Reportagem de Capa

 

Inimigos à espreita. Como ENFRENTÁ-LOS

Na nova safra, o produtor precisa estar atento às ameaças múltiplas que rondam as diferentes lavouras, porque quando o assunto é pragas e doenças, alimento é que não vai faltar no campo em 2015/16. A identificação correta de insetos, lagartas ou doenças e dos estragos que possam colocar em risco a produtividade e a rentabilidade do produtor é fundamental para a tomada de decisão sobre qual a melhor ação de controle a ser colocada em prática

Gilson R. da Rosa

A prevenção e o controle de pragas e doenças que afetam a produtividade das lavouras tem se mostrado um dos maiores desafios para a agricultura brasileira ao longo das últimas décadas. Segundo um levantamento realizado pela Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja), apenas uma doença e uma praga – a mosca-branca e a ferrugemasiática – já causaram aos produtores brasileiros de soja prejuízos de US$ 25 bilhões nos últimos dez anos. No mesmo período, 35 novas espécies de pragas foram detectadas no território brasileiro, entre elas a lagarta Helicoverpa armigera, que provocou perdas de US$ 2 bilhões só no primeiro ano em que foi detectada por aqui, em 2013.

O papel do controle fitossanitário é reduzir, de forma sustentável, os prejuízos causados por essas ameaças ao longo do desenvolvimento da lavoura. Desse modo, cada etapa do processo de cultivo deve estar embasada nas boas práticas agrícolas que favoreçam a resistência das plantas e garantam a maior produtividade.

Mas para que isso ocorra, é necessário que várias estratégias sejam colocadas em prática: “Quando falamos em Manejo Integrado de Doenças (MID), por exemplo, esse é um processo que começa antes mesmo do plantio e envolve a construção da fertilidade do solo, a escolha adequada de cultivares, estratégias de manejo como a rotação de culturas e de cultivares, adubação equilibrada, uso adequado de defensivos, considerando o nível de resistência das cultivares, doses e épocas recomendadas para aplicação, época de plantio, uso de controle biológico, quando disponível, colheita e armazenamento adequados”, explica a fitopatologista do Núcleo de Pesquisa em Fitossanidade da Embrapa Milho e Sorgo, Dagma Dionísia da Silva.

A forma mais eficaz de prevenir possíveis estragos com pragas e doenças é monitorar a área plantada de cada cultura. Desse modo, qualquer anormalidade no desenvolvimento da planta poderá ser percebido logo no início, o que facilita as medidas de combate ao problema encontrado. “É um problema que exige a presença ativa do produtor. Ele precisa conhecer sua lavoura de dentro para fora para saber diagnosticar as ameaças antes que elas cheguem a níveis difíceis de controle”, aconselha o engenheiro agrônomo e diretor financeiro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), José Otavio Menten.

Menten, que também é vice-presidente da Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior (Abeas), mestre e doutor em Agronomia, com pósdoutorados em manejo de pragas e biotecnologia e professor associado da Esalq/USP, acrescenta: “O primeiro passo é estar prevenido. Para isso, é preciso conhecer o histórico e os hábitos das pragas, doenças e de todos os seres vivos nocivos que rondam a lavoura. O produtor também deve buscar entre as culturas os materiais genéticos que tenham resistência às pragas mais frequentes. Tomando essas medidas, ele já começa com uma base muito sólida, pois isso ajuda a reduzir as pragas na fase inicial da lavoura. Além de todos esses cuidados, deve fazer o monitoramento constante da área”, afirma.

Segundo ele, uma vez constatado o problema, é preciso buscar uma avaliação técnica sobre qual a melhor opção de controle, químico ou biológico. “Sempre que for possível o produtor deve associar as medidas de manejo. O mais importante é que todos os envolvidos entendam os princípios do Manejo Integrado de Pragas”, destaca Menten.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) define MIP como o sistema de manejo de pragas que associa o ambiente e a dinâmica populacional da espécie, utiliza todas as técnicas apropriadas e métodos de forma tão compatível quanto possível e mantém a população da praga em níveis abaixo daqueles capazes de causar dano econômico.

“O primeiro passo é estar prevenido. Para isso é preciso conhecer o histórico e os hábitos das pragas, das doenças e de todos os seres vivos nocivos que rondam a lavoura”, lembra Menten, do CCAS

O MIP tem como ferramentas de trabalho, basicamente, o monitoramento da população de insetos, pragas e doenças; o controle biológico de pragas com o intuito de favorecer o aparecimento de inimigos naturais; utilização de controle químico somente quando o ataque à lavoura atinge o nível de dano econômico, ou seja, para um inseto ser chamado de praga é necessário que haja prejuízo para a lavoura. “Essa etapa vem sendo negligenciada por grande parte dos agricultores, que vêm aplicando inseticidas químicos nas lavouras observando apenas a logística das práticas culturais, isso é o que chamávamos antigamente de calendário”, aponta a entomologista da Embrapa Milho e Sorgo, Simone Martins Mendes.

Monitoramento constante na soja — A cultura da soja está sujeita ao ataque de pragas e insetos desde a semeadura até a fase final de enchimento de grãos. É fundamental, portanto, que o agricultor saiba identificar cada espécie e conhecer sua biologia, bem como sua suscetibilidade aos defensivos, antes de lançar mão das alternativas de controle disponíveis. A falta desse conhecimento, por sua vez, pode acarretar, entre outros problemas, o uso indiscriminado de produtos químicos com danos ao meio ambiente e a consequente elevação nos custos de produção.

Para o produtor e engenheiro agrônomo Ademir Fischer, o monitoramento da lavoura é o ponto chave para o sucesso com a prevenção. “A identificação correta de pragas, doenças e inimigos naturais é o que vai determinar a tomada de decisão sobre qual melhor ação de controle a ser implementada, dependendo das ameaças que forem encontradas no campo”, assegura. Segundo ele, que cultiva 2.850 hectares de soja, além de outros 150 hectares de arroz (sequeiro), em Lucas do Rio Verde/MT, o ataque começa já na abertura do plantio, com as pragas iniciais, como a lagarta elasmo (Elasmopalpus lignosellus), que tem grande capacidade de destruição em um curto intervalo de tempo. Em seguida, vêm os insetos desfolhadores e as brocas e, finalmente, os sugadores, entre eles os percevejos, os ácaros, a mosca-branca (Bemisia tabaci) e a lagarta Helicoverpa armigera.

Ele explica que, com o monitoramento regular, as anormalidades no desenvolvimento da planta podem ser identificadas logo no início, o que facilita as medidas de combate ao problema encontrado. “No caso da lagarta elasmo, por exemplo, a melhor alternativa é a prevenção, ou seja, o tratamento das sementes com inseticidas sistêmicos. A mesma regra vale para a mosca-branca, cuja prevenção começa pelo tratamento das sementes de plantas que podem ser hospedeiras do inseto”, observa.

Conhecimento, a melhor ferramenta — Para o pesquisador da Embrapa Soja Arnold Barbosa de Oliveira, a melhor ferramenta no enfrentamento das ameaças fitossanitárias em todas as culturas é o conhecimento. “Isso vai permitir que o técnico e o agricultor tenham mais segurança para reduzir o aparecimento dos problemas, fazer somente as intervenções necessárias, no momento oportuno e com os insumos apropriados. A diversificação de culturas reduz a pressão de problemas fitossanitários e de danos ambientais”, explica. “Uma forma de diversificar as culturas é a rotação, outra forma é a integração de atividades que podem envolver lavoura, pecuária e floresta, entre outras. Mas mesmo utilizando essas estratégias há necessidade de se utilizar pesticidas”, avalia.

A título de exemplo, Oliveira explica que a Emater/PR e a Embrapa Soja têm quantificado as vantagens do MIP em áreas de quatro a 270 hectares. “Tais áreas têm sido comparadas com o entorno, onde os princípios do MIP não são aplicados. Os resultados da safra 2014/2015 ainda não foram publicados, mas continuam contundentes. Há notícias da aplicação bem-sucedida do MIP em áreas maiores, de produtores que não abrem mão dessa estratégia, a qual tem sido importante em problemas com a helicoverpa e os percevejos. Tais pragas são agressivas, mas sofrem com a ação de uma ampla gama de inimigos naturais”, observa. Uma amostra desses resultados pode ser vista na tabela “Resultados do MIP na safra 2013/2014”, onde é visível a redução do número de aplicações e de custo com produtividade semelhante.

Vicente, da Fundação Bahia: uma parceria entre associações do Oeste da Bahia para enfrentar a helicoverpa possibilitou também o aprendizado sobre outras pragas

Uma só fazenda — A ocorrência de recentes ameaças fitossanitárias, como a helicoverpa, vem comprovar não apenas a eficácia do MIP, como também a necessidade de sua ampliação para o âmbito de toda a agricultura brasileira. “O surgimento da helicoverpa há dois anos ensinou uma grande lição aos produtores do estado (Bahia), onde as culturas de milho, soja e algodão garantiram alimentos em fartura para a praga.

A partir daí desenvolvemos, em parceria com as associações do agronegócio do Oeste da Bahia uma cartilha com ações de manejo explicando como identificar a helicoverpa, seu ciclo de vida, comportamento e ações de monitoramento. Isso nos possibilitou também aprender a manejar outras pragas”, argumenta o diretor executivo da Fundação Bahia, Nilson Vicente.

Hoje o trabalho desenvolvido no estado, conforme ele, é referência para outras regiões produtoras do País. “Isso só é possível porque trabalhamos de forma integrada. A geração e difusão de informações ocorrem de maneira uniforme, pois a Bahia toda é como se fosse uma grande fazenda. Se, por exemplo, um vizinho não faz a sua parte, não observa o vazio sanitário recomendado, pode colocar em risco toda a agricultura do estado. Felizmente, o produtor baiano é receptivo às novas tecnologia e às inovações trazidas pela pesquisa”, pondera.

O maior desafio da agricultura baiana no que se refere à fitossanidade do algodão, de acordo com Vicente, continua sendo o bicudo do algodoeiro (Anthonomus grandis). “É a praga que mais nos preocupa. Temos que achar meios de enfrentá- la porque o custo para combater o inseto vem desestimulando os produtores e pode até inviabilizar a cultura. É preciso monitorar o bicudo desde o início para pulverizar menos”, alerta.

O pesquisador da Embrapa Algodão José Edenilson Miranda explica que o monitoramento do bicudo deve ser intensificado a partir do estádio de duas folhas verdadeiras (fase V2). “Como o bicudo tem por característica iniciar a infestação pela bordadura dos cultivos de algodoeiro, assim, logo após a constatação de sua presença devem ser realizadas pulverizações em bordadura antes que a praga se espalhe para o interior da lavoura”, avalia.

De acordo com Miranda, no momento do uso do desfolhante (quando 60% das maçãs apresentarem-se abertas e as que ainda não se abriram estiverem com mais de 25 dias), a adição de um inseticida contribui para a redução da população de bicudos. “O desfolhamento reduz o suprimento alimentar do bicudo (principalmente no ponteiro) e antecipa a colheita. Os insetos que permanecerem nas plantas desfolhadas entram em contato com o inseticida aplicado e morrem.

Uma destruição eficiente e a dessecação das plantas com mistura de inseticida ao produto dessecante complementam a ação química de redução da população que iria para os refúgios na entressafra, reduzindo sobremaneira as próximas gerações de início de safra seguinte. É importante também eliminar plantas voluntárias que surgem na entressafra, como aquelas que germinam a partir de sementes caídas à beira de rodovias”, acrescenta.

No caso da Helicoverpa armigera, o pesquisador recomenda as seguintes táticas de controle: “O manejo integrado de pragas como a helicoverpa visa manter as populações de insetos em condição de equilíbrio e abaixo dos seus níveis de dano. Para isso, devem ser feitas amostragens frequentes e representativas, como métodos visuais e uso de armadilhas. O uso de inseticidas seletivos, de baixo impacto contra os inimigos naturais, no caso produtos seletivos de origem biológica ou química, é também recomendável”, informa.

A utilização de plantas transgênicas com características de resistência a insetos é outra prática dominante na produção de algodão, soja e milho, lembra Miranda. “Entretanto, a transgenia deve ser sustentada pela adoção de refúgio estruturado, que é a parte da lavoura com plantas convencionais, não Bt, e visa fornecer insetos suscetíveis para acasalar com os insetos resistentes originários da cultura Bt. O cultivo de pelo menos 20% de área com algodão convencional, onde o controle de pragas deverá ser feito através dos conceitos do MIP e com ampla utilização de estratégias de controle biológico é o caminho mais seguro”, resume.

Perigos da ponte verde — De acordo com o engenheiro agrônomo Rodrigo Antonow, no momento de conclusão da colheita do algodão é fundamental que os cotonicultores façam a destruição de soqueiras de forma eficiente e respeitem o período de vazio sanitário do algodão para evitar a chamada “ponte verde”, impedindo a sobrevivência do bicudo e de outros insetos e patógenos responsáveis por pragas e doenças que atacam o sistema produtivo. O conceito de pontes verdes resulta do cultivo, no mesmo espaço geográfico, ao longo de todo o ano, de diferentes culturas, o que está provocando a adaptação de pragas de uma cultura em outra. “Hoje estamos vendo praga de soja em algodão, de algodão em milho, de milho em canola, de canola em trigo, coisas que eram impensáveis há 20, 30 anos”, observa.

Antonow é o gerente e responsável técnico da Fazenda Rio das Pedras, de propriedade do produtor Celito Missio, em Luis Eduardo Magalhães/BA, onde são cultivados anualmente 600 hectares com algodão e outros 3 mil de soja, além de milho e feijão, todas no sistema de cultivo irrigado. Ele também teme que o bicudo possa inviabilizar a cultura no estado, a exemplo do que aconteceu nas Regiões Nordeste e Sudeste na década de 1980. Uma das estratégias de controle adotadas na fazenda é a instalação de armadilhas 60 dias antes do plantio. “É a quantidade de insetos capturados que vai definir o número de aplicações, que pode chegar a 35 durante toda a safra. Além disso, 30 dias antes da colheita é preciso monitorar a área pelo menos duas vezes por semana”, explica.

Já em relação à soja, que começa a ser plantada em outubro, a preocupação de Antonow é com a ferrugem, doença que está sempre presente, além da lagarta conhecida como falsa-medideira (Pseudoplusia includens). No caso do milho, a maior ameaça, segundo ele, é a lagarta do cartucho (Spodoptera frugiperda). “De modo geral, observamos que o controle biológico vem apresentando resultados muito bons em comparação ao controle químico”, assegura.


Clima favorece a brusone no arroz. Perigo até de epidemia

Na safra 2014/15 foi cultivado no Rio Grande do Sul em torno de 1,1 milhão de hectares com o arroz irrigado, dos quais 96%, segundo levantamento do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), receberam pelo menos uma aplicação de fungicida para o controle de doenças. “Dez anos atrás, regiões como a Zona Sul e a Fronteira-Oeste do estado nem sequer cogitavam a utilização de fungicidas na cultura do arroz e pouco se falava sobre doenças nessa cultura. Atualmente, 70% das áreas cultivadas com arroz irrigado no Rio Grande do Sul utilizam genética suscetível à brusone (Pyricularia grisea), principal doença que ataca a cultura”, avalia o gerente da Divisão de Pesquisas do Irga, Rodrigo Schoenfeld.

Ele lembra que em anos com clima favorável ao desenvolvimento da doença, como foram os de 2012 e 2014, há sérios riscos de ocorrer uma epidemia de brusone, com perdas elevadas. “Em alguns casos as perdas chegaram a 100% nessas áreas. Isso tem causado preocupação e colocado em alerta as instituições de pesquisa que trabalham com o arroz irrigado. Se analisarmos as grandes culturas no Brasil, soja, milho e algodão, o arroz irrigado é a única que tem como única ferramenta de proteção de cultivos contra doenças o controle químico. E isso é extremamente perigoso”, relata.

Schoenfeld não tem dúvidas que o próximo passo é a resistência. “Existe no mercado somente um princípio ativo curativo para a brusone que é o Triciclazol, usado em larga escala no Rio Grande do Sul. “Nos próximos anos, não temos informações sobre o lançamento de novas moléculas para o controle de doenças no arroz irrigado. As cultivares lançadas pelo Irga nos últimos anos, como a Irga 424 e, recentemente, a Irga 424 RI são resistentes a brusone. Porém, nessa batalha patógeno x hospedeiro, é uma questão de tempo para haver um vencedor”, avalia.

Diante desse cenário, o Irga e outras instituições de pesquisas trabalham em conjunto buscando aumentar suas bases genéticas com novas variedades resistentes a brusone, mantendo a alta qualidade de grão, como exige o mercado. “Ao produtor lembramos da importância de fatores como o uso de cultivares resistentes, histórico das áreas, época de semeadura, irrigação uniforme, adubação equilibrada e principalmente condições climáticas favoráveis associadas ao monitoramento, na sua tomada de decisão e condução de suas lavouras. Para a próxima safra, nossa expectativa é, confirmando o El Niño, de termos novamente um ano bem complicado para o controle de doenças no arroz irrigado no estado”, prevê.


Ambiente favorável — O cerrado brasileiro apresenta amplas condições de clima favoráveis ao desenvolvimento de doenças que afetam a cultura do algodoeiro. As que mais requerem atenção são a mancha de ramulária, causada pelo fungo Ramularia areola, a doença azul, causada pelo vírus Cotton leafroll dwarf Vírus, e em áreas específicas o nematoide das galhas, Meloidogyne incognita, o nematoide reniforme, Rotylenchulus reniformis, e o mofo-branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum.

Para cada doença existem táticas de controle. “De maneira geral, a rotação de culturas, principalmente com gramíneas, pode ser empregada para qualquer uma delas. No caso específico da mancha de ramulária, principal doença do algodoeiro, hoje existem cultivares com resistência genética, o que diminui o uso de fungicidas, minimizando custos e reduzindo impactos ambientais. Para os nematoides, o uso de espécies vegetais como crotalária, consorciadas ou não com espécies de brachiaria, são opções para reduzir as populações desses patógenos no solo”, exemplifica o pesquisador da Embrapa Algodão Nelson Suassuna.

O manejo integrado de doenças do algodoeiro envolve um conjunto de táticas de controle que se aplicam visando interferir em um (ou mais) dos três componentes: o patógeno, o hospedeiro e o ambiente. “Os princípios que visam à eliminação ou redução do inóculo inicial são o uso de sementes certificadas, o tratamento químico de sementes com fungicidas, a rotação de culturas e a eliminação de restos culturais. De uma maneira geral, a rotação dos princípios ativos dos fungicidas deverá ser obedecida para evitar ou retardar o surgimento de populações do patógeno insensíveis a determinado grupo químico. As épocas, doses e intervalos de aplicações também deverão ser determinadas criteriosamente, assim como a tecnologia de aplicação”, aponta o pesquisador.

Atenção com o milho — Todas as regiões produtoras de milho carecem de atenção a doenças e pragas. As doenças foliares que mais preocupam pesquisadores são a mancha-branca, cercosporiose, mancha de turcicum, as ferrugens (polissora, ferrugem-branca e comum) e podridão de colmo. “O uso de fungicidas para controle da mancha-branca nem sempre tem sido eficiente, o que é uma preocupação a mais, pois a doença pode levar a perdas acima 60% na produção de grãos, quando as condições climáticas são favoráveis e os cultivares suscetíveis, situação bastante comum”, destaca a fitopatologista da Embrapa Milho e Sorgo, Dagma Dionísia da Silva.

A ocorrência de nematoides em milho, segundo ela, é atualmente uma preocupação dos produtores, pois embora a cultura apresente boa tolerância, ela pode reproduzir inóculo para as safras posteriores e causar danos às culturas mais suscetíveis, como a soja. “Outro tipo de doença extremamente preocupante são as podridões de espiga, além de vários fungos que atacam os grãos durante a fase de desenvolvimento da cultura”, complementa.

O MIP para enfrentar ameaças como a helicoverpa visa manter as populações de insetos em condição de equilíbrio e abaixo dos seus níveis de dano

Em relação a pragas, a entomologista da Embrapa Milho e Sorgo Simone Martins Mendes destaca a importância da lagarta-do-cartucho, praga polífaga que ocorre em todas as regiões na safra e na safrinha. “Muitos eventos Bt possuem hoje eficiência reduzida sobre esse inseto, deixando o produtor com uma opção a menos para o manejo. O uso generalizado e indiscriminado de inseticidas obedecendo a calendários potencializa o problema, pois reduz a população de insetos benéficos na área, os chamados inimigos naturais, reduzindo a resistência do ambiente, o que acaba demandando um número maior de aplicações”, relata.

Além das lagartas, os percevejos barriga verde e marrom estão aumentando nas áreas de plantio, sobretudo na safrinha, e atacam a soja e até plantas daninhas. “Isso é preocupante visto que mais da metade do milho produzido no Brasil é cultivado na safrinha, após a soja, e isso favorece a sobrevivência dos insetos, o que pode agravar ainda mais o problema devido ao ataque dos mesmos”, diz Simone.

Existe atualmente no mercado brasileiro um grande número de cultivares de milho com diferentes características e que podem ser escolhidos em função da necessidade regional, precocidade, tipo de grão, produtividade, etc. “No caso de doenças, a primeira recomendação é a utilização de cultivares resistentes, cuja escolha deve ser baseada no conhecimento das principais pragas e doenças que ocorrem na área de plantio. O tratamento de sementes com fungicidas e inseticidas é outro aspecto que deve ser levado em consideração. A adubação adequada também deve ser considerada como prática que afeta a incidência de patógenos”, acrescenta o fitopatologista da Embrapa Milho e Sorgo Luciano Viana Cota.

O bicudo do algodoeiro é a praga mais preocupante, pois, segundo os especialistas, o inseto pode até inviabilizar a cultura

Ele também chama a atenção para o fato de o controle químico ser hoje amplamente utilizado no cereal. “Existem diferentes produtos registrados no Ministério da Agricultura para uso em milho, mas a escolha deve levar em consideração qual é o patógeno-foco. A época de aplicação também deve ser observada. Aplicações tardias não são recomendadas, pois nessa fase as doenças foliares certamente já causaram os danos às folhas e, após a maturação fisiológica, não haverá aumento na produtividade e tampouco redução da incidência de fungos nas espigas”, alerta.

No caso de insetos, a recomendação para o plantio é que o produtor esteja atento à dessecação antecipada, para eliminar as plantas hospedeiras das pragas polífagas que possam estar se desenvolvendo na área. “Fazendo a dessecação de maneira adequada é desnecessário usar a aplicação de inseticida em conjunto. Isso evita a exposição demasiada dos inimigos naturais aos inseticidas.

Além disso, o produtor deve escolher adequadamente sementes Bt com resistência a insetos-praga, evitando utilizar o mesmo evento em toda área de plantio, promovendo uma espécie de mosaico na área cultivada. E o mais importante: se resolver cultivar milho Bt, é indispensável plantar área de refúgio seguindo as recomendações”, adverte Simone.


Dose e cuidados adequados sempre. Todos ganham

Os defensivos são uma importantíssima ferramenta para uma agricultura produtiva, mas se usados de forma inadequada, no momento e na frequência errados, ou em excesso, podem trazer uma série de riscos ao aplicador, aos consumidores e ao meio ambiente. As aplicações devem ser realizadas diante de monitoramento de pragas e doenças, com as doses recomendadas pelo fabricante para evitar a seleção de resistência aos produtos, resultando em perda de eficácia e epidemias severas. Doses acima da recomendação, além do gasto desnecessário, favorecem a seleção de isolados resistentes aos produtos, não são sustentáveis ao meio ambiente e, se detectadas em fiscalização, podem trazer multas e outras punições ao agricultor.

Em toda embalagem constam as informações de segurança do produto. O agricultor deve ler as informações e segui-las rigorosamente, pois indicam quais os equipamentos de proteção individual (EPI) necessários para a aplicação e o período em que o agricultor não deve entrar na área após a aplicação do produto, além de outras recomendações. “O produtor tem que usar o produto na dose correta, respeitar o intervalo das aplicações e o prazo de carência, que é o tempo entre a última aplicação e a colheita, para evitar a permanência de resíduos nas plantas e para que o produto vegetal apresente resíduos sempre abaixo do limite”, aconselha o diretor financeiro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), José Otavio Menten.

Com a utilização dos EPIs adequados para cada tipo de aplicação, a exposição do agricultor é reduzida a níveis seguros. Infelizmente, muitos trabalhadores ainda não utilizam os EPIs, o que eleva os riscos de intoxicação. “Um aspecto importante em qualquer programa de manejo fitossanitário é a tecnologia de aplicação. Nesse sentido, é importante que os equipamentos sejam escolhidos, mantidos e regulados adequadamente, e utilizados sob vento, umidade do ar e temperatura favoráveis, na presença de uma assistência técnica de qualidade”, orienta o pesquisador da Embrapa Soja Arnold Barbosa de Oliveira.

Uma grave consequência do uso indiscriminado de inseticidas é a evolução da resistência da praga aos produtos. “Isso acontece com o uso constante de inseticidas de mesmo grupo químico ou com o cultivo de lavouras transgênicas Bt sem refúgio. Assim, a rotação de produtos e a manutenção do refúgio são indispensáveis”, lembra o pesquisador da Embrapa Algodão José Edenilson Miranda