Sustentabilidade

 

SUSTENTABILIDADE é vantagem competitiva

Realizado em São Paulo no mês passado, 14º Congresso Brasileiro do Agronegócio discutiu os desafios do País para ampliar a produção de alimentos em um cenário de recursos limitados

Denise Saueressig [email protected]

Em dois dias de debates que reuniram agroempresários e lideranças do setor, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) deu ênfase à sustentabilidade como direção para o aumento da oferta de alimentos e aos desafios para a ampliação do uso de novas tecnologias pelo campo. Realizado em São Paulo, nos dias 3 e 4 de agosto, o 14º Congresso Brasileiro do Agronegócio foi pautado pelo tema “Sustentar é Integrar”. “Ser sustentável é ter vantagem competitiva, é fazer mais com menos em um cenário de recursos cada vez mais limitados. Por isso, é fundamental investir em aumento da produtividade”, define o presidente da Abag, Luiz Carlos Corrêa Carvalho.

Considerando o momento como desafiador para o agronegócio nacional, o dirigente alerta para a perda da estabili- Ag. Riguardare dade econômica e da credibilidade política no País. “Confiança e crescimento andam juntos. O momento é de união, e o setor deve ser chamado para fazer parte das mudanças que são necessárias”, acrescenta. Para Carvalho, o Brasil precisa acentuar seu papel de protagonista no mundo e trabalhar com mecanismos de crédito que sejam condizentes com a realidade da produção.

As grandes mudanças e rupturas dos últimos anos também exigem soluções integradas e a atenção a fatores como as mudanças climáticas, as novidades tecnológicas e a crescente urbanização, que produz consumidores mais exigentes. “A sustentabilidade é um imperativo pela confluência dessas três tendências. Precisamos entregar valor e não apenas mercadorias para a sociedade, investindo em diversificação e especialização”, ressalta o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes. “A intensificação sustentável permite que no Brasil seja possível fazer agricultura 365 dias por ano, com práticas como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária-floresta”, enumera.

Lopes defende um esforço coletivo e a formação de acordos e alianças entre instituições de pesquisa, Governo, universidades, empresas e produtores para que o País evolua no desenvolvimento de tecnologias que resultem em avanços na produção.

Tecnologia para crescer — O sócioconsultor da MB Agro, engenheiro agrônomo Alexandre Mendonça de Barros, considera importante a análise de fatores que podem resultar no crescimento lento da oferta. Na avaliação dele, as restrições de terras, de água e de fertilizantes são gargalos diante de uma demanda que mostra constantes sinais de incremento. Além disso, é preciso avançar de forma consistente em algumas áreas, como aquelas que impõem desafios tecnológicos inerentes às mudanças dos sistemas produtivos. “O calendário agrícola de 1990 é bem diferente do que temos agora, em que o cultivo ocorre praticamente o ano todo”, diz o especialista, lembrando que há muita transversalidade de pragas entre culturas.

Questões como a resistência de pragas e plantas daninhas a inseticidas e a herbicidas merecem atenção de produtores e pesquisadores, assim como as dificuldades encontradas pelas empresas para obter o registro de novos agroquímicos. Baseado em dados da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), o consultor cita que o tempo de espera por uma licença no Brasil é de até sete anos, enquanto nos Estados Unidos e na União Europeia é de dois anos. Já o custo de registro de um novo produto chega a US$ 1 milhão no Brasil e a US$ 200 mil nos Estados Unidos e na Argentina.

O Brasil do agronegócio cresce em meio à crise política e econômica e tem uma condição única para atender a demanda mundial por alimentos, mas precisa de uma estratégia concreta para isso, salienta o coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro), Roberto Rodrigues. O ex-ministro da Agricultura observa que a renda do produtor rural depende de três fatores: custos, preço final e produtividade. “O produtor é tomador de custos e de preços. Portanto, a renda depende da incorporação de tecnologia”, conclui.

O sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, analisa que o País também precisa superar outros desafios significativos, como os que estão relacionados à mão de obra. “Um dos grandes gargalos é o capital humano, considerando desde os funcionários das fazendas, até a gestão do negócio pelos produtores”, declara.

Produção e escoamento — Pela primeira vez, o Congresso da Abag recebeu uma atividade de extensão em um segundo momento de atividades. O dia 4 foi reservado para um fórum especial que foi dividido em dois temas: alimentos e logística. O representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic, assinala que a produção de alimentos precisa crescer 80% até 2050, quando a população mundial é estimada em 9,7 bilhões de habitantes, sendo que 70% deles estarão nas zonas urbanas. “O Brasil é hoje o segundo maior exportador de alimentos do mundo e pode se tornar o primeiro nos próximos dez anos. Entretanto, precisa assegurar a segurança alimentar dentro do País e trabalhar questões como o escoamento da produção e o acesso à tecnologia, à educação e à assistência técnica, além de valorizar a atuação das cooperativas. É fundamental que os ganhos de produtividade sejam mantidos com sustentabilidade e o desenvolvimento do campo seja promovido com redução da pobreza nas áreas rurais”, argumenta.

As discussões do fórum sobre logística foram além dos apontamentos sobre as sérias carências que o Brasil enfrenta para escoar a safra. Os participantes do evento também citaram exemplos de investimentos e projetos que têm e ainda terão impacto sobre o transporte brasileiro. O presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema), Afonso Mamede, falou sobre os recursos previstos no Programa de Investimentos em Logística (PIL) 2015. O corredor Centro-Norte tem expectativa de aporte no valor de R$ 29,5 bilhões, para o Nordeste, o valor é estimado em R$ 9,5 bilhões, enquanto os corredores Sudeste e Sul têm projeção de R$ 70,5 bilhões. Para o dirigente, os planos para as rodovias e ferrovias têm necessidade de atração de novos players para participação nos projetos, já que grande parte das empresas tradicionais está com capacidade limitada para concorrer.