O Segredo de Quem Faz

Gigante da pecuária investe na SOJA

Denise Saueressig [email protected]

Desde a última safra, a integração lavoura-pecuária passou a fazer parte dos negócios da Nelore Grendene, investimento agropecuário da tradicional fabricante de calçados. A entrada da soja nos campos da fazenda Ressaca, em Cáceres/MT, foi motivada pela necessidade de recuperar pastos desgastados e pelo interesse na diversificação. Quem conta é o diretor de pecuária da Nelore Grendene, Ilson Ribeiro Corrêa, que há 33 anos trabalha na empresa. Embora o principal objetivo da integração seja a ampliação da produção de carne, os resultados com o grão nesse primeiro ano de cultivo foram surpreendentemente positivos e motivadores para a continuidade da expansão da lavoura nos próximos anos. “Com a soja melhorando o solo e a capacidade de suporte, podemos triplicar nossa produção sem derrubar uma árvore”.

A Granja - Como teve início a trajetória da família Grendene com a agropecuária?

Ilson Ribeiro Corrêa – Em 1982, a família adquiriu a fazenda em Cáceres e, em 1983, a fazenda em Andradina/ SP. Os negócios foram motivados pelo pensamento que ouço constantemente do sr. Pedro Grendene, que costuma dizer que o ideal é nunca colocar todos os ovos em uma cesta só. Resumindo, é uma família empreendedora, que tem tradição na indústria de calçados, mas que resolveu investir também na pecuária.

A Granja – Qual é o perfil das duas fazendas?

Corrêa – Até uns cinco anos atrás as duas fazendas eram voltadas apenas para a pecuária. No entanto, a fazenda Guanabara, em Andradina, acompanhou o movimento da cana-deaçúcar em São Paulo e, atualmente, são cultivados 10 mil hectares com a cultura nessa propriedade.

Em Cáceres focamos no projeto da produção de touros para reprodução. A fazenda Ressaca tem uma área total de 37 mil hectares, sendo que 17 mil hectares são pastagens. O rebanho total, entre machos e fêmeas, é de 30 mil cabeças. São 140 funcionários ativos que atuam conosco. Também mantemos uma pequena área, de 300 hectares, para o cultivo do milho que é usado para silagem.

A Granja – Como é direcionado o trabalho da empresa com o gado Nelore?

Corrêa – Nós trabalhamos para obter animais produtivos por meio das mais modernas tecnologias de seleção e melhoramento genético. A pecuária pensa em produção de carne por metros quadrados, ou carne por hectare. Nosso objetivo é produzir touros que possam melhorar o plantel de quem adquire nossos animais, usando e vendendo somente animais bem avaliados, que possam transmitir a parte interessante da raça.

São características como fertilidade, precocidade sexual e habilidade materna para que possamos e habilidade materna para que possamos desmamar bezerros mais pesados. Alguns itens que não abrimos mão são animais bem caracterizados dentro da raça, com um chanfro curto, como uma boca larga, um bom cupim em forma de caju, animais com aprumos corretos, musculosos.

Todos passam pelas avaliações da ANCP (Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores) e da ABCZ (Associação Brasileira dos Criadores de Zebu). Procuramos produzir esse tipo de animal para que possamos colaborar com a melhoria do Nelore nacional. Além do Leilão 1.000 Touros, realizado todos os anos, existe um canal de venda na própria fazenda. Ainda é pequena essa forma de comercialização, mas queremos aumentar. Também trabalhamos com um confinamento com capacidade entre 3 mil e 4 mil cabeças de gado comercial. No entanto, não é todo ano que fazemos o ciclo completo de cria, recria e engorda.

No ano passado e neste ano, por exemplo, não estamos engordando boi porque o mercado para bezerro está muito convidativo. Hoje você consegue vender um bezerro Nelore desmamado com preços em torno de R$ 6 ou R$ 6,50 o quilo, o que significa um boi de quase R$ 190 por arroba. Não vejo razão para segurar esse bezerro mais um ano ou um ano e meio no pasto. Então, estamos colocando no mercado toda nossa desmama.

A Granja - Como surgiu a ideia do investimento na integração lavoura- pecuária?

Corrêa – A principal razão para esse investimento foi a necessidade da reforma das pastagens. Sabíamos que tínhamos duas opções: ou investir pesado na adubação do pasto ou acreditar na agricultura. Conversamos com técnicos e com fazendeiros amigos que já estavam utilizando o sistema. Tínhamos muitas dúvidas, porque a região de Cáceres não tem a cultura agrícola. É uma região quase 100% de pecuária, com algumas pessoas experimentando a soja.

Fizemos cálculos e visitas, e chegamos à conclusão que visitas, e chegamos à conclusão que uma integração bem feita com a soja nos ajudaria a produzir mais carne por hectare. Assim, decidimos fazer um laboratório de 1.050 hectares na safra 2014/2015. Com os resultados iniciais, percebemos que é viável e possível. Por isso, vamos incorporar outros 1 mil hectares na próxima safra, até chegarmos a 5 mil hectares. Nosso objetivo maior é a produção de carne.

A nossa safrinha é a carne, e conseguimos obter um aumento na lotação das pastagens onde a soja foi cultivada. Em cada hectare onde antes tínhamos 0,9 à uma cabeça por hectare, hoje já é possível trabalhar com três cabeças por hectare por um período entre 150 e 180 dias. É cedo para falar se vamos seguir com essa lotação até meados de setembro, mas nosso objetivo é a partir do terceiro ano atingir cinco cabeças por hectare.

Percebemos que já houve enriquecimento do solo na área trabalhada. O solo deteriorado e cansado vai se revitalizando e, assim, temos um outro tipo de solo, um outro tipo de pastagem e, consequentemente, triplicamos a nossa lotação.

A Granja – Como foi conduzido o planejamento para iniciar o projeto em uma área significativa, de cerca de 1 mil hectares?

Corrêa - O laboratório - como chamamos - de 1 mil hectares foi ideia do sr. Pedro, que sempre pensa em grande escala. Logicamente foi necessária uma nova estrutura na empresa, o que incluiu a compra de máquinas, a contratação de profissionais, principalmente agrônomos, e o treinamento de mão de obra.

Dos 140 colaboradores da fazenda, contratamos 30 funcionários especificamente para a lavoura, e esse número deve aumentar mais um pouco na medida em que o projeto crescer. Foram investidos R$ 5 milhões nesse primeiro ano em ações que vão desde o preparo do solo até a colheita. Também estamos prestando muita atenção ao aspecto ambiental da produção. Contratamos um engenheiro florestal e os serviços de um laboratório de biologia.

Estamos monitorando a água que entra na fazenda e a água que sai e cai no rio Paraguai. Estamos coletando material para sabermos se há impacto ambiental junto à bacia do rio Paraguai e até o Pantanal. Temos uma grande preocupação com a questão ambiental. Dos 37 mil hectares da fazenda, apenas 17 mil hectares são preenchidos com pastagens, ou seja, mais da metade da área é de preservação ambiental.

A Granja - Quais foram os principais desafios desse começo com a produção de soja?

Corrêa - O nosso maior desafio foi a mão de obra. Sabíamos que existia essa dificuldade, mas não sabíamos que seria desse tamanho. Foi necessário trazer pessoas de fora da cidade para trabalhar. Hoje investimos muito em treinamento e mantemos parcerias com o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), com o Sindicato Rural de Cáceres e com a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Estamos nos esforçando para que possamos aproveitar a mão de obra da cidade, que são pessoas que já estão adaptadas ao meio.

Quando estávamos projetando o início do cultivo, também pensávamos que poderíamos passar por intempéries com o clima, porque na região chove um pouco mais tarde, mas para nossa surpresa, a chuva ocorreu no momento certo e no lugar certo. De qualquer forma, sabemos que nem tudo são flores na agricultura, mas estamos preparados para os desafios.

A Granja – O clima bom ajudou na produtividade da soja? Qual foi a média obtida na área?

Corrêa - Tivemos um rendimento médio de 57,5 sacas por hectare, bastante acima do que esperávamos, que era algo em torno de 45 sacas por hectare. Em uma área de cerca de 200 hectares onde anteriormente havia cana, a produtividade chegou a 73 sacas por hectare. Sabíamos do tamanho do nosso desafio, mas tudo que tinha que acontecer de bom, aconteceu. Choveu no momento certo e parou de chover na hora certa. Até o preço de venda da soja colaborou. Conseguimos uma média de R$ 58 a saca, mas achávamos que iríamos obter um valor abaixo de R$ 50.

A rentabilidade foi bastante positiva, porque nosso custo de implantação foi de 45 sacas por hectare, e produzimos 57,5 sacas por hectare. Para a próxima safra, sabemos que dependemos da chuva e também sabemos que temos limitações de solo, mas acreditamos que, no mínimo, a produtividade deverá se manter ou crescer em torno de 10%.

A Granja - Como foi conduzido este primeiro ciclo com a integração?

Corrêa - Plantamos a soja entre o início de novembro e o final de novembro. A colheita foi feita entre meados de fevereiro até o final de março. Mas 20 dias antes de iniciar a colheita da soja, fizemos o plantio aéreo de Brachiaria ruziziensis. No momento da colheita da soja, essa braquiária já nasceu. A planta começa a receber luz e tem um desenvolvimento muito rápido. Assim, em mais 30 ou 40 dias, já é possível soltar o gado no pasto.

Para agilizar o processo, na medida em que os talhões são colhidos, uma equipe providencia a instalação das cercas elétricas. A partir de 15 de setembro, tiramos o gado, a braquiária recebe umas três chuvas e, em 30 ou 40 dias, passa por dessecação e estará apta para o plantio direto da soja.

A Granja – O que já foi possível aprender com a integração e quais as projeções para a Nelore Grendene na área do agronegócio nos próximos anos?

Corrêa – Acreditamos no nosso projeto e nos cercamos de pessoas sérias e competentes em suas áreas de atuação. Também tivemos sorte nesse início, principalmente em relação ao clima. Esperamos continuar assim, porque queremos continuar crescendo no agronegócio. Falamos que a projeção para a soja é de 5 mil hectares, mas a fazenda tem potencial para mais, e poderemos alcançar até 8 mil ou 9 mil hectares.

Esse número também depende de investimentos do Governo, como o Porto de Morrinhos, no rio Paraguai, para facilitar o escoamento da produção. Queremos continuar ampliando a geração de touros para aumentarmos a produção de carne. E o mais importante: com a soja melhorando o solo e a capacidade de suporte, podemos triplicar nossa produção sem derrubar uma árvore.