a escarificação esporádica de solos sob plantio direto não diminui o teor de matéria orgânica, e aumenta a porosidade total, a rugosidade superficial, a infiltração de água no solo, o rendimento de grãos das culturas implantadas após a escarificação e o intervalo hídrico ótimo. Além disso, melhora a distribuição do diâmetro dos poros, diminui a densidade relativa e a resistência mecânica do solo à penetração. Destaca-se que é necessária precaução na realização dessas operações, uma vez que o solo tem que estar em condições de umidade adequada para evitar a formação excessiva de torrões. Além disso, devem ser evitados os preparos secundários (gradagens), uma vez que eles eliminam boa parte dos efeitos benéficos obtidos com a escarificação.

Nesse sentido, pontua-se que uma operação mecânica de baixo custo, como é o caso da escarificação do solo, com escarificadores equipados de discos de corte e rolos niveladores-destorroadores, minimiza o problema da compactação em solos sob plantio direto, melhorando a qualidade física de solos agrícolas, o que contribui para aumentar a estabilidade da produção, principalmente em condições climáticas não favoráveis.