Na Hora H

 

A GRANDE DÚVIDA DO PRODUTOR BRASILEIRO

ALYSSON PAOLINELLI

Que estamos em crise, ninguém duvida. Que desta vez a crise não é só econômica, também ninguém duvida. Pela primeira vez a crise é econômica, política, moral, ética, cívica e tudo mais que se possa pensar. O barco Brasil, desta vez, entrou em um mar revolto, sem leme, sem motor, sem velas, entrando água por todos os lados e, o pior, sendo levado na direção do rochedo a toda velocidade dos ventos que provêm de um verdadeiro tufão. Nesse barco estamos todos nós, mais de 200 milhões de brasileiros, que graças aos seus recursos naturais começaram a sonhar que poderiam um dia ser um país forte, rico e desenvolvido para todos. Chegamos até a ser classificados pela comunidade internacional como um “país emergente”.

No entanto, de uma hora para outra, sem que ninguém desejasse, a coisa se complicou, as esperanças começaram a ser substituídas pelo medo e hoje só se fala em falta de recursos, inflação, desemprego, mercado caindo, consumo se reduzindo, queda de produção da indústria, redução nos serviços, balança comercial em queda. As grandes manchetes que levaram o nosso país à categoria de emergente sumiram, e agora o que se vê, se ouve e se comenta é só mensalão, Lava-Jato, roubo, safadeza, calúnias, delações premiadas ou não, projetos falidos ou parados, mentiras, acusações levianas ou não, um sem número de mensagens avassaladoras que conturbam o nosso País.

Grande parte dessa população que está neste mesmo barco, quase 5 milhões de produtores rurais, fica diante de uma verdadeira perplexidade, uma dúvida sem fim. Perguntam? Em que barco estamos? Por que isto tudo está acontecendo? Seremos nós os responsáveis? Estão nos acusando. De quê? Seremos nós os causadores de tudo isto? Qual a nossa culpa? O que estamos fazendo de errado? Na iminência de um desastre, todos se reúnem e entre si procuram entender o que se passa. Onde estamos errando?

Foi quando na iminência de uma crise financeira para o País que, nas décadas de 1960 e 1970, não se conseguia produzir os alimentos que se consumiam. Mas nós fomos buscar no conhecimento, na Ciência & Tecnologia, as inovações que necessitávamos para aprender a usar os nossos biomas tropicais e torná-los tão ou mais produtivos e sustentáveis que os tradicionais em uso há 4 mil anos no mundo? Será que erramos quando entre 1980 e 2000 conseguimos incrementar, pela tecnologia por nós desenvolvida, uma produtividade que nos possibilitou reduzir em 70% o preço dos alimentos aos consumidores, e que garantíssemos que os brasileiros consumissem os alimentos mais baratos do mundo?

Se nas décadas de 1960 e 1970 a família média gastava de 42% a 48% de toda a sua renda em alimentação, duas décadas depois gasta apenas de 14% a 18% de sua renda com os alimentos. Será que foi aí o nosso erro? Ou o nosso erro foi permitir que paladinos demagogos e populistas enganadores se apoderassem desse feito para iludir eleitoralmente os incautos conterrâneos que foram os seus programas os milagreiros da mudança no regime alimentar de cada brasileiro?

Tomem cuidado, caros conterrâneos, que os mesmos erros e safadezas desses arautos estão paulatinamente levando o preço dos alimentos a subirem novamente pelo efeito de juros exorbitantes e tributos infindáveis. Não só de forma direta, mas também indireta. Erros de visão nos mercados internos estão fazendo o caminho inverso das duas décadas do último século, e obrigando as famílias médias de algumas regiões a pagarem até 30% de suas rendas em alimentação.

Estamos em dúvida. Será que devemos continuar a desenvolver os sistemas de manejo dos nossos biomas tropicais, e com nossa inteligência e capacidade aprendermos a manejá-los sem degradar os fabulosos recursos naturais que eles detêm: o solo, a água, as plantas, os animais e o clima? É bom lembrar que estamos sendo a esperança de um mundo que caminha para seus 9 bilhões e 700 milhões de habitantes e que, se não contarem com os alimentos provindos das áreas tropicais do globo, irão sucumbir pela fome.

Onde está o nosso erro? Será que não somos capazes de convencer aos outros viajantes deste barco que a solução pode não estar só na agricultura brasileira, mas é por ela que se passa o caminho e a direção que hoje não temos. A solução, é lógico, não está só na nossa agricultura tropical que desenvolvemos. Ela está principalmente na nossa capacidade de saber escolher na nossa democracia aqueles que sejam capazes de levar de forma séria, honesta e inteligente a governança desta nave tão importante, não só para nós brasileiros, mas, hoje, indiscutivelmente, para toda a humanidade, que espera um futuro mais promissor para todos nós.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura