Eduardo Almeida Reis

 

FERIADÕES

EDUARDO ALMEIDA REIS

Sempre que há um feriadão – e 2015 tem sido pródigo – fico torcendo para o genro me convidar para a fazenda em que produz leite na zona da Mata de Minas. Casa grande, clima adorável para quem detesta frio, piscina, churrascos e intenso movimento de motociclistas. Hoje, não há empregado rural que não tenha moto para ir do estábulo até sua casa e vice-versa. As motos fazem 42 quilômetros com um litro de gasolina e os motoqueiros ganham dois salários, casa, luz, leite e as frutas do pomar da sede. Carteiras assinadas.

Netos motoqueiros nas pistas de MotoCross construídas por eles, fazendeira que vai de moto pegar os ovos no galinheiro distante 600 metros, estábulo moderno automatizado, ordenhadeiras e tanque de expansão autolimpantes, recolhimento do leite em caminhões-pipa refrigerados, cooperativa que faz o melhor doce de leite do Brasil.

Sei que há vários melhores doces de leite do Brasil, mas o da cooperativa é um deles. Linguiças também há várias melhores e só agora descobri a melhor de Juiz de Fora feita à vista do freguês, diversos sabores, ambiente limpíssimo, preços normais.

Avô atípico, reconheço que sou meio chato com os netos porque vivo implicando com as suas estripulias. Dizem que avós não devem educar os netos, mas é por bem e com as melhores intenções, até porque meu genro foi campeão mineiro de MotoCross e ainda recentemente o vi a cavaleiro de uma Yamaha de quatro carburadores, suposta de ser a mais veloz do mundo rivalizando em arrancadas com os carros de Fórmula 1.

Sempre dirigi bem, mas comecei aos 15 anos e com 16 já filava o Oldsmobile de meu pai para passear com as namoradas. Meu neto mais velho começou a dirigir aos 8 anos na fazenda dos pais, estradinhas internas. Com 10 anos, manobrava caminhõesgaiolas cheios de vacas, veículo dificílimo de conduzir pelos movimentos das vacas engaioladas. Mozart compunha com 7 anos e foi Wolfgang Amadeus Mozart. Duvido que aos 10 anos pilotasse um caminhão-gaiola e uma retroescavadeira.

Desde sempre meus presentes de Natal para o neto mais velho foram caixas de ferramentas, o que não o impediu de alcançar o primeiro lugar na classe A do melhor colégio da cidade no preparo do vestibular. De quê? Não quero palpitar, mas ele está pensando no ITA de São José dos Campos/SP, se bem que tenha nascido com especial aptidão para o comércio. Desde pequeno vendia os meus carros usados. O avô pedia R$ 16 mil e ele vendia por R$ 20. Rachávamos a diferença.

O neto mais novo é cavaleiro, acorda às 5h para assistir à ordenha, adora bichos e deseja estudar Medicina Veterinária. Bela profissão, mas há que escolher uma boa escola, considerando que o Brasil tem 197 (cento e noventa e sete!), 70% delas particulares. Falei delas aqui n’A Granja há poucos meses, mas os números são de tal forma assustadores que não me custa insistir no assunto. Em pouco mais de 100 anos chegamos a 197 escolas, enquanto a África do Sul tem 1 (uma), a Holanda, 1 (uma), a Austrália tem 7, o Canadá tem 5, os Estados Unidos têm 29, o Reino Unido tem 7 e a exagerada Rússia, com seus 17.124.442 km2, o dobro do nosso território, tem 41. Fiquemos com os números norte-americanos e sua espantosa produção agropecuária: são 29 escolas contra 197 brasileiras. Temos quase sete vezes mais escolas de Medicina Veterinária que os americanos, e 197 vezes mais que os holandeses e os sul-africanos, números que recolhi de um artigo do veterinário Luiz Octávio Pires Leal. Pioneira no ramo, a França tem hoje 4 escolas. E a Nova Zelândia, a exemplo da Holanda e da África do Sul, só tem 1.

Pensando bem, um avô fumando charutos na poltrona da varanda ou querendo a tevê ligada nos canais que nunca são os preferidos pelos netos e seus pais nada acrescenta ao feriadão na fazenda, além da preocupação de coar café para o idoso e de alimentar o chato convidado. Fosse ele um Mark Twain, gênio do humor, os hospedeiros teriam temporada deliciosa apesar dos charutos que o americano também fumava. Avô brasileiro só serve para dar trabalho e para chatear com a mania de educar seus netos, de perguntar se viram os e-mails que lhes encaminhou – ao menos os e-mails sobre assuntos interessantes – considerando que sugerir a leitura dos livros escritos pelo chato sempre esteve fora das cogitações. Donde se conclui que é melhor não concluir nada e continuar torcendo pelo convite em um dos próximos feriadões.