Fitossanidade

 

Eficiência das CROTALÁRIAS no enfrentamento de nematoides

As plantas são apenas mais uma ferramenta a ser utilizada em um programa de manejo contra os nematoides. Assim como o efeito da espécie de crotalária difere conforme a espécie do nematoide

Rosangela A. Silva, nematologista da Fundação MT

Plantas de soja cultivadas em áreas mantidas com Crotalaria spectabilis na entressafra (janeiro a agosto) e infestadas com nematoides das espécies P. brachyurus e M. javanica

Ogênero Crotalaria contém cerca de 500 espécies e algumas têm se mostrado como relevante opção de manejo de fitonematoides em culturas extensivas. Isso se deve a três fatores apresentados pela planta: primeiro, o fato de algumas espécies permitirem a penetração de juvenis de nematoides, mas não seu desenvolvimento. Segundo, a planta produz metabólitos secundários, principalmente os alcaloides pirrolizidina e monocrotalina. Esses alcaloides exercem efeitos negativos sobre a população de nematoides do solo. E, terceiro, alguns trabalhos mostram que a incorporação de algumas espécies de crotalária aumenta a população de fungos predadores de nematoides e outros microrganismos do solo.

As espécies de nematoides mais comuns nas culturas extensivas de Mato Grosso são o nematoide do cisto (Heterodera glycines), os nematoides das galhas (Meloidogyne ingonita e M. javanica); o nematoide das lesões (Pratylenchus brachyurus) e o nematoide reniforme Rotylenchulus reniformis. A espécie de nematoide mais frequentemente encontrada em lavouras de soja e algodão é P. brachyurus. Essa espécie começou a configurar como problema na safra 2002/03, e em levantamento realizado por Ribeiro et al (2010) ocorreu em 96% das amostras coletadas.

Apesar de todas as dificuldades de manejo trazidas por Pratylenchus brachyurus, a espécie obrigou os produtores a mudar as práticas de manejo e a inserir as crotalárias no programa, a qual atualmente é uma das efetivas. Essa prática é utilizada em sucessão ou rotação e as espécies mais utilizadas são as Crotalaria spectabilis, C. ochroleuca e C. breviflora. Trabalhos experimentais demonstraram que são resistentes a P. brachyurus, ou seja, o nematoide não é capaz de se alimentar de suas raízes. Como consequência, o nematoide morre sem conseguir se reproduzir. Quanto mais tempo os adubos verdes forem mantidos no local, maior será seu efeito e, portanto, maior a redução populacional do nematoide.

Área com Crotalaria spectabilis infestada com plantas daninhas: como não há herbicidas seletivos à crotolária, a prática recomendada é o uso de préemergentes

Para o nematoide das galhas Meloidogyne javanica, as crotalárias que mostraram maiores eficiências no manejo foram a Crotalaria gratiniana, C. breviflora, C. spectabilis e C. striata. As Crotalaria juncea e C. ochroleuca têm mostrado menos eficácia que as demais. Com relação a Crotalaria ochroleuca, Rosa et al (2013) mostrou que o fator de reprodução foi de 1.78, e comprovando esse resultado, um produtor na região de Nova Mutum/MT utilizou essa espécie de crotalária e a soja foi plantada na sequência. Como não houve redução da população de nematoide, as plantas de soja estavam piores que na safra anterior, com plantas de porte reduzido e algumas plantas mortas, inclusive a produtividade foi de cerca de 35 sacas/hectare.

Para M. incógnita, alguns trabalhos mostram que algumas espécies de crotalárias não multiplicam o nematoide e outras classificam a maioria das crotalárias como más hospedeiras. O que é consenso na maioria dos trabalhos é que as Crotalarias spectabilis e C. breviflora não são hospedeiras de M. incognita.

Para o nematoide Rotylenchulus reniformis, as Crotalarias breviflora, C. mucronata, C. spectabilis e C. striata são plantas não hospedeiras do nematoide, e a C. juncea é classificada como má hospedeira. Em trabalho realizado em uma área infestada com o nematoide é possível verificar diferença no desenvolvimento das plantas (altura e maior engalhamento) de algodoeiro cultivar Fibermax 975, cultivadas em áreas que passaram por rotação com C. spectabilis, quando comparadas com as que permaneceram com algodoeiro todos os anos.

Diferença: desenvolvimento da soja sobre parcelas que passaram por Crotalaria breviflora em rotação (esquerda) e sobre parcelas que não receberam rotação

O efeito das crotalárias para o nematoide do cisto ainda é pouco estudado, pois dentro da espécie Heterodera glycines, no Brasil, existem 11 raças e o comportamento com relação às espécies de crotalária, aparentemente é diferente. Em trabalho realizado por Valle et al (1996) utilizando a raça 3 do nematoide, a C. juncea mostrou suscetibilidade e outro trabalho realizado por Schwan 2003, com a raça 10, o autor afirma que a C. juncea é resistente e a C. ochroleuca foi considerada má hospedeira. O que é consenso nos dois trabalhos é que as C. spectabilis, C. paulinia e C. striata, são resistentes.

As C. spectabilis, C. breviflora e C. ochroleuca foram utilizadas em uma área infestada com P. brachyurus, M. javanica e Heterodera glycines no município de Alto Garças/MT e as três espécies de crotalária foram mantidas no período de outubro a março e se mostraram eficientes para redução da população dos nematoides, quando comparadas às parcelas que foram mantidas com soja ou com milho (Tabela).

As parcelas de soja mantidas sobre as parcelas que receberam as crotalárias no verão não apresentaram amarelecimento e redução no tamanho das plantas, e nas parcelas que não entraram em rotação, a soja apresentou amarelecimento e redução no porte das plantas.

Ações prévias — Antes da tomada de decisão pela aplicação dos métodos de manejo e/ou do controle de nematoides, as seguintes ações prévias devem ser tomadas: identificação da(s) espécie(s); reconhecimento dos sintomas apresentados pelas plantas e acompanhamento da evolução desses sintomas (em especial de eventuais perdas de produtividade); e determinação das densidades populacionais. Além do conhecimento sobre as espécies de fitonematoides e das melhores espécies de crotalárias a serem utilizadas no manejo dos fitonematoide, outro ponto muito importante é a ausência de plantas daninhas ou mesmo plantas tiguera de soja em meio às plantas de crotalária. Essas plantas multiplicam alguns nematoides e diminuem a eficiência do manejo.

Como não há herbicidas seletivos à crotalária, a prática mais eficiente é o manejo com produtos pré-emergentes. Porém, é comum áreas com crotalárias infestadas de daninhas. Nesse caso não há redução da população dos nematoides devido à quantidade de daninhas hospedeiras, multiplicando os nematoides problema.

Portanto, o manejo de fitonematoide impõe elevados custos pela necessidade de mudança no sistema de produção. O uso das crotalárias, até o momento, está entre as práticas mais efetivas. Porém, é apenas uma ferramenta e deve ser utilizada dentro de um programa de manejo, pois, apesar da eficiência dessa planta na redução da população dos nematoides, elas não podem ser mantidas como ferramenta única, pois problemas serão selecionados para essa cultura.