Gestão

 

GOVERNANÇA corporativa na empresa rural familiar

O crescimento e o fortalecimento dos negócios familiares estão alinhados à aplicação formal de boas práticas de gestão, iniciativas que alinham interesses, administram conflitos, avaliam permanentemente a razão de ser da empresa e, o mais importante de tudo, contribuem para a longevidade do negócio

Cilotér Borges Iribarrem, consultor em Governança e Sucessão Familiar em Empresas Rurais, [email protected]

Há empresas cuja principal virtude é justamente ser familiar. Nem sempre organizações conduzidas por técnicos estranhos à família são melhores, tampouco sociedades que não são controladas por uma família são mais saudáveis. O importante é a qualidade da vida societária, da administração e da gestão empresarial, já que a excelência pode estar em uma família ou entre técnicos profissionais.

A Safras & Cifras assessora empresas familiares há mais de duas décadas. O resultado desse trabalho permite acompanhar e mensurar de perto os avanços alcançados pelas organizações. Nossa experiência mostra que o crescimento e o fortalecimento dos negócios familiares estão alinhados à adoção e à aplicação formal de boas práticas de gestão. Quando falamos nisso, visualizamos e contemplamos ferramentas e linhas de ação que, se aplicadas corretamente, proporcionarão garantias à continuidade da empresa e beneficiarão seus sócios, administradores, diretores e conselheiros.

Nesse contexto, destacamos a governança corporativa, que oferece um sistema capaz de converter princípios e intenções em regras e recomendações claras e objetivas para o negócio rural. São iniciativas que alinham interesses, administram conflitos, avaliam permanentemente o propósito da empresa e, o mais importante, contribuem para a sua longevidade. Compartilhando experiências, os empresários se familiarizam com as políticas e boas práticas de governança para estimular a compreensão do seu alcance e a melhor forma de sua implementação, considerando as particularidades de cada negócio.

A governança corporativa é um recurso que pode oferecer soluções efetivas para os desafios enfrentados pelas empresas familiares. Sinônimo de governo das sociedades ou das empresas, é o conjunto de processos, costumes, políticas, leis, regulamentos e instituições que determina a maneira como uma empresa é dirigida, administrada ou controlada. Nas empresas rurais de controle familiar, também devem existir normas e regras para manter o sucesso que passa dos pais – que muito trabalham e se preocupam com o negócio – para as demais gerações. Os princípios e as práticas de uma boa governança corporativa se aplicam a qualquer organização, independentemente da natureza jurídica. Considerando a realidade das empresas brasileiras, o rigor da legislação e a cobrança da sociedade, essa forma de gestão é cada vez mais comum nas empresas rurais.

Conflitos versus resultados — A governança corporativa pode ser a garantia de um bom relacionamento familiar na empresa e a certeza da continuidade. Quando envolve empresa familiar, ela cria um conjunto eficiente de mecanismos, tanto de incentivos como de regramento para a longevidade. Isso assegura que o desempenho dos gestores e os conflitos familiares não comprometam o bom desenvolvimento do negócio. Esse tipo de empresa, no geral, enfrenta desafios particulares, bem diferentes da realidade observada nas não familiares. Por isso, exigem uma postura diferente da liderança, com transparência na divulgação dos resultados – sob pena de criar aversão entre os sócios-familiares com o passar do tempo.

As empresas de controle familiar enfrentam desafios adicionais, porque questões de disciplina e de negócio às vezes não ficam muito claras e podem passar para o âmbito pessoal. Por isso, evitar eventuais conflitos é fundamental – e tais problemas não podem ser levados para dentro do negócio, o que comprometeria seu funcionamento. Um bom relacionamento vem de uma boa comunicação, de objetivos traçados e da atenção de cada indivíduo da família com relação à sua função na empresa.

Uma boa governança requer estrutura sólida e justa, em que cada indivíduo que tenha interesse no negócio possa trabalhar e receber por isso. Afinal, em muitos casos, nem todos têm aptidão para trabalhar na empresa da família – seja por ter outra profissão, seja por ter optado pelo próprio negócio.

É importante reconhecer o trabalho e o empenho daquele que escolheu cuidar dos negócios junto com os pais. Para o sucesso da empresa, o indivíduo deve ter habilidades e conhecimento para as tarefas e não apenas querer. É muito importante reconhecer o trabalho, a administração e o que o mercado exige. A criação de um conselho de família em casos de conflitos – negócios e família – também pode ser uma boa ideia, podendo assim serem tratadas as definições e os critérios de sucessão. Preservar princípios e valores da família que deverão orientar o negócio e determinar os limites entre os interesses também é fundamental.

Benefícios para todas as gerações — Governança corporativa diz respeito à perenidade da empresa, ao poder compartilhado e à geração de valor. Ser responsável nos negócios significa ir além do lucro e pensar na empresa como um organismo vivo, que se transforma em fonte de benefícios cada vez mais claros, não somente para a geração atual, mas para as gerações seguintes.

Diante disso, surgem algumas questões-chave para entender esse processo. A primeira delas é a seguinte: por que os princípios de governança corporativa são importantes para empresas familiares? Os negócios familiares enfrentam desafios próprios, como o planejamento da sucessão da propriedade e da gestão, a necessidade de delimitar claramente a diferença entre propriedade e negócio, a proteção patrimonial e a aproximação dos sócios que não participam da gestão.

Igualdade de direitos e deveres dos integrantes da sociedade, transparência no funcionamento do negócio e responsabilidade corporativa de todos em prover o crescimento e a continuidade da empresa são princípios fundamentais de governança. Uma vez formalizados, contribuem para o seguinte:

  • Redução de conflitos resultantes de questões sucessórias;

  • Delimitação da diferença entre propriedade e negócio, evitando confusão de papéis na estrutura organizacional;

  • Regulação, por um lado, da remuneração devida pela propriedade e,por outro, pelo trabalho, mitigando assimetrias entre interesses societários e familiares;

  • Estabelecimento de mecanismos de discussões e encaminhamentos de questões divergentes, padronizando agendas, pautas, fóruns e regras de votação;

  • Formalização das ferramentas de controle e de prestação de contas, tornando- as confiáveis, transparentes e de fácil compreensão;

  • Melhoria da qualidade das informações prestadas aos sócios, aproximando da gestão aqueles que não trabalham diretamente na empresa.

Negócio com vida própria — Da mesma forma,0 é importante questionar de que maneira as boas práticas de governança corporativa podem ser implementadas nas empresas familiares. O negócio familiar tem características próprias, que devem ser conhecidas, estudadas e tratadas. Por isso, é preciso trabalhar a família para adequá-la à empresa, de modo que ela aproveite seu bônus e assuma seu ônus.

Na empresa, os familiares serão sócios. Para a implementação de boas práticas de governança, é fundamental que os agentes principais, sócios e administradores, estejam comprometidos com o processo. Além disso, o aporte de conhecimento técnico sobre o tema, com uma visão externa e independente, pode contribuir consideravelmente para o sucesso da jornada.

Definidos os princípios e a implementação desse tipo de solução, chega o momento de verificar a partir de quando a governança corporativa deve ser praticada nas companhias. O negócio familiar deve ser visto como um organismo dinâmico, no qual as melhorias e dificuldades acontecem e surgem com o passar dos anos. Afinal, envolvem mudanças na organização, na estrutura da família e na divisão da propriedade. Para dar início a esse processo, não há data nem hora exata. Mas o momento adequado é quando a família se encontra em harmonia e conta com a presença ativa de todos os seus integrantes, pais e filhos. Em qualquer situação, o processo deverá ser gradual e planejado, considerando as particularidades de cada família.