Reportagem de Capa

 

A safra de verão da CALCULADORA

Produtor Geraldo Slob, no entorno de Ponta Grossa/PR: a estratégia para conduzir bem os 1.500 hectares de soja, milho e feijão é a mesma, independentemente do momento: pensar sempre em uma perspectiva de longo prazo para garantir a sustentabilidade da atividade agrícola

Todos os envolvidos com a agricultura apontam para uma safra mais cara – talvez a mais custosa até hoje – e com tendência de margens apertadas de lucratividade, inclusive para a soja. Em tempos complicados como este a melhor estratégia é maximizar os recursos disponíveis, manter os custos de produção na ponta do lápis e usar cada centavo da melhor forma possível. A revista A Granja ouviu o que pensam as pessoas que vão fazer a safra de verão 2015/16, assim como buscou orientações de experts sobre as maneiras de chegar ao final desta safra com dinheiro no bolso. São dicas econômicas e também técnicas na condução da lavoura

Gilson R. da Rosa

O número ainda não está oficialmente fechado, mas ao que tudo indica a produção brasileira de grãos baterá um novo recorde na atual safra: 206,3 milhões de toneladas, 6,6% a mais do que no período anterior, conforme o relatório divulgado em julho pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Nada mal para um ano em que a economia do País anda mal das pernas. Se comparado à estimativa de junho, o volume cresceu cerca de 1,8 milhão de toneladas, sendo que a soja teve um pequeno incremento de 178 mil toneladas, enquanto o milho segunda safra avançou em quase 2,2 milhões de toneladas. Até aí, nenhuma novidade, considerando que a produção agrícola vem aumentando em ritmo acelerado nos últimos cinco anos. E é com base neste histórico progressivo de bom desempenho da agricultura brasileira que se projeta a safra 2015/ 16.

Entretanto, o cenário que antecede o plantio neste novo período, pelo menos à primeira vista, não parece lá dos mais animadores. E por várias razões. A começar pelo Banco do Brasil – e outras instituições financeiras –, que este ano não liberaram a oferta do chamado crédito de pré-custeio, tradicionalmente utilizado pelos agricultores para a compra antecipada de insumos em meados de fevereiro e março. Os custos de produção também estão mais altos, puxados pela valorização do dólar frente ao real e pelo realinhamento nos preços dos combustíveis e da energia elétrica. Além disso, o setor convive com a incerteza em relação aos efeitos do fenômeno climático El Niño, que pode trazer chuvas acima da média nas principais regiões produtoras de grãos.

Esses são indicativos que, na visão dos especialistas, apontam para uma safra mais cara e com tendência de margens apertadas em termos de lucratividade, inclusive para soja e milho. “Não vejo um panorama dos mais animadores no que diz respeito à perspectiva de aumento para a área de grãos este ano. A diminuição da oferta de crédito por conta da recessão econômica e o aumento generalizado dos juros podem ser fatores limitantes. É claro que em alguns setores mais dinâmicos, como o da soja, há sempre uma tendência de expansão de área”, avalia o consultor econômico em agribusiness, Flávio Roberto de França Junior.

A recomendação – válida tanto para os anos bons e ruins, mas que em tempos de crise adquire um caráter ainda mais relevante – é focar na gestão da propriedade, atentar para a qualidade da instalação da lavoura, plantar bem sem abrir mão da tecnologia, fazer uso racional dos insumos para reduzir custos e ter um melhor retorno em produtividade. “Além de produzir bem, o agricultor moderno precisa entender como funcionam as novas ferramentas de gestão do negócio agrícola e os mecanismos que regem o mercado, pois o lucro maior da safra poderá vir não somente do valor da produção, mas das estratégias de aquisição dos insumos e de comercialização da safra”, destaca o pesquisador da Embrapa Soja Amélio Dall’Agnol.

Segundo ele, é importante o produtor ter em mente que, se, por um lado, o dólar em alta contribui para elevar os custos de produção, ao mesmo tempo, propicia um rendimento melhor no momento da comercialização. “A soja foi afetada positivamente com a desvalorização do real. O agricultor se beneficiou do dólar na hora de vender a safra passada, mas vai ser prejudicado no momento de comprar os insumos para fazer a próxima lavoura, já que em boa parte são importados”, explica o pesquisador.

Para o economista e coordenador do Departamento Técnico Econômico da Federação da Agricultura do Paraná (Faep), Pedro Loyola, o dólar valorizado, pelo menos por enquanto, tem mais ajudado do que atrapalhado o produtor. “Isso porque o principal item de importação que sofre impacto da moeda americana é o fertilizante, que teve aumento de até 30% em relação ao ano passado. Por outro lado, como reduziram os preços internacionais das commodities agrícolas como milho e soja, o dólar serviu de contrabalança dando sustentação aos preços. No entanto, temos que ficar alertas com o comportamento do câmbio em 2016”, pondera.

Diante dessa conjuntura, a estratégia mais indicada é manter os custos de produção na ponta do lápis e maximizar os recursos disponíveis. “Cada centavo deve ser usado da melhor forma possível. O produtor não deve abrir mão da tecnologia, mas é importante avaliar bem as relações de troca, fazer as contas e adquirir somente aqueles insumos realmente necessários e não um pacote fechado que as empresas muitas vezes querem empurrar. A agricultura de precisão, por exemplo, é uma importante ferramenta de apoio à tomada de decisão, pois permite coletar dados, monitorar o solo, ver onde precisa mais adubo e racionalizar o uso de fertilizantes”, recomenda o gerente geral de Pesquisa da Fundação ABC, sediada em Castro/PR, Eltje Jan Loman Filho.

Relação de troca — A relação de troca de soja por insumos a que Loman Filho se refere é uma prática muito comum entre os agricultores, principalmente entre aqueles que têm dificuldade em acessar o crédito bancário. Desse modo, eles adquirem fertilizantes e outros insumos junto às tradings usando como moeda a própria produção. “Na prática, são as tradings que mais financiam, e não os bancos. O problema é que o produtor fica amarrado a elas. E elas, por sua vez, aproveitam para vender sementes, fungicidas e inseticidas, em um pacote que muitas vezes não atende as especificidades de cada lavoura ou as necessidades de cada produtor”, reconhece Amélio Dall’Agnol.

A situação ideal, segundo o pesquisador, é que o produtor possa montar seu próprio pacote, com base em um diagnóstico preciso das necessidades da sua lavoura a partir da análise e interpretação do solo. “Assim, ele vai ter a liberdade para escolher as sementes de uma empresa, o fungicida de outra, o herbicida de uma terceira e assim por diante, na quantidade que precisa e sem gastos desnecessários”, avalia.

É assim que funciona em boa parte do Norte do Mato Grosso, conforme explica o presidente do Sindicato Rural de Sorriso, Laércio Lenz: “Temos algo em torno de 40 revendas de insumos na região, então a concorrência é bem acirrada. Isso permite que o produtor possa escolher o que é melhor para ele, sem ficar engessado a uma empresa ou a outra. Além disso, a disputa pelo mercado faz com que os preços dos insumos cheguem ao limite do mínimo, o que favorece ainda mais o agricultor”, descreve o dirigente.

Apesar dessa vantagem, Lenz garante que as dificuldades dos agricultores são as mesmas enfrentadas pelos colegas de outras regiões. “Aqui os produtores estavam acostumados a pegar os recursos para o pré-custeio da lavoura em fevereiro e março, mas isso acabou não acontecendo. Os bancos atrasaram a liberação e, com a alta do dólar, aqueles mais descapitalizados tiveram que deixar a compra dos insumos para agosto, quando a lavoura de verão já começa a ser plantada a partir de setembro e início de outubro”, relata.

“Além de produzir bem, o agricultor moderno precisa entender como funcionam as novas ferramentas de gestão do negócio agrícola e os mecanismos que regem o mercado”, lembra Amélio Dall’Agnol, da Embrapa Soja

De acordo com o dirigente, no município de Sorriso são 600 produtores, mas em toda a região abrangida pelo sindicato o número chega perto de mil, que respondem por um volume anual de 15 milhões de toneladas de grãos, somando soja e milho. “Só para ter uma ideia, apenas 40% ou 50% já adquiriram os insumos para a safra, sendo que, nesta época era comum 80% dos produtores já terem antecipado suas compras. Além disso, os custos neste ano subiram entre 15% e 20%, muito em razão da questão da logística de transporte, que é cara e muito ruim, aliás, uma das piores do Brasil”, afirma.

Crédito de terceiros — Trocar grão por insumo para custear o plantio da lavoura não é exclusividade dos sojicultores, sendo uma prática muito comum também entre os produtores de arroz do Rio Grande do Sul. “A indústria adianta recursos na forma de insumos e o produtor garante o pagamento com a entrega do produto. Mas ao contrário da soja, o preço só vai ser discutido lá na frente, após a colheita, e geralmente fica sempre abaixo da expectativa do produtor”, ressalta o economista chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz.

(Segundo Laércio Lenz, presidente do sindicato de Sorriso/MT, até meados do mês passado apenas 40% ou 50% dos produtores tinham adquirido insumos para a safra, sendo que nesta época é comum o índice de 80%

O mesmo ocorre em Santa Catarina, onde a prática é conhecida como “venda do arroz em erva”, conforme explica o produtor André Acordi, da região de Sombrio. “O agricultor adquire os insumos e fertilizantes com 20% ou até 30% de acréscimo. Há também casos de indústrias que se beneficiam da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAF), com recursos contraídos a uma taxa de 2%, que serão repassados aos produtores com reajustes que podem chegar a 30%, o que em minha opinião é pura agiotagem”, afirma.

A ausência de pré-custeio nesse período que antecede a nova safra, de acordo com Antônio da Luz, é reflexo de um esgotamento de crédito geral na economia brasileira. “Movidas pela incerteza em relação ao ambiente econômico e à alta da inflação, muitas pessoas passaram a retirar dinheiro dos bancos, inclusive das poupanças, que são as fontes de crédito rural. O produtor de arroz, por sua vez, sem fluxo de caixa, começou a vender mais para cobrir os custos da lavoura, gerando uma queda nos preços que dificilmente irão compensá-lo na hora de saldar a compra antecipada dos insumos”, argumenta.

Para o economista, essa situação evidencia ainda mais a dependência do setor do crédito de terceiros. “No caso do arroz, a melhor solução seria fixar o preço, pelo menos no volume a ser comercializado para cobrir os custos da lavoura. Dessa maneira, o produtor venderia uma quantidade X de arroz para pagar os custos, ficando com o restante da produção para especular no mercado, como acontece com a soja”, sugere.

Nesse aspecto, a vantagem da soja em relação ao arroz está na relação que a oleaginosa tem com o mercado internacional. “O dólar favorece, já que apenas 60% do custo de produção da soja é cotado pela moeda norte-americana. Aqui no Centro-Oeste o produtor vende a soja antecipada no mesmo patamar do dólar para adquirir os insumos. Assim, ao contrário do arroz, ele nunca vai sair em desvantagem”, compara o diretor Administrativo e Financeiro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), Nelson Piccoli.

Apesar disso, os gastos com insumos pela sojicultura representam um desafio para o setor. Estimativas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) indicam que o custo por hectare na próxima safra deverá ser recorde, algo perto de R$ 3 mil por hectare. Conforme a entidade, a maior participação no custo de produção é dos defensivos (53,3%), seguida por fertilizantes (29,42%) e sementes (17,29%).

Marcelo Sumiya, da Coamo, orienta que, embora este seja um ano de custos mais altos, é importante o agricultor não abrir mão da tecnologia na preparação e condução da lavoura

Crédito em tempo real — Se a demora na liberação do crédito oficial já resulta em atraso na aquisição de insumos em quase todo o País, configurando uma situação bem atípica para este período do ano, a regra não vale para os produtores de grãos do Centro- Oeste do Paraná. “Aqui obtivemos o crédito em tempo, o que nos possibilitou fazer um grande volume de custeio antecipado. A diferença é que não fazemos relação de troca e sim operações de crédito com juros agrícolas bons, que permitem ao produtor adquirir os insumos e fazer a quitação com a venda da safra após um prazo determinado”, assegura o engenheiro agrônomo e gerente técnico da Coamo Agroindustrial Cooperativa, Marcelo Sumiya,

A cooperativa, com sede em Campo Mourão e entrepostos em outros 66 municípios paranaenses, catarinenses e sul-matogrossenses, é formada por 27.600 produtores dedicados, entre outras atividades, ao cultivo da soja e do milho segunda safra. Além de contar com 250 agrônomos que acompanham desde o plantio até a colheita, a entidade presta assistência financeira aos associados para o custeio da lavoura e pré-comercialização da safra, com taxas compatíveis à remuneração do setor.

Sumiya observa que, embora este seja um ano de custos mais altos, é importante que o agricultor não abra mão da tecnologia na preparação e condução da lavoura. “Nesse aspecto, a melhor forma de reduzir custos é produzir mais na mesma área para ter um melhor retorno em produtividade e diluir esses gastos”, aconselha.

São diversos os fatores que, segundo ele, levam à maior produtividade. Entre os principais estão a escolha da variedade/híbrido; a época de plantio; o tratamento das sementes; uma boa semeadura, cuidado com questões de dessecação, profundidade e densidade de plantas; o equilíbrio nutricional do solo; aplicar a quantidade certa de adubo; e realizar adequadamente os controles fitossanitários.

Porém, para isso, o engenheiro agrônomo considera fundamental que cada agricultor adote soluções tecnológicas corretas, que atendam as necessidades específicas de sua lavoura. “Muitas vezes, a escolha por um fertilizante mais eficiente aumenta o custo, porém, o resultado é um maior retorno em produtividade. Não reduzir o NPK, mas escolher a melhor fórmula e fazer a adubação com expectativa baseada no histórico da lavoura e nos critérios da análise de solo. Uma planta bem nutrida, por exemplo, suporta bem os estresses, mesmo em um ano de seca”, observa.

Plano A — O produtor Geraldo Slob, da região dos Campos Gerais do Paraná, no entorno de Ponta Grossa, não acredita em soluções pontuais ou fórmulas mágicas para reduzir custos. A estratégia para conduzir bem os 1.500 hectares de lavoura de verão com soja, milho e feijão é a mesma tanto para os anos de vacas gordas quanto para os de vacas magras: pensar sempre em uma perspectiva de longo prazo para garantir a sustentabilidade da atividade agrícola, ou, em outras palavras, nunca abrir mão das boas práticas de cultivo.

Slob adota o sistema de rotação de culturas, cultivando 60% da área com leguminosas, no caso a soja e o feijão, e, entre 35% e 40% do restante com milho, alternando as parcelas todos os anos. “É uma forma de evitar pragas e doenças, melhorar a qualidade do solo e colher mais. Mas estou na contramão do mercado. Por aqui, todo mundo usa apenas 11% da área para o milho para dar prioridade à soja, que remunera mais e tem custo de produção menor”, assegura o produtor.

Essa opção por adotar sempre o “Plano A”, como Slob gosta de usar, exige do produtor certo grau de domínio das técnicas de gestão, principalmente em anos difíceis como este. “O milho acaba não se pagando pelo custo muito alto. Tem que produzir no mínimo 11 mil quilos por hectare para empatar o custo. Na soja, são 3.300 quilos por hectare para cobrir o gasto. Se fosse pensar só no mercado, investiria mais na soja. Isso é o que a maioria faz”, compara.

Uma forma para reduzir custos na aquisição dos insumos, conforme Slob, é adquiri-los a preços mais baixos, possível via cooperativa. “Se o produtor fizer a compra antecipada com desconto não receberá tanto o impacto do dólar. Também é preciso usá-los de forma racional e, nesse aspecto, a agricultura de precisão é um instrumento de grande valor, especialmente em anos como este”, aconselha.

A expectativa, segundo ele, é de apreensão em relação à safra que vem por aí. “Não é um ano para se fazer investimentos. O acesso ao crédito para boa parte dos produtores está mais difícil e ainda não sabemos qual será a intensidade do fenômeno El Niño. Resta torcer para que o dólar se mantenha nos atuais patamares. Em resumo, este é um ano em que o produtor tem que manter a mão no bolso, os pés no chão e os olhos no céu”, admite.

Plano Safra — Foi com grande estardalhaço que o Governo Federal anunciou, em 1º de julho, o Plano Agrícola e Pecuário 2015/2016 (chamado de Plano Safra), recursos liberados por intermédio dos bancos que operaram com o crédito rural, colocando à disposição dos produtores R$ 187,7 bilhões para financiar as operações de custeio e comercialização, investimento e estocagem de álcool. O volume de recursos foi ampliado em 20% em relação ao anterior, mas também trouxe alguns problemas, como o aumento dos juros e a ampliação em 9% no limite de financiamento por produtor, que passa a ser R$ 1,2 milhão, mas elimina a possibilidade de o agricultor acessar o crédito rural acima desse teto, como acontecia anteriormente.

(foto plantação mato)

(legenda)Sem muito espaço para crescer na safra de verão, e com custos de produção superiores aos da soja, a expectativa inicial para o milho é, na melhor das hipóteses, de manutenção da área plantada(legenda)

A nova regra gerou reação entre os sojicultores de Mato Grosso. “O custo de produção cresceu em média 25% neste ano e, com isso, o teto de empréstimos é insuficiente, em especial para os que têm grandes ou médias propriedades. Para driblar a situação, só resta aos agricultores captar mais recursos a juros livres, acima da taxa de 8,75% ao ano”, critica o vice-presidente da Aprosoja na Região Leste, Endrigo Dalcin.

Como o limite de financiamento passou a R$ 1,2 milhão/produtor, enquanto o custo de produção cresceu em média 25%, médios e grandes produtores precisam buscar recursos no mercado, com juros mais elevados, relata Endrigo Dalcin, dirigente da Aprosoja/MT

Planejar para não gastar mais — No planejamento da lavoura de soja para a safra de verão, um dos primeiros aspectos a serem observados é a fertilidade. “A fertilidade do solo deve ser acompanhada através de análise química para guiar as recomendações de calagem e adubação. Dessa forma, se ajusta o condicionamento químico do solo e se faz uma adubação mais adequada à necessidade do sistema. Adubações acima dos níveis necessários podem desequilibrar o sistema e prejudicam a rentabilidade do sistema, especialmente em anos de preços altos de insumos”, recomenda o pesquisador da Embrapa Soja Arnold Barbosa de Oliveira.

Ele chama a atenção para o fato de que a semente de qualidade comprada de produtores e fornecedores idôneos é sempre a melhor alternativa para aquisição, uma vez que dela depende a eficiência de todos os demais insumos. “Em geral, a oferta de insumos é muito intensa e tende a forçar uma dilatação dos custos. O produtor precisa se certificar com fontes confiáveis sobre a relação entre o custo e o benefício de cada insumo adquirido”, ressalta. A aquisição antecipada de defensivos, sem a possibilidade de devolução, segundo o pesquisador também é preocupante. “A eficiência no uso dos pesticidas depende da escolha do momento adequado para as intervenções, do produto adequado e de uma boa tecnologia de aplicação porque tudo isso representa custos para o produtor”, assegura.

Milho exige cautela na previsão — Sem muito espaço para crescer na safra de verão, e com custos de produção superiores aos da soja, a expectativa inicial para o milho em 2015/16 é, na melhor das hipóteses, a de manutenção da área plantada. “Trata- se de uma projeção preliminar, que pode acabar não se confirmando, já que, em muitas regiões produtoras, o fator custo poderá influenciar o avanço da soja em áreas de milho”, pondera o consultor França Junior.

O pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Rubens Augusto de Miranda sugere ao produtor cautela em relação a previsões com poucas informações disponíveis e alto grau de incerteza futura em relação ao milho

Faltando pouco menos de três meses para o início do plantio, a única certeza é que a recessão econômica e as dificuldades de acesso ao pré-custeio irão influenciar na formatação da nova safra. “Essas questões, somadas ao câmbio, podem ter um grande impacto nos investimentos na lavoura, pois caso o produtor conclua que os preços não são suficientemente remuneradores frente às dificuldades de custeio ele vai simplesmente investir menos no plantio, e nem sempre o clima será o salvador da pátria”, avalia o pesquisador Embrapa Milho e Sorgo Rubens Augusto de Miranda.

O pesquisador sugere cautela em relação a previsões com poucas informações disponíveis e alto grau de incerteza futura. “As últimas projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) apontam para a diminuição da produção, aumento de consumo e redução dos estoques. Apesar de essas modificações, a princípio, serem pequenas, elas dão suporte a preços mais altos no mercado internacional. Por isso, diversos analistas têm projetado aumento nos preços do milho para a safra 2015/16”, argumenta.

O segredo do sucesso — O sucesso ou insucesso de uma lavoura está diretamente relacionado à escolha correta da semente. A regra vale para todas as culturas, especialmente no caso do milho, em que a cultivar é responsável por 50% do rendimento final. Para plantio na safra 2015/ 16, as empresas produtoras de sementes de milho disponibilizam 477 cultivares, sendo 284 transgênicas e 193 convencionais.

Israel Filho, da Embrapa, esclarece que a escolha da cultivar de milho deve considerar o sistema de produção, pois não adianta uma semente de alto potencial produtivo se as condições da lavoura não permitirem que expresse o seu potencial genético

Essas cultivares, conforme explica o Pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Israel Alexandre Pereira Filho, apresentam grande variação, tanto no custo da semente como no seu potencial produtivo. “O rendimento de uma lavoura de milho é o resultado do potencial genético da semente e das condições edafoclimáticas do local de plantio, além do manejo da lavoura. Portanto, a escolha da cultivar deve levar em conta o sistema de produção que o agricultor preconiza. Não adianta usar uma semente de alto potencial produtivo e de maior custo se o manejo e as condições da lavoura não permitirem que a semente expresse o seu potencial genético de produtividade”, observa.

No entanto, há outros aspectos relacionados às características da cultivar e do sistema de produção que devem ser levados em consideração para que a lavoura se torne mais competitiva. “A escolha de cada cultivar deve atender necessidades específicas, pois não existe uma cultivar superior que consiga atender todas as situações.

Aspectos como adaptação da cultivar à região, produtividade e estabilidade, ciclo, tolerância a doenças, qualidade do colmo e raiz, textura e cor do grão também deverão ser avaliados”, acrescenta Israel.


Arroz: evite as áreas de risco e plante em setembro

Diante do cenário climático que se desenha para a próxima safra, a principal recomendação do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) para os produtores é evitar o plantio em áreas de risco. “Em anos com maior ocorrência de chuvas na primavera, sempre se destacam os produtores que conseguem semear dentro da época recomenda. Historicamente, entre a segunda quinzena de setembro e o mês de outubro, na média, temos 12 dias para realizar a semeadura e o produtor tem que se planejar para isso”, avalia o engenheiro agrônomo e gerente da Divisão de Pesquisa do Irga Rodrigo Schoenfeld (foto).

A melhor estratégia, conforme o pesquisador, é semear o que for possível a partir de 20 de setembro. “Se der para plantar tudo em setembro, melhor ainda. Para isso, é necessário aumentar a capacidade operacional, mas o produtor não precisa comprar novos equipamentos. Ele pode terceirizar ou fazer parcerias que propiciem a semeadura mais rapidamente, além de organizar equipes de colaboradores para que possam nesse cenário trabalhar dia e noite”, sugere.

Schoenfeld lembra que, nos últimos anos, produtores de alta tecnologia vinham semeando 40% da área em setembro e os 60% restantes em outubro. “Eu diria que esse é um ano para inverter esse percentual para 60% em setembro e 40% em outubro”, argumenta. “Outro grande problema em anos como este é o momento de fazer as operações devido ao excesso de chuvas. Então é preferível antecipar a atrasar”, acrescenta.

Em relação ao manejo de plantas daninhas, o pesquisador ressalta que, chovendo ou não, elas não param de se desenvolver, então o produtor deve estar atento para nunca perder o “ponto de agulha” com o uso do glifosato. “Em anos como este, aumenta a importância do uso de pré-emergentes, que dão flexibilidade de 10 a 15 dias na média para o produtor. O manejo de nutrientes, principalmente nitrogênio e potássio, também são muito afetados pelo clima. Em ambos os casos, controle de plantas daninhas e manejo da adubação, o melhor é fazer uso da aviação agrícola, que é uma ferramenta ágil, rápida e facilita essas operações”, resume.


Algodão: evite ações desnecessárias e aprimore as necessárias

Os primeiros levantamentos de intenção de plantio feitos pela Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa) e pelo Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) para a safra 2015/16 indicam a manutenção na área de cultivo da pluma, que deverá chegar a 577 mil hectares, a serem semeados a partir de 1º de dezembro. Essa expectativa pode ser atribuída, em boa parte, ao fato de os preços, apesar de baixos, estarem relativamente estáveis.

Para Gustavo Piccoli, que preside as duas entidades, este é um ano em que os gastos com a lavoura de algodão também estarão mais altos. “Estimamos os custos de produção em aproximadamente R$ 7.600 por hectare, considerando somente os custos variáveis. Isso significa um aumento de aproximadamente 15% em relação à safra 2014/15. Além disso, como o crédito rural oficial foi liberado apenas a partir de julho, o produtor se atrasou na compra dos insumos e isso pode comprometer a logística dos insumos usados em todas as culturas que fazem parte do sistema produtivo adotado em Mato Grosso”, informa.

Como recomendação aos produtores do estado, Piccoli sugere atenção na escolha correta de variedades de sementes. “É fundamental utilizar as variedades recomendadas pela pesquisa para cada região; realizar o plantio no período correto e adotar como regra a racionalidade no uso dos demais insumos. O produtor também deve evitar operações desnecessárias e executar com perfeição as que forem necessárias. Mais do que nunca, atentar para o monitoramento de pragas e doenças para poder fazer as aplicações na hora certa utilizando os princípios do Manejo Integrado de Pragas”, aconselha.