Eduardo Almeida Reis

 

LAREIRAS

Frio danado. Aqui em casa e em boa parte do Brasil tiritamos de frio no inverno, pouco importa o que digam nas tevês sobre o El Niño as moças do tempo. Clima é o tipo do assunto que interessa a todos nós. Pena que as moças não acertem uma previsão. Suas intervenções nas telinhas deveriam chamar-se imprevisão do tempo, antônimo de previsão.

Tem gente que gosta do frio e gente que adora o calor, meu caso, respeitados certos limites. No início de 2015, consegui sentir calor durante duas semanas, temperatura que andou acima da minha zona de conforto térmico. No dia em que componho estas bem traçadas a temperatura está muito abaixo da minha zona de conforto. Em rigor, pede lareira que não tenho como instalar aqui no apê. Morei quatro anos em uma serra tão fria, que ocupava lareira acesa dia e noite durante nove meses. Se há lenha boa e abundante, lareira acesa é uma delícia.

O verbo crepitar, entrado em nosso idioma antes de 1580, só é lembrado diante do fogo que crepita na lareira, assim como o substantivo genitália, que só tem curso durante o Carnaval. Lenhas variam. De eucalipto são ótimas, de quaresmeiras produzem fogo frio e levam um tempão para acender. Amigos residentes em Orlando, na Flórida, me dizem que a lenha vendida por lá vem aos pedaços, ensacada em papel. Você bota o saco na lareira e acende o papel. Esquenta o ambiente, mas dura poucas horas.

Sou craque em lareiras, estudei o assunto em uma porção de livros, morei muitos anos em casas rurais com fogão a lenha e só agora aprendi, ajudado pelos cientistas dinamarqueses, que o fogão a lenha equivale ao consumo de dois maços de cigarros, por dia, para cada um dos moradores da casa. Um pouco mais para as mulheres do que para os homens, que ficam menos tempo dentro das casas.

Explico: você nunca fumou um cigarro, mas sempre residiu em uma casa que tem fogão a lenha. Por isso, fumou dois maços por dia desde o dia em que nasceu. Presumo que as consequências das lareiras sejam iguais ou piores, sem olvidar o fato de que casa com lareira e fogão a lenha tem dois fogos crepitando. Compete à ciência explicar se lareira e fogão equivalem a quatro maços fumados por dia.

Diz a matéria do Estadão que 50% das mortes por poluição no Brasil têm relação com o uso do fogão de lenha. No planeta, três bilhões de almas usam a combustão da lenha e do carvão para cozinhar. O nome do perigo é PM2.5, partículas minúsculas, equivalentes a 2,5 mícrons (milionésimos de milímetros). A partir daí, os cálculos são complicados, incluem casas que têm fogão a lenha sem chaminé, com chaminé, cidades em que os níveis gerais de poluição variam de mínimos a muito altos, estudos feitos pelo pesquisador Ricardo Teles, da Universidade de Aalbrog, na Dinamarca, e as situações mais sérias foram anotadas na Índia (700 milhões de pessoas queimam combustível para cozinhar) e nos países da África subsaariana. No Brasil, 96% das residências têm fogões a gás, média que cai para 93% no Norte e para 91% no Nordeste.

Quando andei estudando os gados da Índia e do Paquistão, li que milhões de indianos usavam esterco seco para cozinhar.

Vista de longe, a sacralização das vacas no subcontinente indiano parece besteira ou exagero religioso, mas foi medida genial para que o povo continuasse tendo esterco (para cozinhar), leite e ghee, um tipo de manteiga clarificada, feita com leite de vaca ou de búfala, muita usada na culinária local. É considerada gordura mais saudável que a manteiga e suposta de beneficiar a saúde do consumidor.

O Google tem mais que 12 milhões de entradas para ghee ou ghi – muitas delas com receitas que você pode fazer em casa, de preferência em um fogão a gás, antes de voltar para a poltrona diante da lareira para curtir o crepitar do fogo pensando nas boas coisas da vida.

Queijos, vinhos tintos, pães, amores, livros – quando são bons justificam o nosso filosofar. Deixemos a pesquisa séria e preocupante por conta da Universidade de Aalbrog e da Copenhagen Consensus, ONG dinamarquesa que procura soluções baratas para problemas globais.

Se a pessoa não morrer de PM2.5 morre de outra coisa, às vezes mais depressa, como aquele diretor do Google que tentava escalar o Everest quando ocorreu o terremoto de Katmandu. Portanto, há que aproveitar a vida enquanto é possível e uma lareira com boa tiragem e boa lenha é bela pedida.