Arroz

 

GOTEJAMENTO, alternativa econômica e sustentável

A irrigação por esse método em arroz propiciou, em duas safras-teste em Uruguaiana/RS, aumento da produtividade de 7,5 para 12 toneladas/ hectare. A economia de água é de 60%

Engenheiro Agrônomo Carlos Sanches, gerente agronômico da Netafim, [email protected]

O ano começou com algumas perspectivas positivas no setor do agronegócio nacional, enquanto que o mercado, de forma geral, anda meio desanimado com a economia do Brasil. No entanto, o agro continua em movimentos crescentes: o setor ainda representa quase um quarto do PIB, podendo crescer 2,8% neste ano. E a safra de grãos estimada deve ser a maior, com 206,34 milhões de toneladas e um crescimento pífio das áreas produtivas – o que significa que estamos produzindo mais e no mesmo lugar.

Mesmo assim, ainda há receios. O ano de 2014 foi marcado pela escassez de chuva e esse cenário alastrou-se em 2015, e, desde então, a agricultura tem sido questionada por ser responsável pelo alto consumo de água. Quase sempre é colocada a culpa na agricultura: mau uso, contaminação na água, etc. Mas será que quem Divulgação mais desperdiça e contamina não está na cidade? Hoje cerca de 90% das pessoas vivem nas cidades, pouco mais de 10% está nos campos e essa pequena quantidade é responsável por preservar o nosso maior bem, pois sem a água não conseguimos plantar, colher e viver.

A agricultura utiliza 70% da água disponível para consumo, mas parte evapora e retorna em forma de chuva e parte é absorvida pelos lençóis freáticos. Por outro lado, a agricultura é responsável por alimentar o mundo. É hoje uma plataforma de Governo, responsável por parte significativa do pouco crescimento econômico que o País ainda tem. É inviável restringir seu desenvolvimento. A planta não vive sem água e o homem do campo já trabalha uma melhor gestão da água e com tecnologias eficazes como, por exemplo, com a irrigação por gotejamento.

Um dos grandes desafios é fazer com que a humanidade compreenda o tamanho da importância dessa tecnologia. Dados da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) mostram que o Brasil tem quase 30 milhões de hectares para irrigar. Menos de 5 milhões são irrigados hoje, sendo que nem em 1 milhão deles é usada a técnica de gotejamento. Enquanto que outros países, que enfrentam o problema de falta de água, como Israel e Índia, além da Costa Oeste dos Estados Unidos, já usam essa tecnologia, que é mais eficiente e não desperdiça a água.

Apesar de ser uma tecnologia avançada, a concepção do sistema é bem simples: gota a gota. Considerado um dos mais eficientes sistemas de irrigação da atualidade, o gotejamento foi desenvolvido há 50 anos em Israel e trazido para o Brasil na década de 1990. De lá para cá foi aperfeiçoado, pode ser implantado na superfície ou enterrado, e já está sendo aplicado em culturas como café, cana-de-açúcar, citros e hortifrútis; e de forma pioneira no cultivo do arroz, cultura que geralmente usa a irrigação por inundação. O resultado é a economia de até um terço de água nessas lavouras.

Essa tecnologia foi testada nas últimas duas safras na região de Uruguaiana/RS e como resultado quase duplicou a produtividade, saindo de 7,5 toneladas do cereal por hectare por meio do modelo tradicional, a irrigação por inundação, para 12 toneladas usando a técnica de irrigação por gotejamento. A explicação se dá pela quantidade de água exata, nem mais nem menos, e na hora correta, de acordo com a fase de desenvolvimento do arroz. O sistema também permite a aplicação dos nutrientes juntos com a água de irrigação, a chamada fertirrigação, que tem papel fundamental em maximizar o potencial produtivo do arroz.

Gota a gota — Esse sistema utiliza os gotejadores subterrâneos (enterrados), que foram desenvolvidos justamente para essa finalidade, levando a água e os nutrientes de forma precisa às plantas de arroz e evitando assim desperdícios, como a alta taxa de evaporação, o escoamento superficial, entre outros decorrentes do atual método de irrigação, a inundação. Outro ponto importante é que não existe mais a necessidade de inundar a área, portanto, todas as práticas agrícolas ficam mais simples e muito mais eficientes.

O sistema ainda permite a técnica da fertirrigação, a aplicação dos nutrientes na lavoura por meio da água irrigada. Pelo método é possível controlar quando a planta será irrigada, quanto de água será utilizado, que zona da lavoura se deseja irrigar, quanto de produto será colocado, tudo feito de forma automatizada, controlada e precisa. É possível também usar produtos químicos para controle de pragas e doenças, sem risco de contaminação da área e do produtor.

Custo e benefício — Há quem diga que essa tecnologia é cara. Consideramos que toda tecnologia exige investimento. Portanto, são custos necessários para garantir uma propriedade desenvolvida, preparada e sustentável, tanto do ponto de vista ambiental (1/3 da água) e econômico, principalmente reduzindo o custo da tonelada de arroz produzida.

O custo-benefício dos sistemas de irrigação por gotejamento é inúmero. O payback na cultura de café, por exemplo, acontece em menos de um ano. No arroz, em duas safras, o produtor já terá retorno. Mas há mais que isso para se comparar: mão de obra, pois simplifica o dia a dia operacional da fazenda, dá para economizar água (mais de 60% de economia), controlar o custo dos recursos como insumos, energia e até maquinários, já que o sistema de irrigação por gotejamento é subterrâneo e não impede a mecanização da lavoura. É preciso analisar e identificar como se pode atingir melhores resultados, orquestrando estratégia e planejamento, dedicação, qualidade e produtividade, sempre pensando em uma área 100% sustentável, que ajudará no desenvolvimento do agro nacional. Galgar novos voos e melhores resultados é fundamental.