Congresso Mundial

 

futuro dos sistemas INTEGRADOS

Realizado no mês passado em Brasília, o Congresso Mundial Sobre Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta reuniu mais de 600 participantes de 22 nacionalidades

A necessidade de promover a intensificação sustentável na produção de alimentos foi tema de palestras, debates e trabalhos científicos apresentados no Congresso Mundial Sobre Sistemas de Integração Lavoura- Pecuária-Floresta, realizado entre os dias 13 e 17 de julho, em Brasília/ DF. Promovido pela Embrapa, Ministério da Agricultura e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com o apoio de instituições e empresas parceiras, o evento contou com 602 participantes de 22 países.

Ao comemorar os resultados do congresso, o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, ressaltou que o tema deve receber cada vez mais notoriedade, uma vez que aumenta a demanda por alimentos e, consequentemente, a responsabilidade do setor em trabalhar em sistemas capazes de ampliar a produção com preservação dos recursos naturais. Para Lopes, um dos pontos fortes do evento foi a participação de diferentes instituições, de representantes dos setores público e privado e de profissionais de diversas áreas do conhecimento. “Saímos do congresso com importantes lições, como a necessidade de intensificar os estudos em socioeconomia voltados a sistemas de ILPF”, destaca.

O dirigente referiu-se ao sumário do evento, elaborado pelo consultor Eric Kueneman, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). “A maioria dos pôsteres apresentados trataram de temas ligados à produção e à tecnologia, poucos trataram de socioeconomia, o que deveria colocar essa área em destaque nos próximos eventos sobre ILPF”, sugere. O consultor também convocou os cientistas a irem além dos laboratórios e campos experimentais, para auxiliar na proposição de políticas públicas de financiamento à pesquisa.

Grande parte dos trabalhos apresentados no congresso demonstrou a importância da adoção dos sistemas de ILPF como necessidade urgente de todos os países. “Trata-se de uma ferramenta poderosa para se evitar desastres ecológicos e sociais”, argumenta Kueneman.

Além da programação de painéis e sessões paralelas que ocorreram no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, um dia de campo mostrou ao público formado principalmente por estudantes, pesquisadores e produtores, sistemas integrados conduzidos pela Embrapa Cerrados, em Planaltina/DF. No local está um dos mais antigos experimentos em ILPF, com 24 anos. A área vem, ao longo dos anos, comprovando as vantagens dos sistemas em relação aos cultivos convencionais solteiros. “Em todos os nossos experimentos, e também em condições de fazenda, a soja produzida com rotação em consórcios produziu 500 quilos a mais por hectare em comparação ao plantio contínuo da leguminosa”, informa o pesquisador da Embrapa Cerrados Robélio Leandro Marchão.

Benefícios agronômicos e econômicos — Como a diversidade de palestrantes foi um dos destaques do evento, além de especialistas e técnicos de diferentes países, produtores rurais também foram convidados a contarem suas experiências com a integração. Um dele foi Antonio José Gazarini, que falou sobre a fazenda da família em Jataí/GO. “Começamos há seis anos em uma área de 400 hectares, e hoje mantemos o sistema em 2 mil hectares”, relata.

O manejo na propriedade é conduzido de diferentes formas com milho (verão e safrinha), braquiária, soja e feijão. Em um dos esquemas, o milho é plantado em outubro junto com a braquiária. Em março, depois da colheita do cereal, o produtor aguarda mais 30 dias para a entrada do gado na pastagem. Com a soja, o plantio é feito em outubro e a colheita, em fevereiro. “Mas antes de colher o grão, plantamos a braquiária com avião para não ocorrer o amassamento das plantas”, detalha.

Como era produtor de grãos, Gazarini diz que foi necessário investir na aquisição do gado e nas estruturas de pecuária para equipar a fazenda. “Como a propriedade anteriormente tinha outros donos que trabalhavam com gado, conseguimos aproveitar parte do que já existia e reformar o curral”, descreve.

Entre os benefícios da ILP, o produtor cita a diluição dos custos fixos, o aproveitamento dos resíduos da lavoura no confinamento do gado, a diversificação das atividades, a mão de obra definitiva, a diminuição das plantas daninhas e a supressão do mofo branco. Outro reflexo positivo foi o aumento entre 5% e 10% nas produtividades da soja e do milho. Na última safra, o rendimento da oleaginosa ficou em 58 sacas por hectare. O milho verão somou 207 sacas por hectare, e o milho safrinha, 140 sacas por hectare.

Atualização no ensino — O congresso também ajudou a fomentar a necessidade de revisar o currículo acadêmico das instituições de ensino a fim de formar profissionais preparados para desenvolver sistemas de integração. “Temos o profissional que sabe muito de soja, ou muito de solo, ou muito de bovinos, ou muito de árvores, mas há carência de profissionais que saibam trabalhar com esses elementos integrados”, afirma o professor Paulo César de Faccio Carvalho, da UFRGS.

Segundo o diretor da Faculdade de Tecnologia de Indaiatuba (Fatec/SP), Luiz Antonio Daniel, 21 instituições têm a ILPF em suas grades curriculares. Porém, existem outras 190 que ainda não formalizaram a disciplina. “Temos o desafio de fazer com que o conceito de intensificação sustentável impacte no currículo das escolas. Precisamos de uma reforma curricular nos cursos de ciências agrárias. Não há espaço para o mesmo tipo de ensino do passado”, resume o professor.

(legenda)Incentivo à integração faz parte do Programa ABC, que estimula a adoção de práticas conservacionistas(legenda)

Para o presidente da Rede de Fomento ILPF, Paulo Herrmann, o ensino é uma das principais alavancas da integração, que ele considera como a “terceira revolução dos trópicos”. A primeira, lembra, foi o plantio direto na palha, seguida da consolidação da safrinha como uma segunda safra. Em sua palestra no congresso, Herrmann, que também é presidente da John Deere Brasil, falou sobre o trabalho da rede, que tem como integrantes, além da John Deere, Syngenta, Schaeffler, Parker, Dow AgroSciences, Cocamar e Embrapa. “A iniciativa foi pensada para acelerar pesquisas e tecnologias, identificar oportunidades, promover cada vez mais políticas e programas públicos para o sistema e, por fim, difundir amplamente o conceito de forma que todos possam conhecer e implantar o sistema”, assinala o executivo, lembrando que a rede está aberta para a adesão de novos parceiros.

(legenda)Dia de campo na Embrapa Cerrados apresentou resultados com sistemas de ILPF trabalhados há mais de 20 anos(legenda)

Incentivo oficial — Os estudos e as iniciativas práticas com a ILPF fortaleceram- se nos últimos anos. Em 2010, o Governo lançou o Programa ABC, de agricultura de baixo carbono, e uma das ações seguidas é justamente o incentivo à adoção da ILPF. Por meio do programa, produtores podem contratar recursos oficiais para implantar projetos de integração em suas propriedades.

Segundo o coordenador de Manejo Sustentável dos Sistemas Produtivos do Ministério da Agricultura, Elvison Nunes Ramos, no ano passado, quase 7% dos recursos destinados pelo programa foram voltados ao financiamento de projetos de integração. Ele ressalva que o sistema ainda é considerado pelos produtores uma tecnologia de complexa adoção. “Por isso, o índice de 7% pode parecer pequeno à primeira vista, mas seu crescimento, comparado a outros anos, mostra que a adoção começa a ocorrer de forma mais intensa nos principais biomas brasileiros. É um dado positivo, se avaliarmos que é a tecnologia do plano que mais mitiga CO2”, frisa. Em 2014, o ministério registrou, comparado a 2013, um aumento de 22% do total de projetos de ILPF aprovados no programa de financiamento.

Segundo dados da Embrapa, existem em torno de 3 milhões de hectares com ILPF implantados no País. As duas regiões que mais têm demandados projetos são o Centro-Oeste e o Sudeste. Programas de recuperação de áreas degradadas são maioria no Programa ABC: respondem por 40% do valor total de recursos, seguido do plantio direto (21,4%) e de florestas plantadas (14,2%).