Na Hora H

 

SE O QUADRO POLÍTICO JÁ ERA RUIM, AGORA PIOROU AINDA MAIS

ALYSSON PAOLINELLI

Nada pior para o agricultor brasileiro que uma instabilidade econômica seguida de uma instabilidade política sem precedentes. Na instabilidade econômica é ruim para o sistema produtivo, mas se os principais instrumentos de políticas agrícolas públicas funcionarem bem, os produtores podem e estão ajudando muito o País. Já na instabilidade política, as coisas complicam cada vez mais, e nós produtores rurais pouco podemos fazer. Tenho sempre insistido na necessidade da participação do sistema rural em mobilizações que contestem os erros, as omissões e os descalabros que os nossos governantes venham a praticar na gestão do País. É o que está acontecendo agora.

O país indiscutivelmente vem necessitando de uma urgente reforma política. Durante a votação da Constituição de 1988, que nasceu sob a inspiração parlamentarista, o voto distrital e todas as suas boas intenções foram derrotados. Parlamentarismo e voto distrital são umbilicalmente parceiros. Não conhecemos em nenhum lugar do mundo um parlamentarismo que funcione sem o voto distrital. No final, a Constituição de 1988 ficou ingovernável. Assim se expressaram os seus principais líderes. De lá para cá, o que estamos fazendo é uma colcha de retalhos que não nos levará a lugar nenhum, a não ser na confusão e nos embrolhos que acabamos de nos meter. Trocar o pneu do carro com o carro andando e, o pior, em uma péssima estrada de rodagem, é uma operação que, de antemão, sabemos não vai dar certo. De 1988 até hoje não surgiu ainda uma proposta que seja completa e eficaz para nos dar a governabilidade que precisamos.

Se as amarras de uma burocracia inútil e retrógrada sufocam a administração pública e a transformam na mais cara e ineficiente que se conhece, as inovações em busca de uma autonomia técnica, financeira e administrativa hoje comprovam que o mau hábito de nomear apadrinhados sem a devida competência só nos leva a obter amarguras, furos e irresponsabilidades com as que estamos nos deparando.

Temos a responsabilidade de sermos competentes na gestão dos chamados pontos-chave na utilização dos recursos naturais que possuímos. O mundo de hoje não permite erros, omissões, ou pior, malandragens e falcatruas na ação competitiva que nos traz a globalização. Persistir no erro, nas omissões e nas falcatruas nos leva a um suicídio político diante de um mundo tão carente do uso racional dos recursos naturais que cada um possui.

Os péssimos exemplos hoje tão alardeados na mídia nacional acabam criando um estado de frustração e um péssimo exemplo à sociedade, que de forma séria tenta exercer o papel que lhe cabe em uma democracia. Esses maus exemplos que permanentemente são desvendados levam à gente séria e trabalhadora a sensação de que todos estamos sendo ludibriados e roubados, só restando a eles ou a alternativa de reagir contra, ou a pior, de achar uma teta para que façam o mesmo. E a nossa juventude? Como está se comportando? Sem muita opção de participar no processo político normal dentro de uma democracia, resta-lhe a alternativa do protesto de rua. Será isso suficiente?

Nós produtores, que há mais de 15 anos estamos sustentando a economia deste País, temos mais uma importante e indelegável missão: reagir contra o caos que se implantou no Brasil de hoje. Se os políticos não são capazes de resolver a crise que eles mesmos criaram, temos de tomar a nossa posição e partir junto com os segmentos da população que ainda acreditam como nós, e procurar sanear esta crise com a substituição por quem seja capaz de traçar um novo rumo que precisamos. O que não podemos é apenas assistir a derrocada sem uma reação que acorde o Brasil.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura