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O EL NIÑO é quem manda nas nuvens

Normalmente a safra é cheia em anos com esse fenômeno climático. Para a primavera, há previsão de chuva acima da média em MS, enquanto que, para em GO e MT, o trimestre outubro-novembro-dezembro deverá ser inferior à média. Na Região Sul, a chuva permanecerá acima da média, porém, com distribuição irregular

MsC. Cátia Valente, Somar Meteorologia, [email protected]

A presença do El Niño ao longo deste inverno não deixa dúvida que estamos vivendo um momento de atuação clássica do evento, como não víamos desde 2009/10, quando o menino levado deixou de pernas para o ar o inverno e a primavera. Para quem não sabe ou não lembra, o El Niño é o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, na altura da linha do Equador, área que vai desde a costa da América do Sul até pelo menos a metade do Oceano. Ele influencia o clima no mundo inteiro mudando os padrões de vento e afetando assim os regimes de chuva em regiões tropicais e de latitudes médias. Dependendo de sua intensidade e da época de atuação, os estragos podem ser grandes, assim como também seus benefícios.

Normalmente, em anos de El Niño, a safra é cheia, mas nem sempre é assim. Durante o inverno, a maioria das culturas pode se beneficiar com a chuva, mesmo porque ela ameniza o risco de geadas, mas chuva em excesso no período da colheita pode ser muito prejudicial. O nome El Niño foi escolhido pelo fato de o fenômeno de aquecimento das águas na costa do Peru acontecer em dezembro, próximo ao Natal, e faz referência ao Menino Jesus ou, em espanhol, Niño Jesus.

Dito isso, é certo que vamos ter que conviver com esse menino levado nos próximos meses, ou pelo menos até meados da primavera. Depois disso, a grande expectativa é de que parte das águas no Oceano Equatorial volte a resfriar (próximas à costa da América do Sul) e com isso o El Niño perde força e de clássico passa para uma outra condição, o El Niño Modoki. E quando isso acontece, as consequências de sua atuação mudam. Nessa nova condição, a chuva não costuma ser intensa e persistente no Centro e no Sul do Brasil. Já no Sudeste e no Centro-Oeste, a chuva da primavera torna-se mais irregular e tudo indica que já nos início de 2016 não teremos mais condição para El Niño, configurando um fenômeno climático curto.

Nas próximas semanas, de agosto e meados de setembro, segue a condição de chuva forte no Sul e seca no Centro e no Norte do Brasil. As simulações matemáticas indicam precipitação acima da média nos três estados da Região Sul e metade Sul de São Paulo e Paraná. Por outro lado, em Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, espera-se tempo seco na maior parte do período, com precipitação próxima da média histórica. No Nordeste, a chuva segue atingindo boa parte da costa, mas com valores dentro da média.

Na Região Norte, com uma zona de convergência intertropical mais fraca que o normal, a expectativa é de chuva abaixo da média em Roraima, Amazonas, Pará, Acre e Rondônia, e dentro da média em Tocantins. Com relação à temperatura, em anos de El Niño, o inverno apresenta temperatura acima da média na maior parte do País. Isso não retira completamente o potencial de geadas nas áreas produtoras do Sul e de partes do Sudeste e do Centro-Oeste, mas diminui o risco em relação a invernos com neutralidade ou anos de La Niña.

E o termômetro? — Com relação à temperatura, vale salientar que em setembro o El Niño já não estará tão vigoroso como nos meses anteriores. Por isso, esperam-se alguns picos de frio tardio, especialmente na primeira semana e assim ainda recomenda-se cautela para instalação das culturas de verão, em especial no Sul do Brasil.

Para a primavera, há previsão de chuva acima da média em Mato Grosso do Sul. Já em Goiás e Mato Grosso, o trimestre outubro-novembro-dezembro deverá registrar um acumulado total inferior à média. Na Região Sul, a chuva permanecerá acima da média, porém, com uma distribuição irregular da precipitação e enfraquecimento no fim da estação. Nos estados do Sudeste, a previsão é de chuva acima da média em São Paulo, Sul do Rio de Janeiro e no Oeste e Sul de Minas Gerais. Já no Espírito Santo, Norte do Rio de Janeiro e na maior parte de Minas Gerais, o trimestre deverá registrar um acumulado total inferior à média.

Kátia Valente: “Com relação às temperaturas, nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, a tendência é de temperaturas acima da média, ou seja, uma primavera mais quente do que o normal”

Para a Região Nordeste, as simulações indicam chuva mais persistente que o normal, fazendo com que o acumulado ultrapasse a média histórica desde o litoral Sul da Bahia até o Ceará. Por outro lado, no Piauí, Maranhão e Oeste da Bahia, a expectativa é de chuva inferior à média histórica. Por fim, no Norte do Brasil, boa parte da região terá chuva abaixo da média. A exceção fica por conta do Acre e Sudoeste do Amazonas, onde as chuvas devem alcançar a média histórica.

Com relação às temperaturas, nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, a tendência é de temperaturas acima da média, ou seja, uma primavera mais quente do que o normal. Na Região Sul, a temperatura permanecerá mais elevada que o normal, especialmente ao longo da costa dos três estados. Somente no Oeste do Rio Grande do Sul, a próxima estação apresentará temperatura inferior à média histórica. No verão, sem a atuação do El Niño, as condições voltam à normalidade com as características típicas da estação. Isso significa um padrão de precipitações irregulares no Centro e no Sul do Brasil, inclusive com períodos de estiagens regionalizadas.