Orgânicos

 

Demanda sustenta o CRESCIMENTO

Oferta vai além dos alimentos comercializados em feiras, e produtores de grãos recebem até 50% a mais pelos orgânicos

Denise Saueressig [email protected]

O crescente interesse de consumidores por hábitos de vida mais saudáveis não deixa o mercado de orgânicos estagnar no Brasil. O mesmo pode ser dito da demanda internacional, na qual a procura por alimentos produzidos sem o uso de insumos químicos é ainda mais consistente. A principal oferta de orgânicos no País está ligada à agricultura familiar, que comercializa a produção por meio de feiras agroecológicas, cooperativas e iniciativas individuais. São produtores principalmente de frutas, legumes e verduras que trabalham amparados por empresas certificadoras e uma regulamentação específica do Governo.

Porém, o cultivo também abrange grandes culturas, mesmo que praticadas em pequenas propriedades. Lavouras como soja, milho, arroz e feijão têm espaço e mercado garantido. Na pequena Santo Antônio do Palma, no interior do Rio Grande do Sul, o produtor Alceo Primel aprendeu com os pais a essência da agricultura orgânica. Hoje, ele e os irmãos ensinam aos filhos os conceitos e as técnicas colocados em prática todos os dias na propriedade da família. “Também não deixei de me aperfeiçoar, fazendo cursos e buscando orientação”, conta.

Em 100 hectares, são cultivados legumes, frutas e vários tipos de grãos e cereais, como soja, feijão, trigo, milho, centeio e linhaça. A produção animal, que inclui rebanho leiteiro, frangos e suínos, ajuda a fornecer adubos fabricados por compostagem. Toda a produção é certificada pela Rede Ecovida de Agroecologia.

A soja ocupa em torno de 50 hectares da área e é mantida em um esquema de rotação com outras culturas no inverno. A incorporação de técnicas como a adubação verde e o plantio direto ajudam a incrementar a produtividade da lavoura, que passou de 40-45 sacas por hectare, há dez anos, para entre 50 e 60 sacas atualmente. “Aprendemos muito com o passar dos anos e as condições do solo melhoraram bastante”, relata Primel.

O milho também tem ótima produtividade, ao redor de 150 sacas por hectare. “A adubação verde é nosso principal insumo, porque mantemos a terra sempre coberta e evitamos os danos da exposição à chuva”, acrescenta. Pragas e doenças têm rara aparição nas lavouras, garante o produtor. E quando surgem, são combatidas com soluções biológicas, como as que existem para o controle de lagartas.

Valorização na venda — Os desafios do sistema orgânico, segundo Primel, são os riscos de contaminação por plantações transgênicas de propriedades vizinhas e a dificuldade para a obtenção de sementes. No dia a dia da lavoura, o grande diferencial em comparação com a produção convencional é a maior necessidade de mão de obra. Na propriedade, nove pessoas da família estão envolvidas com o trabalho no campo.

Além de aproveitar parte da produção para consumo próprio, a família comercializa alimentos em feiras, a cooperativas e empresas. Há seis anos, parte da produção de milho, trigo e soja é vendida para a Gebana Brasil, que tem sede em Capanema/PR. A empresa oferece uma remuneração diferenciada aos produtores orgânicos, que recebem entre 30% e 50% a mais em relação aos grãos convencionais. O valor final depende do produto, da qualidade e do status da certificação, que pode ser brasileira, europeia ou norte-americana. “Nossa rentabilidade varia muito. Como temos uma produção diversificada, os ganhos dependem do clima e do mercado a cada safra”, observa Primel.

Para o produtor, tão ou mais importante que o retorno financeiro é a segurança alimentar. “Sabemos que o que estamos consumindo está livre de qualquer insumo químico. E na hora de produzir, temos liberdade para agir, não somos reféns de uma determinada tecnologia”, destaca.

Produtor Alceo Primel, de Santo Antônio do Palma/RS: na propriedade da família, cultivo orgânico abrange 100 hectares

Mercado promissor — A Gebana Brasil tem 13 anos de atuação no segmento de orgânicos. Por ano, a empresa recebe 12 mil toneladas de produtos. Desse total, 8 mil toneladas são de soja. O volume restante é formado por milho, trigo, aveia, arroz e banana desidratada. “Também estamos trabalhando, em estágio inicial, com gergelim, canola e chia”, explica o gerente geral da Gebana, Jonathas Baerle. A maior parte dos grãos e cereais é comercializada in natura, mas também há o processamento da soja para a transformação em farelo, óleo e lecitina. Os consumidores diretos são institucionais, ou seja, outras empresas. O mercado interno absorve 30% da produção, enquanto o restante é exportado para Alemanha, França, Finlândia, Holanda e Suíça. A empresa emprega 26 funcionários e fatura R$ 25 milhões ao ano.

Em torno de 100 famílias de agricultores formam a cadeia de fornecedores da Gebana nos estados de Goiás, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e no Paraguai. Além da sede em Capanema, a companhia mantém unidades de recebimento no país vizinho, em Paranaguá/PR e em Assis/SP. Um armazém próprio garante a segregação no porto de Paranaguá. A projeção de crescimento do segmento de orgânicos motiva planos de exploração de novos produtos, tanto grãos in natura, quanto produtos finais, para venda direta ao consumidor, diz o gerente agrícola da Gebana, Marcio Challiol. “Na Europa existe ainda uma grande demanda, não atendida, e no Brasil é um mercado que vem se desenvolvendo com muita força”, avalia.

O desenvolvimento de tecnologias adequadas ao cultivo e que configurem um sistema de produção viável estão entre os principais desafios do setor, considera Baerle. “Iniciamos um trabalho nessa linha há cerca de cinco anos, junto com instituições de pesquisa e empresas nacionais e internacionais. Esse é um caminho sem fim e muito dispendioso, mas é o que nos motiva”, frisa.

Em ascensão — Ainda que a área de cultivo seja estimada em apenas 750 mil hectares, cresce no Brasil a adesão de produtores aos sistemas orgânicos. Segundo o registro mantido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015, o total de produtores com esse perfil passou de 6.719 para 10.194. As unidades de produção também aumentaram: de 10.064 para 13.323 nesse mesmo período.

Jonathas Baerle, da Gebana Brasil: empresa com sede no Paraná recebe 12 mil toneladas de produtos orgânicos por ano

A atualização, em 2011, da lei que regulamenta o setor e a demanda por alimentos mais seguros e saudáveis ajudam a justificar o avanço do mercado, considera o coordenador executivo do Projeto Organics Brasil, Ming Liu. “Há cerca de sete anos, a venda estava muito restrita a produtos in natura. Hoje aumentou a oferta de itens com maior valor agregado. Ao mesmo tempo, o varejo vem abrindo mais espaço para os orgânicos”, pontua.

A maior procura por parte do consumidor também é expressa nos números do faturamento do setor. É preciso considerar que o mercado é relativamente novo por aqui, mas o Brasil vem crescendo mais do que a média mundial, que tem taxas entre 11% e 13% ao ano. “Estamos amadurecendo”, define Liu. Com valor próximo de R$ 1,5 bilhão em 2013, o volume de vendas no País passou para R$ 2 bilhões no ano passado e poderá chegar aos R$ 2,5 bilhões em 2015. O mercado mundial é estimado em US$ 77 bilhões, sendo que os Estados Unidos representam US$ 39 bilhões; e a Europa, US$ 30 bilhões.

Criado em 2005 por meio de uma ação conjunta entre o Instituto de Promoção do Desenvolvimento (IPD) e a Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), o Organics Brasil iniciou seu trabalho com 12 empresas e exportações de US$ 9,5 milhões. No ano passado, o projeto encerrou com a participação de 60 empresas dos ramos de alimentos, cosméticos e têxteis, e vendas externas de US$ 136 milhões. A projeção para 2015 é chegar aos US$ 150 milhões. A estimativa é de que o programa responda por entre 70% e 80% das exportações de orgânicos do País. Os principais compradores dos produtos brasileiros estão nos Estados Unidos, na Alemanha, no Japão, no Canadá, na França e na Itália.

Com a demanda no exterior bem estruturada e o câmbio favorável para os negócios, o coordenador do Organics Brasil ressalta que é preciso prestar mais atenção ao mercado interno. “Podemos crescer muito mais se valorizarmos o diferencial da segurança alimentar e estipularmos, por exemplo, planos de fornecimento para escolas”, declara Liu. Educar o consumidor é o grande desafio, na opinião do dirigente. “Boa parte das pessoas tem a ideia de que é um produto inacessível por ter um custo mais alto, mas há um grande número de feiras em diferentes regiões do País onde é possível comprar diretamente do produtor e na época de safra”, completa.

Ming Liu, coordenador executivo do Organics Brasil: em 2014, projeto reuniu 60 empresas e exportações foram de US$ 136 milhões

Portfólio variado — A Jasmine, empresa com sede em Curitiba, é uma das integrantes do programa Organics Brasil. A aposta no mercado orgânico iniciou em 2003, com produtos como arroz integral, soja, farinha de soja e açúcar mascavo. Em seguida surgiram as linhas de bebida vegetal e de mingaus e papinhas para crianças. Hoje o portfólio de orgânicos tem 30 itens e, no ano passado, foram lançados oito novos produtos. A gerente de comunicação da Jasmine, Liza Schefer, revela que a venda de alimentos orgânicos representa 16% do faturamento da empresa. Além da comercialização no mercado interno, os produtos são exportados para os outros países da América Latina. “Em 2014, a empresa registrou crescimento de 20% nas vendas, um índice bastante agressivo para o setor. Para 2015, esperamos continuar crescendo em torno de 20%, como resultado do lançamento de produtos e conquista de novos mercados”, afirma Liza.

Segundo ela, uma das dificuldades é encontrar fornecedores e parceiros que ofereçam matérias-primas dentro do padrão definido pela empresa e certificados pelo Instituto Biodinâmico (IBD). “Assim, atualmente trabalhamos com fornecedores certificados do Brasil, que consistem em pequenos produtores e cooperativas, e da América Latina, que são exportados via operador que consolida a produção de diversos pequenos agricultores”, descreve.

Pesquisa no campo — Sistemas de produção cada vez mais eficientes e tecnologias que atendam as demandas específicas do cultivo são alguns dos principais desafios de quem trabalha com orgânicos. Para auxiliar os produtores, iniciativas que envolvem pesquisa e desenvolvimento têm sido conduzidas em diferentes instituições e universidades do País.

Como exemplo dessas ações, a Embrapa criou, em 2012, o Portfólio de Sistemas de Produção de Base Ecológica, onde atualmente existem 41 projetos nas áreas de agricultura orgânica e transição agroecológica, informa o pesquisador José Antonio Azevedo Espindola, da Embrapa Agrobiologia. Entre as demandas dos especialistas na área, ele cita a necessidade de interação entre os saberes científico e dos agricultores; o estímulo a práticas que favoreçam a diversificação dos sistemas de produção; e a identificação de insumos que favoreçam a produção de alimentos. “Por sua vez, os produtores procuram ações de assistência técnica e extensão rural adaptadas para sistemas orgânicos e estratégias de financiamento”, menciona.

Em grandes culturas, como é o caso da soja, os estudos envolvem diferentes aspectos do cultivo, como fontes alternativas de adubação e controle de insetos- praga e de doenças através de extratos de plantas, óleos essenciais e agentes de controle biológico. “Mantemos um programa de melhoramento com sojas especiais para alimentação humana. Embora não tenha como foco o uso em cultivo orgânico, essas cultivares são bem interessantes para esse tipo de sistema. Outra linha de pesquisa interessante abrange as bactérias promotoras de crescimento e bactérias fixadoras de nitrogênio”, cita a pesquisadora Claudine Seixas, da Embrapa Soja.

Assistência técnica e fontes alternativas de adubação e de controle de pragas estão entre as principais demandas dos produtores de orgânicos

O controle do mato e o manejo do percevejo também estão entre as demandas dos especialistas. Segundo Claudine, a técnica com plantas de cobertura não é eficiente em todas as situações e não há um produto alternativo que tenha resultado semelhante ao de um herbicida para o controle das invasoras. Nesse caso, a capina manual ainda é o recurso mais utilizado. “No caso do percevejo, percebemos preocupação entre os agricultores, embora existam alguns produtos comerciais e a possibilidade do uso de armadilhas e homeopatia”, complementa. A pesquisadora salienta que existem estudos interessantes que consideram a homeopatia no manejo de insetos-praga e doenças. Um desses trabalhos é realizado no Paraná pelo Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Capa), em conjunto com a Emater e a Unioeste.