Soja

 

Como deve ser o manejo para altos RENDIMENTOS

As altas produtividades de soja dependem de um conjunto de fatores, como opção pelas melhores cultivares e solos com adequadas propriedades físicas, químicas e biológicas, a utilização das modernas tecnologias, entre muitas outras condições. O produtor deve pensar sempre no sistema de produção como um todo

Eng. Agr. Elmar Luiz Floss, Dr. em Agronomia, professor e diretor do Instituto Incia, [email protected]

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que até 2050 a produção mundial de soja deve passar dos atuais 300 milhões para 600 milhões de toneladas, para atender o crescimento de 50% a 60% da demanda mundial de alimentos. Significa um aumento de 70% no rendimento da cultura, um aumento de 20% na área cultivada e uma redução de 10% nas perdas na colheita, transporte e armazenamento de grãos.

O rendimento médio da soja no Brasil é de aproximadamente 50 sacas/hectare, estagnado há vários anos, enquanto alguns produtores já colhem mais de 100 sacas/hectare. Para atender a previsão da FAO de aumento em 70% do rendimento da soja até 2050, a produtividade terá que chegar a 85 sc/ha, um crescimento médio de uma saca/hectare/ ano, a partir de 2015. Entre 1976 e 2014, o rendimento médio da soja no Brasil aumentou 45 kg/ha/ano.

Para obter altos rendimentos da soja, o manejo utilizado varia de cultivar para cultivar. É o resultado da interação de aproximadamente 53 fatores, relacionados com as características genéticas, das condições ambientais (clima e solo), do manejo/tratos culturais utilizados e de fatores internos/fisiológicos/hormonais de todos os processos fisiológicos envolvidos com o desenvolvimento e a produção de grãos, para expressão desse potencial.

Os componentes de rendimento da soja são o maior número de legumes/ vagens/área (o mais importante), do máximo número de grãos por legume/ vagem e do aumento da massa de grãos (melhor enchimento). Nas cultivares de hábito indeterminado, o número de legumes/ vagens depende, principalmente, do número de vagens por planta, através da maior ramificação lateral (aumento do número de nós por planta). Nas cultivares de hábito determinado de crescimento, o maior número de vagens depende do maior número de plantas por unidade de área.

De forma genérica, o aumento do potencial de rendimento depende dos fatores promotores e dos fatores mantenedores da produção. Os promotores são os mais importantes no planejamento da lavoura e envolvem a adoção de tecnologias como a escolha da cultivar (maior potencial de rendimento, melhor adaptada à cada região edafoclimática e época de semeadura), qualidade da semente, qualidade de semeadura (época, profundidade, espaçamento e densidade de semeadura), dessecação antecipada, adubação e correção racional do solo, disponibilidade de água, rotação de culturas, utilização do sistema de semeadura direta, dentre outras práticas. Os fatores mantenedores da produção têm a função de evitar as perdas do potencial de rendimento determinado pelos fatores promotores, como o controle adequado de moléstias, pragas e plantas daninhas.

Mudanças significativas ocorreram nos últimos anos nas características das cultivares de soja: redução da estatura de plantas e sistema radicular, folhas menores e lanceoladas, e uma redução de aproximadamente um terço no ciclo dos cultivares de maior rendimento. A genética chega na lavoura através das sementes, o único insumo vivo utilizado. É importante considerar o vigor da semente e não apenas o poder germinativo. Tratar as sementes com o melhor inseticida (em função das pragas que predominam em cada lavoura) e de fungicidas (em função dos patógenos necrotróficos existentes no solo e dos patógenos presentes nas sementes).

As condições climáticas não estão sob controle do produtor, sendo extremamente variáveis, principalmente influenciadas pelos efeitos dos fenômenos La Niña ou El Niño. Diante de condições climáticas instáveis, há necessidade da adoção de estratégias de manejo que minimizem esse risco, como a diversificação de culturas, diversificação de cultivares com diferentes ciclos, a diversificação em épocas de semeadura e o manejo do solo visando ao maior armazenamento possível de água na época das chuvas e menores perdas de água por evaporação (solos cobertos) e o estímulo ao crescimento radicular.

Solos — As condições de solo dependem das técnicas de manejo utilizadas, melhorando suas propriedades físicas (permeabilidade, aeração e retenção de água), químicas (saturação de bases acima de 70%, alta CTC, pH acima de 6 e alta disponibilidade de nutrientes) e biológicas. Quanto maior o rendimento, maior é a extração e a exportação de nutrientes do solo. A adubação racional é a diferença entre a necessidade da cultura (extração/exportação) e a disponibilidade de nutrientes no solo, multiplicado pelo fator de eficiência de absorção de cada fertilizante. A eficiência de absorção depende da disponibilidade de nutrientes e do volume de raízes.

O nutriente mais extraído pela soja é o nitrogênio, que varia conforme o rendimento de grãos, palha e do teor de proteína no grão (37% a 43%). Até 85% desse N a soja obtém através da fixação biológica do nitrogênio (FBN), realizado pelas bactérias do gênero Bradyrhizobium nos nódulos das raízes. Daí a importância de realizar, anualmente, a inoculação adequada das sementes e a adequada disponibilidade de molibdênio, cobalto, cálcio, magnésio, fósforo, enxofre e boro no solo. A FBN somente disponibiliza N para a soja a partir dos estádios V5-V6. Esse N passa do nódulo para planta de soja na forma de ureídios (alantoínas). Nas folhas, os ureídios precisam ser degradados até ureia, cuja reação depende de adequados teores de manganês. Aproximadamente 15% do N a soja absorve do solo. Além do N, é indispensável a disponibilidade adequada de fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre, bem como a relação Ca/Mg/K.

A viabilidade econômica da adubação com micronutrientes (via sementes, solo ou foliar) deve-se a várias razões: aumento do potencial de rendimento, calagem excessiva em superfície (pH acima de 6,4 nos primeiros dez centímetros), o uso de fertilizantes NPK sem micronutrientes por vários anos, a inibição temporária da absorção de micronutrientes com a aplicação de glifosato em pós-emergência (soja transgênica), a inibição da absorção de zinco pela aplicação de altas doses de fósforo na linha de semeadura, a deficiência hídrica (com exceção do molibdênio e do cloro, os demais micronutrientes são imóveis na planta, sendo dependentes da água para circular das raízes para as folhas), e a melhoria dos quelatos e coadjuvantes hoje disponíveis, que aumentou significativamente a eficiência de absorção foliar.

O uso de bioativadores/bioreguladores/ bioestimulantes tem apresentado resultados cada vez mais consistentes na busca de altos rendimentos. Os hormônios/reguladores vegetais são classificados em promotores (citocininas, auxinas e giberelinas) e inibidores (etileno e ácido abscísico). Os hormônios promotores promovem o crescimento de raízes, aumento da área foliar, da duração da área foliar verde e do teor de clorofila e de proteínas.

No entanto, qualquer estresse, biótico (incidência de pragas e moléstias) ou abiótico (déficit hídrico, calor excessivo, salinidade, raios ultravioleta, geadas, deficiência de aeração no solo devido a compactação ou saturação de água) e fitotoxidez promovem a síntese de hormônios inibidores do desenvolvimento, o etileno nas folhas, e ácido abscísico nas raízes. Assim, ocorre a degradação de clorofila e proteínas, o abortamento de flores e de legumes/vagens e a queda prematura de folhas, reduzindo a taxa fotossintética.

Conclui-se que altos rendimentos de soja dependem de um conjunto de fatores como a escolha das melhores cultivares, nos solos com adequadas propriedades físicas, químicas e biológicas, utilização das modernas tecnologias de manejo atualmente disponíveis e, quando as condições climáticas são as mais favoráveis. Por isso, o produtor não deve perder a visão do sistema de produção adotado na lavoura. Diagnosticar, em cada lavoura ou gleba, o fator limitante à obtenção de altos rendimentos. A rentabilidade é obtida considerando o conjunto de fatores envolvidos e não apenas os fatores isolados, por melhores que sejam. Em tempos de agricultura de (com) precisão não se pode deixar de considerar as práticas simples (visão integrada do sistema de produção).

Floss: “Para obter altos rendimentos da soja, o manejo utilizado varia de cultivar para cultivar, e é o resultado da interação de aproximadamente 53 fatores”