Glauber em Campo

 

UMA SAFRA MAIS QUE PREOCUPANTE. O QUE FAZER ?

GLAUBER SILVEIRA

A nova safra de soja está chegando. Neste mês de setembro, ao cair das primeiras chuvas e após o vazio sanitário, os produtores devem iniciar a safra mais cara em reais da história do Brasil. Safra que, além de altos custos, enfrenta um cenário de preços muito preocupantes em virtude das expectativas da safra norte-americana. Fica a grande incerteza da melhor decisão em relação ao mercado. Mesmo com altos custos em reais, produtores que têm seu custeio feito em reais estão com um risco menor do que aqueles com custo dolarizado, afinal, a soja em reais teve momentos de mercado positivo, ao contrário do preço em dólar que caiu e, mesmo nos melhores momentos de mercado, apresentaram preços 15% a 20% abaixo do ano anterior.

Apesar de todos os problemas do início da safra dos Estados Unidos e da redução de área dos “gringos”, o Departamento Agrícola dos EUA (Usda) anunciou estoques finais com dobro do que o mercado esperava, e com isso os preços voltam a recuar, para a insegurança de quem vai plantar uma safra cara e com preços baixistas. O problema agrava-se na região Central do Brasil, onde a maior parte dos custeios é feito em dólar. Afinal, o crédito agrícola oficial no Centro-Oeste não passa de 15% do custeio, e assim a maioria do crédito vem de tradings ou agentes financiadores cujo empréstimo é em dólar. Com isso, e como o preço da soja em dólar está baixo, a situação complica.

Como parte do custo da safra é dolarizada, o caso de fertilizantes, defensivos e sementes, vimos o custo da safra de soja ter um aumento de preço, dependendo da região, que varia de 18% a 30%. Porém, o valor da soja em reais teve uma variação máxima de 12%, apenas em relação à safra anterior. Sendo assim, mesmo o produtor que tem seus custos em reais, gastará no mínimo uma saca a mais por hectare em relação à safra anterior.

Por incrível que possa parecer, a semente foi o único item que não teve aumento em reais. Os defensivos, por exemplo, subiram 25% em média. O glifosato teve um aumento de 54,3%. As multinacionais devem estar se valendo da notícia de que poderia sair do mercado e se aproveitam para depenar o produtor, o que é um verdadeiro absurdo, pois nada justifica esse incremento de preço.

Quando analisamos dados do Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea), o custo de produção para o MT na safra 2014/15 foi em média R$ 2.412/hectare a um câmbio de US$ 2,33, o que equivalia a US$ 1.035. O mais recente boletim do Imea de custo de produção para a safra 2015/16 aponta R$ 3.013,57 a um câmbio utilizado no cálculo de US$ 3,22. Isso significa US$ 942 por hectare, ou seja, o custo em dólar caiu 9%, mas a soja em dólar caiu 20%.

Apesar do custo em dólar ter ficado mais baixo, com o preço da soja bem abaixo dos preços da safra anterior, o produtor terá que colher no mínimo cinco sacas a mais para pagar os custos em relação à safra anterior. Já o produtor que toma custeio em reais desembolsará uma saca a mais de custo, considerando o cenário atual. A rentabilidade da safra anterior já era apertada. Agora, o cinto apertou mais ainda.

Mas chorar não vai resolver, é preciso enxugar custos possíveis, estar atento ao manejo da lavoura, afinal, os defensivos podem perfazer 30% dos custos, algo jamais visto. Sendo assim, pesquise, consulte e racionalize. Não dá para seguir uma receita pré-estabelecida, é preciso monitorar a lavoura, usar o produto certo na hora certa. Esta safra não irá admitir erros. Quem errar ou não fizer o manejo certo poderá se ver com problemas.

Busque produtividade para compensar o preço e, acima de tudo, esteja atento ao mercado, pois nem todo mundo acredita nos relatórios do Usda. Afinal, nele há estimativas e margens de erros. Sendo assim, qualquer notícia pode trazer o mercado a cenários melhores. E é hora de garantir médias de preços. Aqui no Brasil não temos seguro para o produtor, só para banco. Portanto, boa sorte a todos nós e que Deus seja mesmo brasileiro.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT