Glauber em Campo

 

REPENSANDO A AGRICULTURA DO FUTURO

GLAUBER SILVEIRA

A Aprosoja-MT realizou um evento muito importante, que foi o I Simpósio Agro Estratégico, cujo objetivo foi discutir o sistema de produção agrícola, não só o adotado em Mato Grosso, mas o brasileiro, afinal, não existe fronteira estadual da produção. O objetivo não é só discutir a produção de soja, mas sim todo o sistema de produção. Afinal, a produção agrícola chegou a um estágio que precisa ter os enfrentamentos para avançar em produtividade e, por isso, o tema “Repensando a Agricultura do Futuro” é extremamente pertinente.

Apesar de alguns isolados produtores estarem conseguindo avançar em produtividade, nos últimos 15 anos, segundo dados da Conab, saímos de 51,5 para 52,1 sacas/hectare. Ou seja, a produtividade está estagnada, com custo de produção crescente, só não quebramos porque o preço tem se ajustado. Mas, mesmo assim, as margens ficam muito apertadas e, a exemplo destas últimas safras, ficamos dependendo sempre da tragédia climática de um concorrente internacional para que venhamos a ter rentabilidade.

Sendo assim, o desafio nos próximos anos é identificar as causas da estagnação da produtividade, muitas delas já identificadas. Mas, sem dúvida, o desafio vai além da identificação de causas, e sim como usar o conhecimento e a tecnologia de produção para mudar a realidade e continuarmos a crescer em produtividade e, principalmente, em rentabilidade, afinal, o importante é ter renda na atividade.

A agricultura brasileira nos últimos anos tem enfrentado problemas de tecnologia de produção que vem se agravando, como o aumento do uso de defensivos agrícolas, sejam inseticidas, fungicidas ou herbicidas. Esses insumos, há cinco anos, respondiam por 26% do custo de produção, mas na última safra chegaram a 36% e, em alguns casos, a 40%.

A nossa tão elogiada eficiência dentro da porteira está em xeque, seja por nutrição, pragas, doenças ou plantas daninhas. Técnicas como a adubação a lanço, velocidade de plantio, controle de pragas e doenças, falta do uso do tão pregado manejo integrado de pragas, o uso cada vez maior da dessecação antecipada da soja para antecipação da safrinha de milho, falta de rotação de culturas entre outros são fatores que nos colocaram frente a um muro limitante da produtividade.

O que chama a atenção é que o produtor tem que se reinventar e buscar eficiência e eficácia na produção. Afinal, se não está aumentando sua produtividade é sinal que algo está errado, seja na forma, quantidade ou técnica do que está desenvolvendo. Isso vale não só para a soja, mas para toda atividade agrícola, fatores como tecnologia de aplicação, qualidade do plantio, correção do perfil do solo e matéria orgânica a muito vem sendo pontuados pela pesquisa.

Sendo assim, nosso desafio é grande, mas compensador, afinal, temos visto muitos produtores tendo sucesso. As soluções, sem dúvida, são regionais, afinal em um País deste tamanho o microclima e a realidade são diferentes. Não existe receita de bolo. Na verdade, a receita de bolo tem sido o vilão da produtividade, pois cada propriedade tem uma realidade do perfil de solo, de pragas como nematoides e, por isso, é necessária uma identificação individual de fatores limitadores da produtividade.

A biotecnologia teve uma contribuição significativa para essa estagnação da produtividade, pois quantas vezes ouvimos que a tecnologia RR e BT facilitavam a gestão da propriedade. E facilitavam mesmo, mas faltou informação, extensão rural e, com isso, o uso indiscriminado e mal empregado trouxeram resistências das pragas e plantas daninhas. Com isso, perdemos a eficiência da biotecnologia proposta, e o mesmo tem acontecido com defensivos agrícolas. Sendo assim, é preciso refletir e mudar, fazer diferente, ainda mais se o diferente for o correto.

O Brasil é o único País que permite o plantio de cultivos seguintes da mesma tecnologia. A exemplo, plantamos soja RR, seguido de milho RR, mais soja RR e aí vai. O mesmo para a tecnologia BT e assim segue. Claro que a vida da tecnologia passa a ser diminuída. O mesmo tem ocorrido com os defensivos agrícolas. O uso sequente do mesmo princípio ativo e mesmo modo de ação tem trazido resistências de pragas e doenças.

O que importa é que precisamos romper a barreira da produtividade e ter renda. Não existe um culpado. Todos precisam fazer sua avaliação, seja produtor, multinacional e Governo. O manejo produtivo deve ser repensado. Esse é o desafio. Com isso, ficam os questionamentos apresentados no Circuito Aprosoja: o que fazemos bem? O que precisamos repensar? O que não fazemos e devemos começar a fazer? O desafio está posto.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT