O Segredo de Quem Faz

 

O trabalho que faz uma lavoura CAMPEÃ

Denise Saueressig [email protected]

O vencedor do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja da safra 2014/2015 é um recordista. O rendimento obtido na área inscrita no concurso promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) alcançou a maior marca desde a primeira edição, na safra 2008/2009. O produtor e engenheiro agrônomo Alisson Alceu Hilgemberg conseguiu colher, em trabalho conjunto com o pai, Vilson Hilgemberg, 141,79 sacas por hectare (8.507,4 mil quilos) na área inscrita.

Além de estar bem acima da produtividade média da lavoura brasileira, estimada em torno de 50 sacas por hectare, o número dos produtores de Ponta Grossa/PR cumpriu (e com folga) a meta estipulada para o Desafio deste ano, de pelo menos 120 sacas por hectare. Nesta entrevista, Alisson conta que os bons resultados na lavoura da família vão além do concurso e explica como trabalha para atingir a média de 100 sacas por hectare.

A Granja - Como teve início a história da sua família com a agricultura e qual é a estrutura de produção atualmente?

Alisson Hilgemberg – Meu bisavô já era pequeno produtor, trabalhava com agricultura de subsistência. Meu avô seguiu esse caminho e, em 1975, a região de Ponta Grossa/PR começou a receber a mecanização e o cultivo da soja. Em 1978, meu pai se formou como técnico agrícola e começou a trabalhar com meu avô. Aos poucos, eles foram ampliando o plantio da soja. Eu estudei Agronomia na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e comecei a trabalhar com meu pai em 2008. Hoje ele cuida mais da parte financeira e eu, da parte técnica.

Nossa família tem três fazendas na região e uma área cultivada de 1 mil hectares. Na safra de verão normalmente plantamos milho, soja e feijão, mas na próxima safra será apenas soja, em 610 hectares, e o restante da área será com feijão. Nesta safra não vamos cultivar o milho porque o cereal está em um momento de retorno financeiro muito baixo devido à alta nos custos de produção. No inverno, fazemos plantio de cobertura com aveia-preta.

A Granja – Como vem acontecendo a evolução dos rendimentos nas áreas cultivadas com soja?

Hilgemberg - Quando a família começou a cultivar a soja, no final da década de 1970, o rendimento ficava em torno de 40 sacas por hectare. Hoje nossa produtividade média é de cerca de 90 sacas por hectare. Há 20 anos percebemos o primeiro salto de produtividade, para em torno de 60 sacas por hectare. Passamos a utilizar variedades adaptadas e indicadas à nossa região e trabalhar melhor a adubação, com o uso de micronutrientes. Quando comecei a trabalhar com meu pai, em 2008, as médias já estavam em torno de 70 sacas por hectare.

Começamos a utilizar as ferramentas da agricultura de precisão e modificar os sistemas de adubação e de correção do solo. Assim, conseguimos incrementar para 82 sacas por hectare e, agora, para 90 sacas por hectare. Esperava superar as 100 sacas na safra 2014/2015, mas na época do enchimento de grãos, em meados de janeiro e fevereiro, tivemos chuva durante 16 dias, e a planta sentiu a carência de luz. Tivemos peso de grão 15% menor do que a safra anterior. Mesmo com mais vagens por planta e mais plantas por metro quadrado, o peso foi inferior. Também tivemos ocorrência da lagarta-falsa-medideira, o que ajudou a afetar o rendimento.

A Granja – Além das tecnologias da agricultura de precisão, quais foram as outras práticas que colaboraram para incrementar a produtividade?

Hilgemberg - Um conjunto de práticas nos ajudou. O uso do plantio direto durante mais de 30 anos nos proporcionou a base para o trabalho. A resposta rápida veio porque já tínhamos a base sendo desenvolvida há bastante tempo. Mas com a agricultura de precisão passamos a utilizar a dose certa de adubos no lugar certo. Em 2009, adquirimos uma colheitadeira com um monitor de produtividade e, graças ao equipamento, observei que havia picos de produção bem diferentes entre os talhões. Meu pai questionou o motivo para isso estar acontecendo e eu falei a ele: “É uma boa pergunta, vamos ter que pesquisar, com a ajuda da análise do solo”.

A partir daí, tentamos corrigir os problemas e fazer a adubação diferenciada para padronizar a terra. Faz seis anos que trabalhamos para deixar o terreno o mais homogêneo possível. Além da colheitadeira que monitora a produtividade, a plantadeira faz a adubação em taxa variável e a distribuidora de sólidos também trabalha com taxa variável. Completo todo o ciclo da agricultura de precisão trabalhando ainda com um software que faz a verificação dos dados e gera os mapas da área.

A Granja - Quais foram as principais conclusões obtidas nas áreas com menor produtividade?

Hilgemberg – Em uma das fazendas, identifiquei problemas com a aciacidez do solo, ou seja, faltava calcário. Em outra fazenda, onde a produção era maior, o solo estava bem equilibrado e foi o ponto de partida para eu buscar a uniformidade. Nessa época, tínhamos pico de 5 mil quilos por hectare em determinados talhões, mas em algumas áreas produzíamos 1 mil quilos por hectare, como as áreas de bordadura, que sofrem com o sombreamento e com a maior incidência de pragas que vêm do mato. Mas hoje, seis anos depois de trabalhar com a agricultura de precisão, consigo 5 mil quilos por hectare na bordadura e no meio da área chego a até 9 mil quilos.

Então, tenho nas bordaduras o que conseguia antes no meio das áreas. Mas mesmo assim não consigo 6 mil quilos de média, que é o meu objetivo de produtividade. Além da acidez, também notamos algumas áreas com pouca matéria orgânica no solo. Uma das razões para isso era que o nosso plantio direto não estava sendo feito de uma forma muito criteriosa. No inverno meu pai costumava passar a grade na terra, prática que consegui mudar nos últimos seis anos, para garantir o revolvimento mínimo do solo.

Meu pai acabou utilizando a grade por opção econômica, mas é uma prática que pode acarretar perda de propriedades do solo e erosão. Agora, para aumentar os índices de matéria orgânica, antes da safra de verão fazemos adição de nutrientes, com o uso do adubo orgânico feito com esterco animal. Utilizamos de acordo com as informações dos mapas de produtividade e, assim, ainda conseguimos redução de custos. O cálculo é que a adubação química nos custaria três vezes mais. Hoje usamos 90% de adubo orgânico e apenas 10% de químico. Será a terceira safra com esse manejo.

A Granja - Quais são as outras práticas que você considera essenciais para o incremento da produção?

Hilgemberg - Posicionamento da variedade na época correta, população correta de plantas, tratos culturais, ou seja, práticas de manejo que todo mundo conhece, mas nem todos fazem. A nossa semente é uma variedade transgênica de ciclo precoce. A semente sempre passa por inoculação e tratamento com fungicida, inseticida, micronutrientes e enraizador. É importante plantar na época certa, com a umidade adequada do solo e fazer o uso de defensivos de forma racional, quando necessário. Também procuro seguir o Manejo Integrado de Pragas (MIP). O inverno cada vez menos rigoroso impede a quebra do ciclo dos insetos, o que vem aumentando os problemas com as lagartas. Mesmo assim, só utilizamos inseticidas quando é preciso. Em relação a doenças, agimos preventivamente, porque quando a ferrugem aparece, não há muito mais para fazer.

A Granja – Como foi feita a preparação para o Desafio do Cesb? Você já havia participado do concurso no ano anterior, certo?

Hilgemberg – No ano passado ficamos em terceiro lugar no Brasil, segundo no estado do Paraná e primeiro no município de Ponta Grossa, com uma produtividade de 109,5 sacas por hectare. Este ano, conseguimos colher 141,79 sacas por hectare em uma área de 4,95 hectares. Não fizemos nada de diferente no talhão inscrito para o Desafio, apenas separamos as áreas que produzem mais, de acordo com as informações obtidas com o monitoramento da produtividade.

Inscrevemos a área que sabíamos onde o solo era mais produtivo e utilizamos a mesma semente usada normalmente. Também estamos fazendo um revezamento entre as propriedades. No ano passado inscrevemos uma área da fazenda Conquista, este ano, foi da São Jorge e, no ano que vem, será da Palmeira. Já estamos pensando em fazer alguma coisa diferente para o próximo Desafio.

A Granja - A produtividade média da soja no Brasil avançou pouco nos últimos anos. Na sua opinião, por quais razões isso acontece?

Hilgemberg - Acho que em primeiro lugar vem o uso de variedades adaptadas. Não adianta plantar uma semente cultivada por outro produtor e não avaliar se aquela variedade é adaptada à altitude, ao local, à época do plantio, ao tipo de correção do solo. Isso tudo influencia, acredito que 10% da produtividade passam por esse fator. Também vimos o uso de subdoses de defensivos, em função de economia. Ou então, o produtor usa um produto caro, na dose certa, mas de forma atrasada. Acredito que usar o defensivo mais barato da forma correta é melhor do que usar o produto mais caro na hora errada.

O uso equivocado também provoca resistência. São fatores que afetam o rendimento, assim como o clima, onde o produtor não tem influência. No Rio Grande do Sul, a cada dois ou três anos, tem quebra em função do clima. Isso tudo afeta a média do Brasil. As novas fronteiras agrícolas ainda têm poucas variedades adaptadas e muita coisa para evoluir. O produtor acaba perdendo para lagarta, mato ou doença.

Tem fatores que ajudam o agricultor a produzir, mas também há muitos fatores que ajudam a reduzir a produção. No concurso do Cesb vimos que há condição de igualdade, pelas produtividades parecidas dos campeões, bem acima da média. Isso mostra que temos tecnologia em todas as regiões do País, só que as médias de todas as regiões são baixas. Muitas vezes também há a influência do capital. O Brasil tem muitos pequenos pequenos produtores que ainda não têm uma correta assessoria, ou seja, a tecnologia não chega ou demora a chegar. Temos muito para crescer e melhorar.

A Granja - Quais são as suas perspectivas para a safra 2015/2016? Diante da alta nos custos de produção, quais medidas estão sendo tomadas para manter a rentabilidade?

Hilgemberg – Para a próxima safra percebemos uma alta entre 25% e 35% nos custos de produção. Até o adubo orgânico, que tem aumento de demanda, teve o custo elevado. Em relação a preços, na última safra nossa média de venda foi de R$ 68 a saca. Agora, estamos de olho nas cotações e no dólar. Hoje sabemos que os preços variam entre R$ 77 e R$ 80 a saca na região.

Com a alta produtividade conseguimos blindar a nossa rentabilidade. Estamos expostos a acontecimentos internacionais, então precisamos focar no nosso trabalho e aumentar a produtividade. Sabemos que precisamos fazer mais na mesma área. A terra na nossa região é caríssima, um hectare tem preços em torno de R$ 50 mil ou R$ 60 mil. Então, é fundamental continuar batalhando pela produtividade. Nós trabalhamos para atingir no mínimo 100 sacas por hectare. Ganhar concurso é muito bom, coroa nosso trabalho, mas queremos mesmo é aumentar a nossa média.