Agricultura Familiar

 

FERTILIZANTE natural, de qualidade e sem custo

Dr. Ivo de Sá Motta, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, [email protected]

É totalmente possível aproveitar recursos locais da propriedade rural (ou até mesmo em residências urbanas) dando destinação adequada e por meio da compostagem e vermicompostagem. Essas duas técnicas reduzem custos, além de serem tecnologias de fácil adoção e para produção de insumos na propriedade agrícola. São processos biológicos utilizados na transformação de resíduos de origem animal e vegetal em insumos agrícolas de excelente qualidade.

A compostagem é a preparação de adubo orgânico, ou composto, a partir de resíduos vegetais e animais, maneira eficiente de aproveitamento de palhas, estercos e restos de alimentos

A compostagem nada mais é do que a preparação de adubo orgânico, ou composto, a partir de resíduos vegetais e animais. É uma maneira eficiente de aproveitamento de palhas, estercos, camas de criações, restos de alimentos, entre outros. Esses materiais são decompostos por microrganismos (fungos, bactérias, actinomicetos entre outros) na presença de ar e transformados em húmus, ou melhor, húmus + matéria orgânica em humificação.

O composto orgânico contribui expressivamente para a melhoria da fertilidade do solo, pois, além de fornecer nutrientes para as plantas, vivifica o solo (fornecendo nutrientes e energia para os organismos benéficos do solo), melhora a infiltração e o armazenamento de água e a aeração do solo, entre outros. Dessa forma, podemos dizer que o “composto” melhora os atributos químicos, biológicos e físicos do solo.

A compostagem é uma prática altamente compensadora, especialmente para hortas, pomares, ervas medicinais e condimentares, entre outras, em cultivos mais intensivos, de maior retorno econômico. Os materiais utilizados na elaboração do composto são na maior parte obtidos dentro da propriedade, portanto, de custo relativamente baixo. Se não tivermos equipamentos como trator com carreta, pá carregadeira e/ ou composteiras para a preparação do Dr. Ivo de Sá Motta, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, [email protected] Ivo de Sa Motta composto, a operação poderá ser realizada manualmente com carrinho de mão, forcados ou gadanhos, curvos e retos (garfos).

Para a produção de composto, devese escolher o local, a pleno sol ou semisombreado (árvores esparsas) e não sujeito a encharcamento, com disponibilidade de água (para irrigação da pilha ou meda), fácil acesso e próximo aos cultivos. Nessa área são depositados os resíduos orgânicos (como palhas e estercos) para a montagem das pilhas.

Como fazer — Na montagem das pilhas, de formato trapezoidal, a dimensão final deve ser de dois metros de largura da base; 1,5 metro de altura e comprimento variável. Alternar camadas de materiais palhosos, de alta relação carbono/ nitrogênio; com materiais mais ricos em nitrogênio, como estercos, camas de criações, restos de alimentos, entre outros, de baixa relação C/N; na proporção de 3:1, em camadas com espessura de 30 centímetros de palhas com camadas com dez centímetros de esterco. Quanto maior a relação C/N, mais tempo demora para o material se decompor. Quanto mais variados e mais picados (fragmentados) estiverem os componentes usados, melhor será a qualidade do produto final e mais rápido será o término do processo. Recomenda-se que materiais utilizados sejam triturados com tamanho máximo de seis centímetros.

Cada camada deve ser irrigada até atingir 50% a 60% de umidade (ao apertar o material na palma da mão com pressão média, começa a formar água, mas não chega a escorrer). É necessário um contato íntimo entre os materiais utilizados nas camadas, porém, a pilha não pode ser compactada, pois os microrganismos decompositores necessitam de aeração. Para enriquecimento do material , é possível adicionar nutrientes de origem mineral, tais como fosfato natural ou termofosfato magnesiano na quantidade de 1%. Para proteger a pilha das chuvas e raios solares, cobri-la com palha como cobertura.

Após aproximadamente dez dias, a pilha começa a esquentar, e em condições normais atinge 60/70°C (com uma barra de ferro de construção com comprimento de 70 centímetros, enfiar na pilha para verificação da temperatura). O aquecimento da pilha é indicativo da atividade dos microrganismos que liberam energia na forma de calor durante a decomposição. Geralmente, é necessário revirar a pilha a cada 15 dias, repetindo três vezes, para agilizar e melhorar o processo, corrigindo a umidade, a temperatura, a aeração e a uniformização dos materiais. Manualmente, para montar e revirar a pilha, utiliza-se o forcado reto e curvo. Dependendo dos materiais utilizados, pode-se obter o produto pronto com mais ou menos 90 dias.

O aspecto do produto final é o seguinte: cor escura marrom-café, cheiro agradável de terra de mato, aspecto “gorduroso” e consistência friável. Depois de pronto, o composto deve ser utilizado em seguida, ou então armazená- lo protegido do sol e da chuva. Dependendo da exigência da cultura, da condição do solo e da composição do composto, pode-se utilizar, em média, entre três a oito quilos por metro quadrado de canteiro na horta, 10/20 quilos por cova no plantio de espécies frutíferas e de 10/30 quilos por planta na superfície do solo como adubação de manutenção de pomares, dependendo da espécie, idade e produtividade. Para informação mais precisa, é necessário fazer análise química do solo e do composto e a recomendação de adubação é feita por um engenheiro agrônomo.

Vermicompostagem — A vermicompostagem é o processo de produção de adubo orgânico a partir de resíduos orgânicos vegetais e animais por meio da ação de minhocas Eudrilus eugeniae (Gigante Africana) ou Eisenia andrei (Vermelha da Califórnia) de forma ágil e com baixo custo. Para um bom resultado, recomenda-se seguir as seguintes etapas:

  • Fazer enleiramento dos resíduos com 70 centímetros de largura; 0,50 centímetro de altura no ápice (forma abaulada); comprimento variável; espaçamento de 0,30 a 0,40 metro entre leiras e irrigar durante 15 dias, mantendo a umidade em 50% a 60% no período de pré compostagem;

  • Colocar as minhocas na quantidade de 0,5 a quilo por metro cúbico;

  • Irrigar as leiras mantendo a umidade de 60% a 70% com tripa de irrigação;

  • Proteger as pilhas das aves e do excesso de calor com túnel baixo com telas sombreadoras (quando necessário);

  • Realizar o peneiramento e ensacamento do húmus após 50 a 60 dias.

O húmus de minhoca (produto da vermicompostagem) proporciona os mesmos benefícios do composto orgânico. Esses dois produtos, além de serem utilizados como adubo orgânico, servem também para o uso como substrato na produção de mudas e como matéria-prima para a fabricação de húmus líquido.

Mais sobre húmus líquido: www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/ bitstream/doc/865962/1/ base.ecologicahumus.pdf Mais sobre compostagem: www.embrapa.br/agrobiologia